Mentira

Dizem que um suíço nunca mente. Que os franceses também, mas não falam a verdade. Que um alemão omite. E que o único momento em que um inglês sorri é quando está mentindo.

MARCELO RUBENS PAIVA,

17 de novembro de 2012 | 02h41

 

Um japonês quando é pego mentindo chora e se humilha na frente dos companheiros. Os mais dramáticos se matam. Os tradicionais cometem haraquiri diante das câmeras.

 

Americano não mente, joga com as palavras. O caso mais notório foi o de Clinton, que negou peremptoriamente ter tido relação sexual com a estagiária da Casa Branca, Monica Lewinsky, apesar da mesma ter no armário um vestido azul manchado do resultado do gozo presidencial.

 

Acusado de perjúrio e obstrução da Justiça, Clinton se safou do impeachment com uma calculada manipulação de palavras, o que deve ter aprendido com o clã Kennedy. Ele e Monica até fumaram charutos. Fizeram de tudo, menos "intercourse sexual". Aliás, se tivessem feito, o que aquela primeira ejaculação fazia na lateral do vestido azul, que depois foi periciado?

 

Clinton é ainda um dos presidentes americano mais populares da história. Menos em casa.

 

***

 

Já os brasileiros. Ah, os brasileiros... Mentem sem qualquer cautela. Alguns conseguem mentir dentro de outra mentira. Como aquele político corrupto que nega ter dinheiro depositado em paraíso fiscal até o banco de lá tornar público, apesar do sigilo, os extratos, e perguntar de onde vem tanta grana. O malandro ainda afirma que doa tudo, se for verdade. Claro que nunca cumpre a promessa.

 

Tem brasileiro que mente quando chega atrasado, sonega impostos, é pego na cama com outra, é flagrado em blitz, fura fila. Primeiro se faz de desentendido, depois mente. Imagino quantas vezes um policial rodoviário escutou:

 

"Seu guarda, a lâmpada deve ter queimado agora, quando saí da revisão para a estrada estava tudo acendendo."

 

"Pneu careca? Olha aqui os sulcos."

 

"Ih, deixei o documento em casa, no bolso do paletó de dois botões, que está na moda, e a anta da minha mulher levou para a lavanderia."

 

"Extintor vencido? Pois é, eu estou indo agora comprar um. O senhor sabe onde encontro um baratinho?"

 

"Eu não estava correndo, apenas tive que me desviar de um cachorro e acelerei. Um cocker spaniel. Será que ele ainda está vivo?"

 

O Brasil já começou como uma mentira. O descobrimento do Novo Mundo foi repleto de espiões, agentes duplos, segredos, alarmes falsos. Ou alguém acredita que Cabral aportou por estas praias casualmente?

 

Quando Pero Vaz de Caminha escreveu "aqui plantando tudo dá", já tinha espanhol tomando o verdadeiro açaí do Amazonas, assando um espeto no Sul, dançando lambada no Maranhão, e francês desenhando índia nua na Baía de Guanabara e ensinando french kiss.

 

Aliás, Caminha esqueceu de colocar a nota de pé de página: "Aqui tudo dá com altos investimentos em irrigação rural e até desvio de rios."

 

Dom Pedro I não proclamou a Independência num enorme cavalo branco, veículo preferido de seu ídolo, Napoleão, mas numa mula "pau-pra-toda-obra", o utilitário da época. E estava às margens do Ipiranga debruçado com uma cavalar diarreia. Seu brado não deve ter sido retumbante, mas um sussurro. E há quem afirme que o melhor bordel da região ficava coincidentemente às margens plácidas.

 

Seu pai, dom João, que era incapaz de reconhecer qual daqueles guris era seu filho legítimo, disse antes de partir pra Lisboa que faria um saque rápido na única agência de banco do Brasil, criativamente chamado de Banco do Brasil. Rapou todo o ouro depositado no cofre.

 

O fim da escravidão, uma espécie de promessa de campanha da Família Real, só aconteceu de fato quando generais marchavam para Proclamar a República.

 

Getúlio assumiu para pôr um fim à política de cartas marcadas do café com leite. Transformou seu Estado Novo numa clássica e velha ditadura. Generais deram o Golpe de 64 com apoio de civis, prometendo entregar-lhes o poder o quanto antes. Este "o quanto antes" durou 21 anos.

 

A mentira em que só a militância fiel acredita é aquela "assinei sem ver". E a necessária para a governabilidade é "não sabia de nada".

 

***

 

Mas mentira maldosa mesmo viveu dona Odete, uma amiga da família. Apaixonou-se por um geólogo, que conheceu num carnaval em Santos. Que trabalhava em prospecção de petróleo em alto-mar. Com quem dançou, bebeu, se esbaldou e fez amor nas areias não iluminadas do Boqueirão.

 

Zé Álvaro fascinava, pois explicava com paixão os esforços para se extrair o líquido tão precioso onde jamais ninguém tentara. Falava da potência em que o Brasil poderia se transformar. E todo esse vocabulário, extrair, potência, camadas, perfurar, excitava mais ainda Odete, que nem viu o carnaval passar.

 

Foi só na Quarta-feira de Cinzas, quando teria de pegar um helicóptero para a plataforma marítima, que ele anunciou, envergonhado, porém sincero, que era casado.

 

Foi só na sua volta, semanas depois, que ela soube detalhes de quanto ele era malcasado, de que a esposa deprimida tentara se matar quando ele anunciou o fim do casamento, e de que continuava com ela até o único filho entrar na faculdade, pois tinha medo de que um ambiente emocionalmente complexo e desestabilizado pudesse atrapalhar os estudos e o futuro do menino.

 

Odete acabou novamente seduzida pelos encantos e lábia do geólogo, especialmente quando ele explicou detalhes da perfuratriz, prospecção, de como sugar e enfiar a broca, e se entregou numa pensão de José Menino.

 

Decidiu amar aquele homem até que a situação se definisse. Não o pressionou. Foi até fiel. Contou para poucos confidentes que se relacionava com um homem casado. Ouviu da maioria que ela deveria vazar o mais rápido possível. Não perguntou onde ele morava, nem como era a concorrente, nem se o filho ia bem na escola, tirara nota boa no Enem e estava decidido a seguir qual profissão.

 

Mas a pior das mentiras estava por vir. Um dos confidentes, também do ramo petrolífero, resolveu investigar mais detalhadamente a vida de Zé Álvaro, preocupado com a amiga, que se mudara para um flat no Gonzaga. Assombrado, decidiu contar pessoalmente o que descobriu:

 

"Ele não é nem nunca foi casado."

 

O mundo desabou para Odete. Por que inventar toda aquela história, por que não assumir que era solteiro, livre, por que mentir durante tantos anos?

 

"Antes fosse casado", repetia uma Odete abismada com a traição e decidida a nunca mais aparecer na Baixada Santista.

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