Marcelo Fautini/Divulgação
Marcelo Fautini/Divulgação

'Mente Mentira' de Sam Shepard, por Paulo de Moraes

Fernanda Machado e Malvino Salvador vivem os protagonistas da trama que estreia no teatro Raul Cortez

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2010 | 06h00

Nova York assistiu, no início deste ano, à primeira grande remontagem de A Lie of the Mind. Lançada em 1985, e quase instantaneamente reverenciada como clássico, a peça de Sam Shepard voltou em janeiro aos palcos da off-Broadway. A versão, saudada pela crítica, foi dirigida pelo ator Ethan Hawke, mais conhecido por sua carreira no cinema. Não é apenas nos Estados Unidos, porém, que o texto continua a merecer revisitas.

 

 

Por aqui, o diretor Paulo de Moraes, da Armazém Cia. de Teatro, também se lançou à tarefa de encenar o drama maior do autor norte-americano. Com estreia prevista para domingo, no Teatro Raul Cortez, Mente Mentira traz Malvino Salvador e Fernanda Machado como o desajustado casal Jake e Beth. Em um acesso de ciúme, ele a agride a ponto de deixá-la desacordada e supor que a teria matado. A crise conjugal é profunda, traumática. Mas não será esse o único foco da trama de Shepard.

 

A partir da separação, Beth e Jake retornam à casa dos pais e esse é o pretexto para que saltem a primeiro plano os conflitos e transtornos de suas famílias. Quando escreveu essa história, o dramaturgo já tinha dado provas de quão agudo era seu olhar sobre relacionamentos. Buried Child, texto de 1978 premiado com o Pulitzer, também perscrutava a quebra de tradições familiares. Foi com Mente Mentira, contudo, que Shepard aprofundou sua investigação de uma série de obsessões próprias dessa seara: a honra, o machismo, a maternidade.

 

Quase Godot. "Ele se parece muito com o Nelson Rodrigues na maneira como trabalha essa temática da família", pontua o diretor. Outro traço que chama a atenção de Moraes é o modo particular com que Shepard trafega pelo realismo. "Apesar da aparência realista, as cenas em vários momentos escapam para uma abstração, se aproximam do (Samuel) Beckett, fazem lembrar Esperando Godot."

 

Na peça, os limites entre verdade e mentira estão sempre sendo postos à prova. A agressão do marido deixa Beth com um dano cerebral. Sem a exata consciência do que se passou, ela passa a misturar fatos, a confundir realidade e fantasia e desgarrar-se, gradativamente, dos modelos impostos pela família e pelo ex-cônjuge. Ao fim, as personagens lúcidas se revelam as mais perdidas.

 

O universo de Shepard está pontuado de símbolos da cultura norte-americana. Basta lembrar de Paris, Texas ou de Loucos por Amor. Em suas obras aparecem imagens de caubóis, evocações do velho oeste, reflexos de uma sociedade autoritária. Ao contrário de outras adaptações brasileiras, que costumam retirar essa carga dos textos, a tradução de Mauricio Arruda Mendonça, companheiro de Moraes na cia. Armazém, manteve as referências originais. "Essas referências já estão tão difundidas que achamos que o público saberia reconhecê-las", diz o diretor.

 

Mente Mentira - Teatro Raul Cortez. R. Dr. Plínio Barreto, 285, 2626-0261. 6ª, 21h30; sáb., 21h; dom., 19h. R$ 60/ R$ 70. Até 12/12. Estreia domingo.M

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