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Mente avoada

Em condições normais da vida, já é difícil não pensar nos problemas quando eles nos aparecem. Numa pandemia sem precedentes como a nossa, encontrar um intervalo, um espaço de descanso para a mente fica ainda mais desafiador

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2020 | 03h00

Já confessei que não segui muito bem as recomendações que eu mesmo dei, desde o início da pandemia, para a manutenção da saúde emocional. As duas principais dicas que repito há quase meio ano são criar e manter uma rotina e arranjar algo para se distrair. A verdade é que tive muita dificuldade para organizar a rotina - coisa que até hoje me custa certo esforço. Por outro lado, no que diz respeito a encontrar algo que ocupasse a minha mente para além da pandemia e seus problemas, cumpri a tarefa com esmero. E tão bem que acabou se tornando um hobby que certamente se estenderá quando tudo isso passar.

A história começou meio por acaso. Estávamos numa cidade do interior de São Paulo, cercado de árvores, onde, com alguma frequência, éramos visitados por um pássaro lindo, castanho-avermelhado e com uma longa cauda que terminava em penas com pontas brancas. Depois de vê-lo por algumas vezes, surgiu uma curiosidade para saber que ave era aquela. Pesquisei, então, essa descrição na internet e descobri tratar-se do alma-de-gato (Piaya cayana). O nome é pertinente, já que, mesmo com todo aquele tamanho, ele se desloca sorrateiramente pelas árvores, passando de um galho para outro sem fazer alarde, caçando insetos e pequenas larvas. Não é exagero dizer que a descoberta foi prazerosa: nosso cérebro é ávido por ordem, por categorizações; ao prazer estético da contemplação do pássaro, portanto, somei o prazer cognitivo de descobrir seu nome, seu sobrenome, suas características.

Foi um estalo. Imediatamente quis descobrir os nomes dos outros pássaros que costumavam aparecer por ali. Daí em diante, as portas se abriram: saíra-amarela (Tangara cayana), sanhaço-cinzento (Tangara sayaca), tico-tico (Zonotrichia capensis), sabiá-do-campo (Mimus saturninus), chupim (Molothrus bonariensis) - não vou aborrecer o leitor com minha lista crescente. Mas preciso dizer que esse exercício não é só de conhecimento, mas de atenção. Identificar as semelhanças e diferenças entre bem-te-vi (Pitangus sulphuratus) e neinei (Megarynchus pitangua), por exemplo, e aprender a diferenciá-los de ouvido, por seu canto, é um treino de atenção sustentada - o que sabemos ser um alívio eficaz para o estresse. 

E esse aspecto da atenção é um dos que mais me espantaram em tudo isso. A riqueza da minha coleção - creio poder chamar assim os pássaros que registro - é enorme, crescente, e ainda assim não me custou nada mais do que olhar em volta. Não se trata de um hobby que precisei ir atrás, eles estavam o tempo todo ao meu redor. É incrível que eu estivesse tão distraído a ponto de não perceber tamanha beleza visual e sonora. Mesmo quem não tem a possibilidade de ir para uma cidade de interior pode observar dezenas de pássaros urbanos. Eu mesmo, nos dias em que volto para a capital para trabalhar, não consigo mais deixar de observar meus amigos emplumados. Já vi o sanhaçu-cinzento ao lado de meu consultório e o sabiá-do-campo no estacionamento do Hospital das Clínicas, só para dar uma ideia.

Em condições normais da vida, já é difícil não pensar nos problemas quando eles nos aparecem. Numa pandemia sem precedentes como a nossa, não só pela avalanche de preocupações como também por ser a primeira cercada por redes sociais e notícias disponíveis na ponta dos dedos a qualquer instante, encontrar um intervalo, um espaço de descanso para a mente fica ainda mais desafiador.

Por isso, sou grato aos meus novos amigos emplumados. Eles captam minha atenção de forma ímpar, me conectando com a natureza por preciosos minutos nos quais as preocupações é que voam para longe. 

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