Mensagens de amor sob o sol e a neve

Montagem sensível revela a correspondência entre Chekhov e sua mulher Olga Knipper

O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2011 | 03h06

O dramaturgo Anton Chekhov e sua mulher, a atriz Olga Knipper, personagens de Tomo Suas Mãos nas Minhas viajaram muito de trem pela Rússia da virada dos séculos 19 e 20. Como se trata de um tipo de transporte que hoje praticamente não se usa no Brasil, o detalhe pode reduzir o sacrifício que elas significaram. A Rússia é imensa e as ferrovias da época exigiam dias de deslocamento em uma terra de invernos cruéis. Chekhov era tuberculoso e precisava do clima seco e quente de Ialta, cidade à beira do Mar Negro, enquanto Olga cumpria temporadas numa Moscou com 22 graus negativos.

Duas décadas mais tarde, o mesmo trajeto seria palco de uma tragédia política. Quando Lenin morreu, em 1924, seu companheiro Leon Trotski estava adoentado e em repouso na região ("apesar de estarmos em janeiro, o sol queimava", ele anotou em sua autobiografia). Não houve tempo de regressar à gelada Moscou. Stalin assumiu todo o aparatoso cerimonial do sepultamento e, rapidamente, o controle do governo. Trotski acabou confinado em uma ilha do Mar Negro, princípio de uma vida errante até ser assassinado no México a mando de Stalin que estava, enfim, livre para decidir a execução de artistas como Meyerhold. Os trens e as distâncias.

O casamento Chekhov/Olga naturalmente abalado por doença e separação forçada, gerou 400 cartas do dramaturgo e muitas respostas dela. A peça está baseada nessa correspondência. Algo quase abstrato para a contemporaneidade da comunicação virtual-eletrônica compulsiva. Em consequência, é também a oportuna teatralização da poesia dos gestos e palavras intensos, vivos, em contraste com a pressa pela pressa (uma espectadora passou a sessão consultando recados no celular).

O palco que busca o humanismo pode e deve ser inatual quando modismos acríticos forçam a aglomeração ansiosa e a algaravia. Teóricos, pensadores como Artaud, Reich e Grotowski falaram disso, mas é tão fácil esquecer. Desalentadoramente fácil. Pois o espetáculo é um trem de emoções a atravessar a História da Rússia e da Arte Ocidental. Há referências ao Teatro de Arte de Moscou, de Constantin Stanislavski, e à Guerra Russo-japonesa (1904-1905) que agravou o desgaste do regime czarista semifeudal, abrindo caminho para a Revolução Bolchevique de 1917.

A dramaturgia de Carol Rocamora é o esforço de alinhavar uma comunicação enamorada em meio ao paradoxo apontado por Fernando Pessoa: Todas as cartas de amor são ridículas, mas só as criaturas que não as escrevem é que são ridículas. Por vezes, Chekhov parece voluntarioso ou impositivo demais enquanto Olga ostenta a frivolidade de quem só ouve aplausos e descreve jantares e intrigas de família. O que se impõe, no entanto, é a força psíquica dele em manter a chama criativa enquanto a doença avança. Coragem e resignação que Kafka demonstraria a seguir quando devastado pela tuberculose na laringe que o abateu, em 1924. Ela, por sua vez, caminha para além da trivialidade e cresce como atriz de talento e companheira devotada. Da tensão conjugal, artística e existencial surge a luminosidade da obra tocada por fatalidade e compaixão.

Diante do público está o autor de As Três Irmãs, Tio Vânia, O Jardim das Cerejeiras, A Gaivota e dos contos banhados de pungência. Um homem frágil que viveu apenas 44 anos (1860-1904) e não viu o nascer da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas das esperanças que afundaram no stalinismo. Olga (1868- 1959) sobreviveu à sua perda e ao próprio Stalin (que se foi em 1953).

A encenação de Leila Hipólito é toda sobriedade, da representação à parte visual. Um projeto nascido do empenho da produtora Vittoria Zanotto Duailibi com a assessoria da crítica Ilka Marinho Zanotto. A contensão emotiva de Roberto Bomtempo e Miriam Freeland evita o derramamento melodramático. É evidente a afinidade da dupla. Na realidade e na ficção, eles são um casal no enredo de encontros e despedidas.

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