Mensagem aos amigos da Lua

Na longa quarentena de 2020, nossa família seguiu uma dura rotina. Meu pai era corajoso e rígido, mas sua bravura e severidade tiveram que lidar com o medo

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2020 | 03h00

Tinha doze anos naquele abril de 2020. Os drones ainda não entregavam comida, tampouco havia esse variado menu de pastilhas. Cada uma concentra os sabores, temperos e as proteínas de um prato, e dá a impressão de que comemos bem. Pode parecer estranho aos robôs e às pessoas de 2090, mas muita gente ainda cozinhava em casa, descascava batatas e frutas, e chupava deliciosas mangas, agora rebaixadas a uma pastilha rosada! 

Na longa quarentena de 2020, nossa família seguiu uma dura rotina. Meu pai era corajoso e rígido, mas sua bravura e severidade tiveram que lidar com o medo. Aos 55 anos, ele percebeu que a coragem e a consciência do medo são inseparáveis. Em algum momento, ficou mais maleável, e no rosto paterno notei uma tristeza meiga. Ele até descobriu, com um prazer disfarçado, que podia trabalhar em casa, e que muitas das sessenta viagens por ano eram, se não inúteis, dispensáveis. Por fim, meu pai começou a conversar comigo, e essa foi uma das poucas alegrias da minha juventude interrompida. 

A solidão forçada desvelou sentimentos e atitudes, trancados a sete chaves. Na meia-idade, mamãe recuperou seus poderes de matriarca, e só era contrariada pela minha nonna. Juntas, tomaram as rédeas da casa, e ai de quem não as obedecesse. Meu pai colocava a máscara e descia para pegar caixas de alimentos, e ele mesmo lavava embalagens, frutas, legumes. Lá embaixo, nas belas manhãs de abril, assustava-se com a própria sombra, que ele julgava infectada. 

Vocês, plenamente adaptados ao ambiente das Sete Colônias Lunares, não imaginam o que era usar máscara. Até nas caminhadas éramos obrigados a usá-la. As tarefas da escola eram feitas no computador, ainda não havia microchips no cérebro, muito menos esses arrogantes robôs do tamanho de um ovo, que têm a pretensão de ensinar tudo. Ah, quanta saudade dos professores de verdade! E dos ovos! Acreditem, havia ovos! Eu mesmo comia dois ou três por dia; aprendi a preparar ovo poché, treze tipos de omeletes, fritada de legumes e carne seca com ovos, temperada com alecrim e uns pingos de cachaça de Minas. 

O tempo de reclusão, medo, tédio foi tristíssimo para quem perdeu parentes e amigos, e extenuante e pavoroso para os profissionais da saúde. Ainda assim, uma horda de bárbaros verde-amarelos xingava aqueles heróis e heroínas. Afinal, arriscar sua própria vida para tentar salvar milhares de pessoas não é um gesto heroico? 

Mas a peste nos conduziu à reflexão. Pensamos em nós mesmos e nos outros; pensamos no desperdício, na ganância, na crueldade, nas tragédias recentes, e no nosso passado, também trágico. 

Durante a pandemia surgiram inúmeras previsões otimistas e pessimistas quanto ao futuro. Todos acertaram. Os otimistas porque, uns anos após a catástrofe, a economia do planeta cresceu. Meu pai, um otimista contumaz, parecia um Pangloss pós-peste. Mas os pessimistas também acertaram, porque as guerras não cessaram, a vigilância e o controle digitais suprimiram nossa liberdade, o desemprego e a miséria aumentaram. No Brasil, permaneceu insolúvel o xis desta equação: por que a economia cresce e a desigualdade não diminui? Eis aí um grande enigma, queridos amigos da Lua.

Houve também mudanças e derrapagens ideológicas. A maioria do bando ultraliberal virou apenas liberal. Uma parte da esquerda bandeou para a social-democracia. Os inclassificáveis do “Grande Centro” se vangloriavam de sua cômoda posição simétrica, com guinadas à direita ou à esquerda: raposas oportunistas, sempre apegadas ao poder. A teoria econômica de Keynes foi celebrada e aplicada em muitos países; a de Hayek, execrada. 

Aos doze anos, como podia decidir? Acordava otimista, mas, quando anoitecia, ficava melancólico, e ia conversar com a nonna, que me ensinava italiano. Em 1939, ainda criança, ela e os pais migraram da Itália ao Brasil. Não era cética, mas dizia que a solidariedade humana só acontecia tarde demais, e que o reinado do egoísmo e da indiferença triunfariam. 

“Vejam o que está acontecendo com a Amazônia e com os indígenas em plena pandemia”, ela protestava. “Não aprendemos nada com os povos da floresta! Vejam a atitude desse Mussolini do submundo, e dos filhos dele... Una famiglia di facinorosi di estrema destra. Sabem qual é o lema dessa gentalha? Exterminem os idosos, os pobres e os indígenas!” 

Ela se referia ao presidente de uma República dilacerada. Uma década depois, esse sujeitinho torpe só seria citado nos rodapés dos livros de história. Os humoristas o evocavam com um apelido sutil: Capitão Cloroquina. Mas esse apelido e milhões de relatos sobre a pandemia também foram esquecidos. Para sorte dos leitores, os escritores retomaram suas inquietações íntimas, com seus fantasmas e suas obsessões. 

Não eram poucos os momentos de melancolia. Quando minha avó lia notícias de seu país natal, chorava em silêncio. Minha mãe, amante da arte e da literatura italiana, dizia: “A Itália é eterna, mamma”. 

Mas me lembro também de coisas boas. As estrelas voltaram a brilhar; a Lua (que ironia!) voltou a ser uma metáfora poética; os pássaros enlouqueciam de alegria naquele outono, quando me deliciei com a leitura de dois romances: O fim da eternidade e Da Terra à Lua. Li também contos infantojuvenis de Julio Cortázar, Clarice Lispector, Jorge Amado e Graciliano Ramos. Se alguém das Sete Estações da Lua quiser ler a obra desses autores, basta acionar no microchip a biblioteca Aleph. 

Todos os dias, antes de dormir, mamãe lia para mim fábulas das Mil e uma noites. Esse repertório de magias e pesadelos me fascinou; quando ouvi a fábula da última noite, já estava encantado por Sharyar, que sobreviveu por saber contar histórias. 

Enfim, um conselho deste ancião: não venham tão cedo para cá. Continuem a pesquisar nas Sete Estações. Aproveitem as festas de “Baco nas Crateras”, quando vocês celebram o amor do Cosmo. Bebam o já famoso Bordeaux Lunaire, e mandem umas garrafinhas para este velho dionisíaco. 

E enviem pelo sistema holográfico mensagens lunáticas de amor e solidariedade aos pobres humanos deste planetinha, que anda pra lá de doente.

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Jorge Amado

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