Menos dilemas, mais notas

Em Paris, quem não compõe à la Pierre Boulez será tocado apenas em conservatórios de periferia

Gilberto Mendes & Erudita, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2010 | 00h00

Alguns dos chamados compositores eruditos de hoje perderam sua tranquilidade. Vivem preocupados com o diálogo fatal com a criação, as relações de produção num mundo capitalista cheirando a putrefação, e até com a Queda do Muro de Berlim. Entendo bem o que se passa, porque sou um deles, mas reconheço que tudo isso aí é porque às vezes suspeitamos que não somos mais verdadeiros compositores, como foram aqueles de outros tempos. E passamos a também fazer literatura. Mas não adiantam lamentações à la Jeremias. A música não acabou, nem a poesia. Pode até acabar, para uma pessoa. Problema dela. Estamos vivos, ainda nos diverte bastante continuar escrevendo músicas e livros.

Grandes, imensos compositores foram, especialmente, Bach, Mozart, Schubert. Eles compunham como respiravam, naturalmente, sem lamúrias, nenhum questionamento. Um dedicava tudo a Deus, o outro às damas da corte que podiam ajudá-lo em sua carreira, e o mais ingênuo deles às mulheres que amava. Consta que morreu de sífilis, contraída nos bordéis vienenses.

Mozart, tido como o clássico por excelência, na verdade estava já revolucionando a linguagem musical de seu tempo, escrevendo passagens musicais que seu pai pensou serem cópias erradas, tamanha a ousadia de escrita. Num de seus "divertimentos" chegou a fazer música atonal, de brincadeira, mas fez. Compôs ainda a primeira música aleatória da história, já no século 18, experiência que só a vanguarda da segunda metade do século 20 voltaria a repetir.

Agora, esta nova preocupação. Com a música popular. A gente se esquece de que um intelectualíssimo compositor, como foi Schumann, recomendava ouvir as belas canções camponesas. Chacona, passacaglia, sarabanda, são todas danças do povo, cuja forma Bach utilizava em suas suítes e partitas. Uma coisa muito natural, esse "feedback" que sempre houve entre os dois campos musicais. Não só Bach, Duke Ellington e Led Zeppelin, como quer o perspicaz crítico americano Alex Ross, mas também Debussy, Bill Evans e Tom Jobim não se estranhariam num mesmo palco. Estamos cientes da possibilidade da música popular acumular duas funções, assumindo também o lugar da música erudita, já que é muitas vezes igualmente culta, inventiva, e tem uma vantagem: gigantesco público.

Assim como o neoclassicismo do século passado recuperou a impressionante beleza e comunicação da música tonal clássico-romântica, o chamado pós-modernismo musical de hoje se volta novamente à mesma beleza, como uma reação à "neue Musik" alemã. Lembro-me do sempre muito arguto Julio Medaglia falando que o rock é a "aids" das outras músicas populares, porque tira o poder de resistência delas. Pois bem, a "neue Musik" é também uma síndrome igual, que vem minando a resistência de muitas novas possibilidades musicais eruditas. Em Paris, quem não compõe dentro das diretrizes impostas por Pierre Boulez será tocado apenas em conservatórios de periferia.

Já nos Estados Unidos floresce uma realmente nova e comunicativa música, com John Adams, Philip Glass, Steve Reich, Golijov, consequência da velha integração musical judaico-anglo-italiana comandada pelo jazz negro. Você pode até não gostar da música deles, mas pelo menos já é outra música. Enquanto que na Alemanha ainda vamos encontrar um Helmut Lachenman pesquisando cuidadosamente aquilo que o frequentador comum de concertos quer, espera da música erudita, para exatamente não compor. Por outro lado, ainda na própria Alemanha, um compositor do porte de Maurício Kagel, expoente da "neue Musik", pouco antes de morrer compõe Stuecke der Windrose, nostálgica e romântica volta ao folclore argentino e andino de sua terra natal. E outro argentino, Gerardo Gandini, compositor de música eletrônica - de verdade, não de pista! - e ao mesmo tempo pianista de Piazzolla, afirma categoricamente que a música erudita não tem nada a ver com a popular. Deve saber o que diz, porque pratica as duas.

Eis a questão da música erudita hoje: voltar ou não a comunicar, a ser novamente a alegria dos homens. Como comunicou, deleitou, encantou extraordinariamente a música de todos os tempos passados, medievais, barrocos, renascentistas... e até modernos!

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