Meninas veneno

É fácil enganar-se com as fotos do Warpaint. São quatro moças californianas de bochechas rosadas e traços que sugerem a fase entre o fim da adolescência e o diploma da universidade. No disco, a história é outra. Primeiro da banda, The Fool é uma mistura invocadíssima de pós-punk com shoegaze, um opiáceo sonoro do bom, capaz de intimidar qualquer marmanjo cabeludo que se julgue roqueiro. Não que o Warpaint, como sugere o nome (tinta de guerra) seja agressivo a la Hole ou Riot Grrrl. A imponência da banda se dá de modo sutil, em viagens amplas que se densificam com repetição, como massa no girar da colher de pau, cimento na betoneira.

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2011 | 00h00

Quando se dá conta, já se está sob a hipnose viscosa de Warehouse ou Undertow, seduzido pela vastidão de seus espaços, de suas melodias negras e lânguidas. O centro de gravidade do Warpaint é a baterista Stella Mozgawa, instrumentista de toque roliço, que navega uma série de ritmos, do punk ao rock clássico ao funk, com exímia aptidão. A contundência da banda vem da forma com que Stella atrasa o ritmo e deixa as baquetas desabarem sobre o couro, aparentando um sutil desleixo cujo efeito é letal. Este veneno também é destilado nas letras da banda.

Em Baby, por exemplo, a vocalista Emily Kokal canta: "Você não vai ligar para ninguém por que eu ainda sou sua baby". É uma ameaça psicótica que reafirma que o Warpaint não está para brincadeira. Boa parte de The Fool é estática, com acordes menores inertes e melodias que pairam sobre eles. Mas de pouco em pouco Mozgawa toma conta do disco com seu suingue peculiar que, não inteiramente afro, mas certamente ritmado, põe o Warpaint para dançar.

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