Memorista noveleiro

Caderno analisou o trabalho do escritor no gênero da 'prosa ligeira', que era[br]capaz de atender bem a uma classe média de leitores

Antonio Soares Amora, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2011 | 00h00

Francamente, não sei onde a explicação do fato: se nas sugestões que sempre exercem, sôbre os escritores, a moda de certos temas, natureza mesma dêsses temas; a verdade é que a mais de um século, desde o teatro de Martins Pena e, pouco depois, das Memórias do Rio do tempo do Rei, escritas por Manuel Antonio de Almeida, a propósito das aventuras de um sargento de milícias, até hoje, o nosso Rio de Janeiro se insinua constantemente na literatura, como inesgotável e sugestivo assunto de memórias e de crônicas, de romances e de teatro de costumes. Que o tema tem tido êxito nos interesses do grande publico, nem é preciso demonstrar; mas êsse êxito, no fim de contas fácil de conquistar, tal a persistente predileção de tal publico, talvez não explique, tantas vêzes, desde o Romantismo, voltem nossos escritores ás pitorescas memórias aos episódios anedóticos, á paisagem urbana, á natureza e aos tipos humanos do Rio de Janeiro. Tudo faz crer, que mais que as sugestões, e compensações, do um gosto do grande publico, sustentam e renovam constantemente o tema, toda a história e toda a "sui generis" realidade dessa cidade, de inicio burgo de colonização, levantada a um canto de estratégica baía, depois porto do escoamento da mineração setecentista, em seguida sede do vice-reinado do Brasil, por fim côrte de um rei e de dois imperadores, e ao cabo Capital Federal. Mais de quatrocentos anos do história, feita de crescente importancia econômica e politica; uma fisionomia urbana excepcionalmente valorizada pela natureza; um aglomerado humano resultante de caldeamento de brasileiros, de portuguêses e de africanos de todos os cantos, com sucessivos enxertos de franceses e inglêses e agora de gente de desvairada origem - tudo isso contribuiu para que o Rio de Janeiro crescesse como cidade rica de crônica, curiosíssima no estilo de vida e nos tipos humanos, e sedutora na sua fisionomia geral.

Personagem, bem poderiamos dizer, e personagem persistente e cheia de interesse, dentro de nossa literatura, desde o século passado, o Rio de Janeiro teve em Joaquim Manuel de Macedo, malogrado médico, mas ficcionista de êxito, um de seus primeiros e mais entusiastas cronistas. Crônicas da vida carioca são todos os romances de Macedo, desde A Moreninha, aparecido em 1844, até A Baronesa de Amor, publicado em 1876: sempre histórias de corações que se amam mas, também, romances de costumes, de tipos psicológicos e de uma sociedade com peculiaríssimo caráter. Crônicas da vida carioca são também, e particularmente, A Carteira de Meu Tio (1855), as Memórias do Sobrinho do Meu Tio (1867-68), Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro (1862-63) e as Memórias da Rua do Ouvidor (1878) - obras que vale a pena reler, não apenas pelo que têm de informações e observações sôbre o Rio antigo, como pelo que podem sugerir de considerações muito importantes para a critica e para a historiografia literária.

Destas quatro obras, as Memórias da Rua do Ouvidor é, possivelmente, a de mais largo interêsse, pela matéria e porque escrita ao fim de longo e fecundo tirocínio literário do escritor, que, se não chegou a ser excelente prosador, foi, contudo, no gênero da prosa ligeira, ao gôsto de uma classe média de leitores, dos melhores que produziu nosso Romantismo (...)

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