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Memórias tombadas

Nos 464 anos de SP, um velho pedido: carinho com memórias apagadas em nome do progresso

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

23 Janeiro 2018 | 02h00

A idade a que São Paulo chega nesta quinta-feira pode não ser número redondo, desses que requerem comemoração especial. Mas não deixa de ter sua graça, e graça bem comemorável, quando menos porque 464 é uma capicua – nome esquisitinho, com jeito de coisa inventada em mesa de boteco, e que na verdade tem origem nobre, mais que isto, latina, ainda que se trate de latim vulgar. 

Quem dá esse show de sabença etimológica não sou eu, evidentemente, é o dicionário Houaiss, capaz de aclarar uma vez mais minha trevosa ignorância. Ele ensina, ainda, que capicua, substantivo feminino cujo primeiro registro escrito conhecido data de 1913, designa uma sequência de algarismos que, lida da esquerda para a direita ou no sentido inverso, permanece a mesma. Fossem letras e não algarismos, o nome seria palíndromo. 

Derradeiro ensinamento do mestre Houaiss, antes que você bata asas, julgando ter vindo parar, não numa crônica, mas na veneranda seção Enriqueça Seu Vocabulário, da revista Seleções: capicua resultou da soma de “capi”, que dá a ideia de “cabeça”, e, me perdoe o calão, “cu”, no sentido de “parte traseira”. Desconfio que o “a” final possa ter entrado com a função de atenuar a crueza do monossílabo em “u”. Em resumo, tanto faz partir de uma extremidade como da outra, pois a coisa é a mesma. E mais não digo. Limito-me a comemorar, neste 25 de janeiro, os 464 anos da cidade de São Paulo, não importando se de cá pra lá ou de lá pra cá. Até porque nova capicua só teremos em 2028, nos 474 anos da antiga aldeia de Piratininga.

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Para as comemorações de data mais redonda, os 450 anos, em 2004, outros tantos cidadãos paulistanos foram convidados a escrever frases sobre a aniversariante, a serem estampadas em estações do metrô. Honrado com minha inclusão naquele grupo, mobilizei sete palavras e um ponto de exclamação: “Danada de feia, mas cozinha como poucas!”. Frase da qual não tardei a me penitenciar, não exatamente por soar politicamente incorreta, mas por não fazer justiça às belezas de que minha cidade adotiva, quando quer, é fartamente capaz. 

Com o que resta de prudência a este mineiro não praticante, aqui enraizado há quase meio século, pai e avô de paulistanos, vou desta vez me limitar a sugerir algo que de resto seria desejável em qualquer outra cidade brasileira; nenhuma novidade: um esforço para assinalar, na pedra ou no bronze, a memória daquilo que de relevante tenha acontecido num prédio, numa casa, numa rua. Aqui viveu Fulana, aqui faleceu Fulano, aqui tal coisa se passou. 

Não, não estou enganado de país, a pretender que se reproduzam aqui cuidados e delicadezas de Paris, exemplo de cidade cravejada de registros históricos. O Tietê não é o Sena, e o empenho em preservar memória muito provavelmente esbarraria no problema de onde afixar a placa, se o imóvel em questão, e são tantos, foi tombado no pior sentido da palavra. 

Alguns, felizmente, ainda estão de pé. Sempre haverá quem passe pelo prédio da rua Líbero Badaró, 67, no centro de São Paulo, e goste de saber que na sala 2 do 3.º andar funcionou, um século atrás, a legendária garçonnière do jovem poeta Oswald de Andrade, 42 m² para uso libertino, como costuma ser, nos braços da Miss Cyclone, mas também literário, “covil” (batizou alguém) que era de um bando de escribas. Saber mais: que aquele prédio foi, conforme anúncio da época, “a primeira casa de apartamentos para solteiros da cidade”, ou seja, o primeiro condomínio de garçonnières da Pauliceia. 

No Rio, não faltaria quem detivesse a caminhada numa rua de Copacabana, se na fachada de um prédio sem especial pedigree, ou na calçada em frente, houvesse placa informando que até 1962 existiu ali uma casa de dois pavimentos onde o poeta Carlos Drummond de Andrade viveu por 21 anos, endereço do qual ficou cicatriz nos versos de um soneto (“Ó esplêndida lua, debruçada / sobre Joaquim Nabuco, 81. / Tu não banhas apenas a fachada e o quarto de dormir, prenda comum. / Baixas a um vago em mim, onde nenhum / halo humano ou divino fez pousada.”).

Se dependesse de mim, e é bom que não dependa, pois eu certamente iria além do razoável, até mesmo informações de interesse infinitamente mais restrito, quando não apenas meu, haveriam de merecer registro em metal ou pedra. Exemplo? Um predinho de três andares no n.º 223 da rua Florêncio de Abreu, a prosaica “rua das ferramentas”, no centro de São Paulo, imóvel abandonado e arruinado, com erva-de-passarinho a vicejar num balcão e nos beirais, e uma inscrição do frontispício: “Anno MDCCCXCII” (1892).

Fuçador que sou, deu vontade de saber mais, e dos alfarrábios consultados saltou a informação de que o casarão foi mandado construir por um médico baiano que ali viveu e provavelmente clinicou até o ano de 1895, certo dr. Eulálio da Costa Carvalho. O prenome pouco encontradiço acendeu em mim a suspeita de que pudesse se tratar de pessoa da qual muita gente, você, inclusive, já ouviu falar, sem saber como se chamava. “O próprio”, confirmou, lacônico, Chico Buarque: o “tataravô baiano” cantado nos primeiros versos de Paratodos, quem sabe também inspirador (isto o tataraneto não confirma) dos sucessivos Eulálios que povoam o romance

Leite Derramado

Vale ou não vale plaquinha na Florêncio de Abreu?

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