Memórias póstumas de Bin Laden

"Dedico estes pensamentos ao primeiro peixe que mordeu as frias carnes de meu cadáver, aqui, a 3 mil metros de profundidade neste oceano. Algum tempo hesitei se devia abrir minhas memórias pelo princípio ou pelo fim. Escolhi o fim. Dito isso, expirei no dia 1.º de maio de 2011, baleado na cabeça e no peito por um soldado americano que tremia de emoção por estar à minha frente. Depois, me lavaram, me envolveram num lençol como manda o Islã, e desci suavemente entre águas-vivas fosforescentes e tubarões curiosos, desci bafejado pelas asas de imensas arraias azuis que me rondaram. Agora, no fundo do mar, penso na minha vida e concluo que sou um grande vitorioso. Minha morte foi súbita e quase indolor, ao contrário dos cães infiéis que caíram como frutos podres dos 200 andares do WTC. Sou um vitorioso, tenho orgulho de meus feitos porque poucos influenciaram a história humana como eu. Claro, houve Alexandre, Napoleão, Hitler, mas garanto que, em velocidade, eu sou o recordista: em meia hora, o Ocidente mudou para sempre.

Arnaldo Jabor, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2011 | 00h00

Mas, não foi apenas a queda das torres infiéis; eu tive dois grandes auxiliares, muito melhores que o Muhammad Atta: George W. Bush e Dick Cheney - um imbecil e um demônio. Eles me obedeceram e fizeram tudo que eu queria - se concentraram em duas guerras erradas para roubar petróleo e ganhar prestígio (eu forneci um programa de governo à besta do Bush) e abriram caminho para um gasto de US$ 4 trilhões só nas guerras. Nunca se errou tanto na América.

Depois, arrebentaram as finanças públicas do país e abriram caminho para o verdadeiro golpe importante que eu dei: 15 de setembro de 2008, com a queda da torre do Lehman Brothers... Ali, sim, foi traçado o destino do Ocidente; com o capitalismo desmoralizado, os moleques do mundo financeiro deitaram e rolaram na roubalheira de hipotecas e alavancas e mostraram que são um cassino de papéis abstratos, com dinheiro vendendo dinheiro. Hoje, graças a Alá, o Ocidente está à beira de moratória.

Modestamente (oh, Alá, perdoa meu orgulho!), eu ajudei Wall Street a fazer seu terrorismo de derivativos e índices. Eu sou a musa dos tea parties que continuam a me obedecer sem saber... Aliás, espero que ganhem a eleição para banir aquele negão comunista.

A América achava que chegaria a um futuro de paz e progresso. Ianques idiotas. Nós, islâmicos, já estamos no futuro. Nosso futuro é hoje. Não há passado. Aliás, eu não estou no passado. Nunca estive tão presente como agora. Presente na mídia, presente no medo, no desassossego.

Arrebentei com o tempo ocidental, que "movia" a História. Ilusão. Não há este "tempo" ocidental. Nós, islâmicos, moramos na história imóvel, dentro da verdade incontestável. Eles acham que têm a beleza da democracia; mas nós temos a teocracia. Eles têm a ilusão da liberdade. Nós nem sabemos o que é isso, graças a Alá - Islã é submissão.

Eu acabei com a ideia de "projeto", de "finalidade". O "projeto" agora é procurar bombinhas em aviões, localizar bueiros com bombas e cartas venenosas.

Eu acabei com a insuportável "razão" ocidental, aquela invenção de cães infiéis europeus do século 18.

Acabei também com o conceito de "vitória". Não há mais vitória contra inimigos invisíveis. O homem-bomba não existe - ele se volatiliza em segundos. Sua força está em "não existir". A única arma possível para os miseráveis é o ataque suicida. Eu fiz os miseráveis do meu povo amar a própria miséria, que agora é orgulhosa, vingativa e temida.

Eu trouxe a peste para o Ocidente - agora, a paz será uma ameaça permanente. Eu acabei com o tédio do mundo ocidental, que clamava por um acontecimento que lhes libertasse do fatalismo capitalista. Nada acontecia mais. Tudo era igual, normal, tudo que fosse diferente era sugado pelo buraco negro da pax americana.

Um dos dramas de hoje é que não há mais "fatos". Só expectativas. Havia uma fome de fatos no ar; eu trouxe não apenas a desgraça redentora, mas o "acontecimento". Eu vos brindei com o primeiro acontecimento do século 21.

Alá perdoe meu orgulho, mas criei o primeiro filme catástrofe ao vivo. Eu via aqueles filmes no meu DVD da caverna: Godzilla, Independence Day e pensava: Os americanos têm um reprimido desejo de autodestruição. Viviam destruindo Nova York nos filmes. Que obsessão suicida... As agulhas góticas da cidade pareciam pedir a ruína. O que pode acontecer a prédios de 200 andares, arranhando os céus de Deus? Só a queda. Em Godzilla há uma imagem igual àquela das pessoas fugindo da torre caindo ao fundo. Mas eu, como cinéfilo, rs, rs, eu prefiro Deep Impact.

Impressionou-me como tudo foi fácil. Em 30 minutos eu tinha jogado o mundo de volta à Idade Média, ao século 8.º. E essa viagem no tempo só foi possível pelo meu passado, digamos, "ocidental", pois sou milionário saudita, estudei e pude vencer os americanos; eu sou um triunfo da iniciativa privada.

Eu repeti na prática um ensinamento leninista: "As armas da crítica não podem substituir a crítica das armas".

E mais, vejo que estou muito feliz aqui ao fundo do oceano. Um belo cardume de peixes luminosos me cerca. Creio que adivinham minha grande vitória, pois me fitam com suas lamparinas na cabeça, brilhantes como safiras na água escura, me envolvendo numa nuvem colorida que talvez me leve agora para o céu de Alá... Considero-me um vitorioso. Tão grande é meu triunfo, que mesmo os cães infiéis deviam me agradecer, porque eu trouxe o medo de volta, porque eu trouxe a dúvida, melhor que a certeza burra, agradecer-me porque eu trouxe a pulsão de morte que andava escondida dentro da América, sublimada nos filmes, nos hambúrgueres, na gargalhada infinita do entertainment, na liberdade narcisista, na euforia dos mercados. Deviam me agradecer, porque eu devolvi ao mundo o "legado de nossa miséria"."

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