Memórias por metro quadrado

Posto à venda por US$ 2,5 milhões, o apartamento em que o americano Norman Mailer escreveu, entre outros, A Canção do Carrasco, com janelas que recortam o skyline da ilha de Manhattan, é um espaço congelado pelo tempo

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2011 | 00h00

A caminho do número 142 da Rua Columbia Heights, notamos como a umidade da primavera torna as cores mais intensas. O verde e o branco recém-adquiridos das árvores dogwood, o vermelho dos tijolos da fileira de construções tombadas do século 19.

O aristocrático enclave de Brooklyn Heights, onde, a não ser pelos carros estacionados, podemos nos imaginar num romance de Henry James, é um endereço improvável para quem foi imortalizado como o boxeador da literatura americana.

Nada evoca confronto ou pugilismo na subida até o apartamento do quarto andar da imaculada townhouse, sem elevador, mas com vista espetacular para a silhueta dos arranha-céus de Manhattan, a ponte do Brooklyn e até, minúscula, na distância, a Estátua da Liberdade.

Quanto custa o privilégio de morar sob o mesmo teto onde Norman Mailer escreveu A Canção do Carrasco? US$ 2,5 milhões, pagos à imobiliária Corcoran, a agência que representa os nove filhos de seis casamentos do escritor morto em 2007, aos 84 anos. Os olhos azuis de Michael, o mais velho deles e atual morador do apartamento, lembram o pai - mas a suavidade da fala, não.

Michael Mailer, de 47 anos, produtor de cinema, já nos encontra fotografando sua casa. A porta foi aberta pela agente Dolores Grant e ele se desmancha em desculpas pelo pequeno atraso. Não é difícil reconhecer nele um traço comum a filhos de figuras célebres: a sensação de que a fama paterna é um albatroz permanentemente estacionado sobre as costas. Imagino que Michael Mailer é um veterano na arte de furar o balão de expectativas sobre o seu sobrenome. É com modéstia que ele conta que sua última produção, The Ledge, foi bem no Festival de Sundance. O filme de suspense, com Liv Tyler e Patrick Wilson, foi dirigido por Matthew Chapman, também conhecido entre nós como o marido da atriz Denise Dumont. Ah, os parentescos da fama.

Somente quando nos despedimos na porta e o fotógrafo Sean Conaboy comenta que seu pai tinha uma cópia autografada de Parque dos Cervos, Michael conta que o terceiro romance do pai deve, afinal, chegar à tela. Ele vai confiar o novo roteiro à atriz e escritora Carrie Fisher, a partir de um já escrito pelo casal Joan Didion e o falecido John Gregory Dunne para o romance que trata de depravação em Hollywood.

Instalado no sofá com vista para o East River - o fundo do prédio dá para a nobre Promenade à beira do rio - Michael conta que morou no apartamento várias vezes, entre a infância e o fim da adolescência. Voltou para lá depois que sua madrasta, a sexta Sra. Mailer, a escritora Norris Church, morreu, no ano passado.

"Meu pai fazia dever de casa comigo", lembra, num esforço para, como ensinou o sábio Johnny Mercer, acentuar o positivo. O amor filial é evidente e sincero, assim, como a memória das turbulências, mantida à distância da repórter. Ele chegou a pensar em comprar a parte dos irmãos no apartamento mas, confessa num suspiro, achou melhor recomeçar sua narrativa pessoal numa página em branco. Nem é preciso explicar. O apartamento está congelado no tempo. Os livros do pai, os toques rococós da decoração "que não eram assim, quando ele morava sozinho", a jukebox Wurlitzer, presente de Mailer pai à nova mulher, que ainda toca sucessos de Elvis Presley e Fats Waller. Os móveis, livros e objetos do casal Mailer não estão incluídos no preço do apartamento. Vão ser vendidos pelos filhos do escritor.

Além dos íngremes lances de escada, a arquitetura interior apresenta um desafio ao talento de vendedora da agente Dolores Grant, que já mostrou o apartamento para nove interessados: "Quem tem criança pequena se preocupa com o estilo loft." Nos anos 60, Mailer, que sofria de vertigem das alturas, contratou um arquiteto para conferir ao interior a verticalidade de um barco e desafiou sua fobia para uma luta cotidiana. O teto é curvo e pequenas escadas levam a dois níveis, até o claramente náutico cesto de gávea, acima do que, antes, era apenas um andar corrido.

Michael lembra com carinho de uma corda pendurada no topo que lhe permitia escalar a distância até a cama, de onde avistava Manhattan. Lembra das festas épicas do pai, quando a idade nem sempre lhe permitia compreender a importância dos convidados. John Lennon era adorável. Bob Dylan recluso - mas o pessoal da banda dele era muito animado, "Nós ficávamos ocupados lá no fundo", ele aponta para um quarto com o olhar maroto.

Numa noite de festa, foi encarregado de cuidar dos casacos que os convidados lhe entregavam para pendurar no andar térreo. Woody Allen veio de jaqueta militar. Michael tinha uma igual. Na saída, ele se enganou e entregou a jaqueta errada ao cineasta. Engolido pelo tamanho maior, Allen voltou e disse: "Vejo que temos o mesmo alfaiate."

Na lista de ofertas da imobiliária, o anúncio do número 142 de Columbia Heights, diz: "Um apartamento tão único e incomum pode acomodar uma variedade de estilos de vida e é perfeito para receber convidados." Será que o fantasma do antigo ocupante ia resistir a uma aparição noturna para puxar o pé do redator?

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