Memórias oblíquas de um intelectual

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA É PROFESSOR , DE LITERATURA COMPARADA DA UERJ, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2012 | 03h08

O novo livro de Roberto Schwarz, Martinha Versus Lucrécia, reúne 17 textos, enfeixando grande diversidade de gêneros: ensaios de fôlego, outros curtos, escritos de ocasião, palestras, entrevistas e mesmo uma arguição de trabalho acadêmico.

O leitor talvez se sinta desorientado frente à natureza heteróclita do livro. Contudo, para esclarecer a coerência da organização, recordem-se dois títulos machadianos.

Principie-se pela advertência de Machado de Assis a Papéis Avulsos (1882): "Este título (...) parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordens diversas para o fim de não os perder. A verdade é essa, sem ser bem essa."

O mesmo pode ser dito a respeito de Martinha Versus Lucrécia.

O primeiro ensaio, Leituras em Competição, cujo eixo fornece o título da coletânea, apresenta os pressupostos da pesquisa corrente de Roberto Schwarz, assim como anuncia desdobramentos futuros. Trata-se, assim, de trabalho em curso, que busca ampliar seu bem-sucedido modelo de interpretação da obra machadiana.

O último texto, Na Periferia do Capitalismo, uma longa entrevista, permite a Schwarz recapitular os primeiros passos de sua carreira, desde o ingresso no curso de ciências sociais na USP, em 1957, até a formação de seminário dedicado ao estudo de O Capital, no ano seguinte.

No fundo, os dois extremos se tocam. Em Dom Casmurro (1899), Bento Santiago almejou semelhante unidade para a escrita de suas memórias: "O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui."

Se não vejo mal, Martinha Versus Lucrécia compõe uma autobiografia intelectual oblíqua. E, ao contrário do narrador casmurro, Schwarz articula com êxito os momentos de seu percurso.

Voltemos ao princípio, escutando as lembranças do autor acerca dos estudos dedicados ao livro de Karl Marx: "Começou a se configurar no seminário a distância entre a construção marxista e a experiência histórica do país. O seminário teve a força de não desconhecer a discrepância (...)."

A obra de Roberto Schwarz foi a que levou mais longe as consequências dessa dissonância entre construção teórica e vivência histórica.

O exame de O Capital, a partir da circunstância brasileira, demandou a atualização do clássico no confronto com um contexto diverso do de sua produção. Ao mesmo tempo, porém, foi preciso compreender a realidade local com as lentes novas fornecidas pelo exame. O vaivém epistemológico é propriamente dialético e deu a régua e o compasso do método de Schwarz: "Dentro de minhas possibilidades, quando chegou a hora de fazer tese e de analisar os romances de Machado de Assis, eu me havia impregnado muito desse modo de ver."

Esse modo de ver adquire direito de cidadania na viravolta machadiana; noção que fornece o fio condutor de seu livro. De uma forma ou de outra, os 17 textos lidam com aspectos variados da noção.

Consultemos o ensaio precisamente intitulado A Viravolta Machadiana, e que sintetiza dois de seus livros - Ao Vencedor as Batatas (1977) e Um Mestre na Periferia do Capitalismo (1990). No ensaio, encontra-se a definição: "Até as Memórias Póstumas de Brás Cubas - a obra da viravolta machadiana -, o romance brasileiro era narrado por um compatriota digno de aplauso (...). Já o narrador das Memórias Póstumas de Brás Cubas é (...) acintoso, parcial, intrometido, de uma inconstância absurda (...)."

Portanto, a viravolta ocorre a partir da adoção de um ponto de vista com ramificações inéditas. Nos primeiros quatro romances, por meio do tradicional narrador onisciente, Machado assumiu o ponto de vista do agregado, cujo desejo mais atrevido se limitava à cooptação por parte de um protetor rico. Já nas Memórias Póstumas, a desfaçatez do narrador, típico representante da elite pátria, elabora uma forma literária dominada pela volubilidade da voz narrativa que, pelo avesso, articula uma exposição corrosiva das desigualdades definidoras da sociedade brasileira.

Assim, o caráter sempre arbitrário e por vezes violento da narrativa em primeira pessoa do defunto autor denuncia a arbitrariedade e a violência dominantes no Brasil escravocrata. E isso em meio à defesa dos princípios do liberalismo.

A viravolta machadiana é a mais completa tradução da dissonância cognitiva aprendida no corpo a corpo com Karl Marx.

Chegamos, portanto, à noção-chave da primeira fase da obra de Roberto Schwarz. O livro traz um ensaio esclarecedor sobre o tema, Por que 'Ideias Fora do Lugar'?

De um lado, Schwarz sistematizou uma longa tradição que defendia a inadequação entre princípios estrangeiros e cotidiano nacional. Ou seja, ele produziu um mapeamento específico dessa ideologia no caso da adoção oitocentista do liberalismo numa sociedade escravocrata. Não se trata, assim, de advogar um lugar platônico para as ideias, porém de identificar a tópica articuladora do discurso hegemônico no Brasil.

De outro lado, Schwarz identificou uma deliberada volubilidade ideológica. Isto é, para consumo externo, nossa elite lança mão do discurso liberal, reivindicando sua igualdade frente aos pares europeus e norte-americanos. No entanto, para uso doméstico, a mesma elite assegura sua diferença defendendo a "necessidade" de preservar o trabalho escravo. Ora, como os públicos-alvo são diferentes, por que exigir coerência discursiva?

Jano é o símbolo dessa estratégia marota, que ainda hoje possui partidários.

Aqui, as "ideias fora do lugar" e a volubilidade estrutural se dão as mãos, esclarecendo a força do pensamento de Roberto Schwarz.

Para concluir, apontemos dois reparos para um possível diálogo.

Valeria a pena incorporar certo aspecto da crítica de Alfredo Bosi. Schwarz está certo ao sublinhar o sentido específico que atribui à noção de "ideias fora do lugar". Daí, a ressalva de Bosi sobre as incoerências do liberalismo também na Europa apenas reforça a intuição de Schwarz, pois a alta voltagem da dissonância no cenário brasileiro estimula o remate decisivo: "O dado de observação tem horizonte local, mas o horizonte último da análise é globalizador e ironiza o primeiro, que pode ironizá-lo por sua vez." Touché!

Porém, a observação de Bosi sobre a existência de correntes opostas do liberalismo no Brasil oitocentista poderia tornar o raciocínio de Schwarz mais complexo. Estudar a presença de um grupo que, antes da viravolta machadiana, tocou o dedo na ferida, assinalando a discrepância entre discurso liberal e escravidão, poderia fornecer uma fonte ainda não explorada de diálogo para o entendimento do Machado das Memórias Póstumas.

Tratemos, por fim, do ensaio mais polêmico do livro, o até agora inédito Verdade Tropical: Um Percurso do Nosso Tempo.

A fascinação de Roberto Schwarz com o livro de Caetano Veloso relaciona-se tanto ao gênero da autobiografia, quanto à possível associação do narrador de Verdade Tropical com a volubilidade de Brás Cubas.

O paralelo, contudo, é problemático, embora não deixe de ser estimulante. No caso das Memórias Póstumas, a notável análise do crítico acerca do narrador e de suas cabriolas ideológicas nunca é interrompida para que se indague severamente acerca do engajamento de Machado nas transformações da sociedade brasileira. A hipótese é absurda, pois supõe uma justaposição ingênua entre autor empírico e narrador do romance.

Já na leitura de Verdade Tropical, Schwarz parece oscilar entre o estudo do texto - que julga notável - e a avaliação do comportamento político do autor, que ele considera autoindulgente e condenável.

Há, portanto, um desequilíbrio estrutural no ensaio. O olhar do crítico é, por assim dizer, estrábico: nem sempre trata do mesmo objeto, embora escreva sobre o "mesmo" livro. O estrabismo crítico pode ser produtivo, mas somente se o analista problematizar a dualidade de sua perspectiva.

Assim, a divisão observada na escrita de Caetano também contamina o discurso do analista. Por vezes, trata-se do crítico estudando o texto com a inteligência costumeira; por vezes, trata-se do cidadão Roberto Schwarz, avaliando as posições do compositor a partir de um contraponto nunca explicitado - o de suas convicções políticas.

É como se a complacência identificada na narrativa do músico ironicamente se voltasse contra o crítico. Entende-se, então, a abertura incomum do ensaio: "De início devo dizer que não sou a pessoa mais indicada para comentar a autobiografia de Caetano Veloso, pois não tenho bom conhecimento da música nem das composições do autor. Entretanto gosto muito do livro como literatura".

O artifício é sagaz, um drible desconcertante. Ou não.

Schwarz deseja sugerir que sua leitura apenas leva em consideração o texto, uma vez que se declara pouco familiarizado com a obra do compositor. Contudo, ele revela pleno conhecimento da carreira artística de Caetano, mediado por um viés determinado da circunstância política.

Ora, por que não imaginar a escrita de um novo ensaio, no qual o crítico reconheceria que sua análise da autobiografia de Caetano também é um exercício autobiográfico?

Para um dos mais destacados críticos dialéticos da atualidade - e isso em qualquer latitude -, talvez a sugestão não seja impertinente.

MARTINHA VERSUS LUCRÉCIA

Autor: Roberto Schwarz

Editora: Companhia das Letras

(320 págs., R$ 44)

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