Paulo Vitor/AE
Paulo Vitor/AE

Memórias em torno do espaço íntimo do dia a dia

Em nova coletânea de contos, Silviano Santiago busca dar voz, corpo e mente a figuras fascinantes e fugidias do cotidiano das cidades, diferenciadas apenas pela maneira como utilizam a linguagem

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

Entregador de tecidos, garçom aposentado, revisor de jornal - os personagens de Anônimos, novo livro de contos do escritor, crítico literário e colunista do Sabático Silviano Santiago, não se limitam à sua condição ordinária: conseguem fugir do óbvio do cotidiano até atingir momentos de rara beleza. É o caso do garoto cuja solidão o incentiva a ter sonhos quase surreais. Ou do bancário que passa a vida a limpo, transformando a discussão sobre o orçamento familiar em um atalho para revelações sobre a intimidade doméstica.

Contrário à escrita artística, que habitualmente descreve as classes populares a partir de estereótipos ideológicos, o mineiro Santiago, que completa 74 anos na quarta-feira, contesta o vocabulário de obras como Cidade de Deus, livro e filme, como revela na seguinte entrevista.

Boa parte dos relatos é na primeira pessoa. Com foi criar diferentes vozes e, ao mesmo tempo, manter a distinção?

Qualquer escritor ambiciona sair do casulo e enxergar o que lhe é próximo e, ao mesmo tempo, distante. O convívio com seres anônimos é parte do dia a dia. Cumprimentamos, conversamos e trocamos experiências, por exemplo, com o motorista de táxi, o garçom ou o bancário, e minutos depois a intensidade do convívio enfraquece. O rosto e as palavras do interlocutor se perdem. E, se perdem, porque temos dificuldade em reter a pessoa e a fala dos que não fazem parte do nosso círculo pequeno-burguês. Os contos de Anônimos partem duma dupla resolução. A de memorizar a presença e as palavras de algumas dessas pessoas e a de lhes emprestar a condição de personagens duma ficção que se escreveria não só com a experiência de vida que me fora dada de presente, como também com o que tinha ouvido e observado no Rio de Janeiro, em Petrópolis ou em Belém. Os contos partem da resolução de dar voz, corpo e mente a figuras fascinantes e fugidias do dia a dia. Kafka dizia que A Metamorfose não era confissão, era indiscrição. Escritor indiscreto, eu fui anotando o modo como os populares trabalham e falam. Como pensam e organizam as vidas. Como reagem aos problemas que enfrentamos no plano social, econômico ou político. No nosso cotidiano urbano, somos mais semelhantes aos anônimos do que pensamos. No entanto, a não ser num bar pé de chinelo, continuamos a viver vidas desencontradas e desmemoriadas. Anônimos pretende ser uma ficção sobre a memória do cotidiano.

Apesar de anônimos, os personagens fogem do óbvio. Como funcionou esse trabalho de exploração quase documental?

O óbvio tem sido cacoete do artista, quando não é preconceito de classe. Fiquemos com a primeira hipótese. Em filme ou novela, o anônimo é criado para ser interpretado por figurante. Ou seja, por ator a quem o direito à fala não é concedido, já que desprovido de ideias e de sentimentos próprios. Sem direito a close-up, ele ganha a imaginação do espectador por ser canastrão ou em virtude de cacos ou de tiques. O anônimo é personagem de fundo. Sempre bato palmas para os franceses Claude Lévi-Strauss e Roger Bastide. Foram eles os primeiros professores modernos a enxergar e a nos fazer enxergar as classes populares sem a forçação de barra dos estereótipos ideológicos e artísticos. Para evitar o óbvio e chegar ao close-up, procurei imaginar e diferenciar os personagens pela apropriação da linguagem de trabalho de cada um deles. Por linguagem entendo vocabulário específico, é claro, mas também metáforas. Por exemplo, na fala dum funcionário do Detran, "multa" é palavra e, na trama do conto, é metáfora. O ato de trabalhar é, pois, o único denominador comum entre todos eles.

Os últimos retratos dos chamados "anônimos" na literatura brasileira aproximaram-se muito do reacionário?

A moda inaugurada por romances e filmes como Cidade de Deus tinha de ser questionada pela base linguística. Totalmente reacionária. O falar estropiado das classes populares, que se acredita reproduz realisticamente o estar no mundo daquelas classes, é artisticamente preconceituoso. Leva o leitor ou o espectador a se contentar com a monstruosidade do subalterno, ou a se deleitar com o mais doce sentimentalismo. A linguagem artística caricata (herança do que há de pior no pop norte-americano, de Snoop Dog a 50 Cent) reinaugura o medo drummondiano das classes populares (releia-se o poema A Morte do Leiteiro). Faz-nos enxergar a convivência entre classes diferentes pela tolerância. Em outras palavras, a simplificação psicológica da figura, pré-determinada pelo falar estropiado do subalterno, só permite ao espectador ou ao leitor o sentimento (talvez cristão) que abranda a ideia de desigualdade pela generosidade do privilegiado. Este é sempre paternal (está sempre patronizing, como diz a crítica gringa). A linguagem artística caricata entrega os anônimos como seres (ou personagens) de raciocínio curto e pragmático, de psicologia fácil, movidos pelos extremos da pobreza e da ganância, do sofrimento e da violência. Nada menos "real". No caso dos contos de Anônimos, o único elemento reacionário é discretíssimo e leva o nome de capital. Quanto mais honesto é o trabalhador, mais alienado será.

A espontaneidade é o melhor caminho até a veracidade. Foi preciso reescrever muito?

Nada existe de menos espontâneo que a escrita artística. Parece espontânea, mas não é. André Gide cunhou um termo para assinalar a diferença entre a arte do ficcionista e a singeleza de estilo do narrador em primeira pessoa. Dizia que seus récits eram escritos pela retórica do "falso natural", que propicia um amálgama simples e verossímil entre autor, narrador e personagens. A meu ver, a espontaneidade (ou o falso natural) é apenas uma das formas assumidas pela indiscrição do escritor. Este é indiscreto e também inconveniente. Bisbilhota o mundo a que não pertence, embora dele faça parte e por ele se encante. No objeto de sua curiosidade, o artista tanto se revela a si quanto os narradores e os personagens que cria. Simplificadamente, o escritor não é um mim, embora seja um eu.

João Antônio e Lima Barreto se ocuparam de um certo tipo do homem brasileiro. Qual o que mais o agrada?

Os Lambões de Caçarola de João Antônio me interessam menos que os suburbanos de Lima Barreto. Por outro lado, João Antônio é um grande estilista (leia-se Malagueta, Perus e Bacanaço) e Lima Barreto não o é. Lima é capaz, no entanto, de misturar personagens temíveis e reais, como o Marechal Floriano Peixoto, com personagens sentimentais e fictícios, como o Ricardo Coração dos Outros. Talvez por minha formação francesa e pela leitura de novelas como Um Coração Simples (Gustave Flaubert), tenha simpatia e curiosidade por esses personagens que se escondem entre as quatro paredes da casa burguesa, como é o caso da Madalena no conto Multa. Talvez por minha longa experiência norte-americana e pela leitura de romances como O Velho e o Mar (Ernest Hemingway), tenha simpatia e curiosidade por esses personagens humildes e estoicos, que perdem a vida no ganha-pão minguado, como o casal do conto Modesto. Talvez pela fatalidade da mineirice e pela leitura de romances como O Amanuense Belmiro (Cyro dos Anjos) e Uma Vida em Segredo (Autran Dourado), tenha simpatia e curiosidade por figuras solitárias, inarredáveis e excêntricas, como o menino do conto O Anjo, filho de evangélicos.

E a fronteira entre jornalismo e literatura?

O jornalismo apela para o peso de verdade que é concedido ao documento. A ficção apela para o peso de verdade que é concedido à alegoria. Se a narrativa jornalística atinge o estágio da alegoria, o texto deixa de ser meramente documental. Ele passa a ser literário. Por sua vez, se a narrativa ficcional permanece no estágio de simples documento de época, o texto deixa de ser literário. Um exemplo. Gosto mais do americano Tom Wolfe quando escrevia suas narrativas sobre os loucos anos 1960 norte-americanos, de que é exemplo The Electric Kool-Aid Acid Test, que quando se quer romancista e escreve A Fogueira das Vaidades. Outro exemplo: Graciliano foi reconhecido como escritor por ter escrito relatório de suas atividades como prefeito, endereçado ao governador do Estado. No conto Cervical, o jornalista faz a boa literatura que o escritor busca em vão escrever.

A vanguarda ainda lhe diz alguma coisa?

Apenas no início da minha carreira literária, fui de vanguarda (no sentido estreito da palavra). Logo descobri o óbvio: as vanguardas passaram a ser históricas. Perderam sua razão de ser. No entanto, sempre tive grande prazer e orgulho em ser experimental nas artes literárias. Não confundo vanguarda com experimento. Aquela depende de sucessivos manifestos literários e não existe nada que o artista em mim (não falo do crítico) mais odeie que manifestos. Os irmãos Campos, que foram bons amigos meus e são poetas a quem dedico a maior admiração, sabem disso. Desde o romance Em Liberdade, de 1981, eu me julguei pós-moderno (no sentido que o romancista John Barth emprestou a essa palavra nos idos de 1970). Admiro e invejo escritores de um estilo só. Tornam-se facilmente populares. Mas esse não é o meu caso.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.