Memórias e dor na despedida de Dominguinhos

Corpo do sanfoneiro segue hoje para o Recife, onde haverá outro velório; artistas farão homenagem em show

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2013 | 02h24

O choro baixo de Guadalupe era o único som que se ouvia no hall de entrada da Assembleia Legislativa de São Paulo, no final da manhã de ontem. Mulher de Dominguinhos, ela limpava o rosto do marido, envolto em rosas e com uma expressão de descanso, enquanto chegavam amigos, fãs, jornalistas e familiares. O velório do artista que morreu às 18h de terça-feira, no hospital Sírio Libanês, em decorrência de complicações de um câncer no pulmão, tem a previsão de continuar hoje na Assembleia Legislativa do Recife. "Não sabemos ainda como vai ser. Vamos chegar e ver como ficam as coisas", dizia Guadalupe, com dificuldades em dar mais detalhes. Segundo ela, o enterro do músico, que será realizado em Pernambuco, não deve ocorrer antes de sexta-feira.

O silêncio por Seu Domingos era respeitoso e, ao mesmo tempo, impensável. Depois de uma vida rodeada de festa, o corpo do sanfoneiro que tinha um pavor patológico da morte era cercado por prece e lamento. Sobre seu peito colocaram o chapéu de vaqueiro que se tornara marca. Além de Guadalupe, estavam lá seu filho, Mauro, sua primeira mulher e parceira em letras Anastácia e sua filha, Liv, do relacionamento com Guadalupe. Anastácia conseguia conter um pouco mais a emoção. "Com relação ao instrumento que ele tocava, Dominguinhos foi o músico do século", dizia. Suas parcerias com o músico foram muitas, exatas 213 canções, dentre elas a clássica Eu Só Quero um Xodó, gravada por Gilberto Gil. Dentre palavras de despedida, ela falou de uma preciosidade que pode levar ao público em breve. "Estou reunindo músicas que fizemos juntos, muitas inéditas. Tenho coisas muito bonitas com ele que nunca foram gravadas."

Um show em homenagem ao artista será realizado na noite de hoje, no Chevrolet Hall, no Recife. A intenção dos músicos era fazer uma apresentação para arrecadar fundos que seriam destinados às despesas do tratamento. Agora, continuam abrindo mão do cachê para cobrir os gastos de velório e enterro. "Vai ter muita gente, Fagner, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho... Estamos abertos a todos para este último adeus", dizia Guadalupe.

No início da tarde, quando o salão da Assembleia já reunia mais de 200 pessoas, o sanfoneiro recebeu uma homenagem feita pela produção do Grammy Latino no Brasil. Tom Gomes, representante da marca, entregou o troféu por melhor disco regional do Brasil de 2012 a Guadalupe, que ergueu a peça e sorriu para os fotógrafos. Outro projeto que deve sair em breve é um documentário sobre o músico, feito pelo diretor Felipe Briso, acompanhado pela cantora Mariana Aydar e pelo pianista Eduardo Nazarian.

História não se repete. Em 1989, durante o enterro de Luiz Gonzaga, o homem que Dominguinhos mais venerou e com quem aprendeu a ser artista, um repórter da TV Globo quis saber o que ele tinha a dizer sobre a perda do Rei do Baião. Dominguinhos não disse nada. Apenas empunhou sua sanfona e tocou Asa Branca com uma tristeza na voz que emudeceu o próprio jornalista. Sanfoneiros passarão a vida cultuando Domingos, mas a história não aponta para nenhum sucessor que toque Lamento Sertanejo com a mesma propriedade.

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