Memórias do Chile sob Pinochet

Em 'No', o ator mexicano Gael García interpreta um publicitário contratado pelo general

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

27 de maio de 2012 | 03h12

CANNES - "Como está Walter?" Antes mesmo de falar sobre No, o longa do chileno Pablo Larraín apresentado aqui em Cannes, Gael García Bernal queria saber de seu diretor em Diários de Motocicleta. "Ouço muito falar de On the Road. Estou louco para ver." Aos 33 anos, pai de dois filhos, Gael não perdeu o jeito moleque, mas fala com responsabilidade sobre filmes e autores.

No integra o que virou uma trilogia de Larraín sobre o Chile do General Pinochet, que começou com Tony Manero e Post Mortem e agora segue com o filme sobre o plebiscito que o próprio ditador propôs para referendar sua permanência no poder, mas que o levou a ser defenestrado. No surgiu como obra de encomenda. Larraín e Gael se orgulham do resultado.

Pinochet, nunca mais, diz Larraín, que promete parar com os filmes sobre o assunto. Na praia do Carlton, em plena Croisette, Gael conversou com o Estado.

O que o levou a fazer o filme?

O assunto me interessa, porque discutir a democracia em nosso continente é sempre importante, mas trabalhar com Pablo era uma das metas que já me havia fixado. Gosto de seu universo, que consegue ser poético sem deixar de ser político. Quando ele me propôs o papel, senti que era a chance. E, depois, meu nome poderia ajudar a levantar os fundos. É cada vez mais difícil fazer filmes independentes.

Seu personagem é o profissional de propaganda contratado para fazer a campanha de Pinochet. Como foi fazer o papel?

Foi muito interessante, até porque o personagem é muito diferente de mim. Ele é um desses profissionais que parecem não ter muita consciência do mundo em que vivem. Vende o conceito de Pinochet como venderia um modelo de carro. Pertence a uma geração movida pela competitividade, que acredita no mito da competência. Pinochet instituiu um capitalismo brutal no Chile. Inspirado nas teorias de economistas que defendem o livre mercado, usou seus poderes excepcionais para impor um tipo de economia. O Chile virou laboratório de pesquisa para o mundo. Os ricos ficaram mais ricos, os pobres, mais pobres. Mas essa é a tônica do mundo atual. Ninguém parece se importar muito com os aspectos éticos dessa disparidade.

Como foi reabrir velhas feridas ainda não cicatrizadas no Chile?

É impressionante como a presença de Pinochet ainda é forte. E não apenas os que se beneficiaram de seu regime totalitário cultivam sua imagem. Tem gente que acha que ele foi o salvador do Chile. Salvou o país do comunismo. São ideias que permanecem no imaginário de muitos chilenos. Tem a ver com a propaganda do regime, com a máquina repressora que ele montou. O filme busca desmontar essa máquina.

Independentemente de fazer filmes em Hollywood, você tem trabalhado com grandes diretores de língua espanhola - Iñárritu, Almodóvar, Larraín. Isso para não falarmos de seus filmes com Walter Salles e Hector Babenco. O que o move nessas escolhas?

São grandes diretores, que me permitem crescer e amadurecer na minha arte. Pablo, apesar das diferenças, é como Walter. Acredita na filmagem como um estado de improvisação permanente. E todos me propõem papéis muito diferentes. Foi divertido fazer aquela travesti com Pedro (Almodóvar, em Má Educação) e o jovem Ernesto, antes de virar Che, em Diários de Motocicleta. Esse último é muito marcante. Segue sendo um de meus personagens preferidos. Um jovem idealista, nos seus anos de formação. Walter se recusa a abrir mão de uma certa inocência. Ele continua querendo acreditar que mudar o mundo é possível. Gosto de acreditar nisso, também.

O que a democracia representa para você?

A desigualdade no mundo é muito forte, a exploração capitalista nunca foi tão selvagem. A democracia, sob certos aspectos, virou o direito de escolher aquilo que a publicidade predetermina para nós. Quem viveu os anos de ditadura em tantos países latino-americanos — no Chile, no Brasil, na Argentina — tem outro sentido da liberdade. As novas mídias estão criando novas possibilidades de participação social e política. Veja o que ocorreu no mundo árabe. Considero o debate democrático enriquecedor. E o cinema, mesmo se não quisesse, participa disso. E, já que participa, é bom que seja com consciência.

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