Memórias do cárcere de um 'Don-Juan'

Com registros precisos da vida de prisioneiro, Giacomo Casanova dá ares de aventura à sua amarga experiência

MAURICIO SANTANA DIAS,

03 de novembro de 2012 | 05h00

Há certas figuras que parecem condensar numa única vida a vida de uma multidão de pessoas. Nesse sentido, Giacomo Casanova é certamente um personagem exemplar - e seus 12 volumes de memórias são o testemunho e alicerce literário dessa experiência multitudinária. Nascido em Veneza em 1725, filho de um casal de atores, Casanova foi criado pela avó e, aos 20 anos, formado em Direito em Pádua, já havia tentado a carreira eclesiástica e militar, tendo viajado por meia Itália e pelo Oriente Médio.

 

Entre 1755 e 56, período coberto pelo relato desta História da Minha Fuga das Prisões de Veneza, Casanova era um cidadão do mundo, tendo percorrido boa parte da Europa sob o patrocínio de seu protetor, o nobre Matteo Bragadin. Retornara havia pouco para sua cidade natal quando foi preso pelos inquisidores do Estado sob a acusação de práticas de ocultismo e feitiçaria. Para ser mais exato, sua detenção foi puro ato de arbitrariedade dos inquisidores de Veneza, já que não se cumpriu nenhuma formalidade. O preso foi simplesmente detido e trancafiado na cadeia, sem saber por quê.

 

Sobre o primeiro dia no cárcere, "medonha masmorra que mais não tinha do que cinco pés e meio de altura", Casanova vai escrever: "Na qualidade de grande libertino, de ousado palrador e de homem que apenas pensava em gozar a vida, não conseguia achar-me culpado; mas vendo-me tratado como tal, poupo ao leitor o pormenor de tudo o que a raiva, a fúria e o desespero me faziam dizer e pensar contra o despotismo".

 

Acostumado a uma vida de viagens e deslocamentos constantes, Casanova agora se via submetido a um regime de rigorosa imobilidade, padecendo todas as desgraças dos Chumbos: o espaço exíguo e escuro, infestado de pulgas, quentíssimo no verão e gelado no inverno. A propósito, vale lembrar que o nome da lendária prisão veneziana deriva de uma peculiaridade de sua construção: as celas ficavam sob os tetos do Palácio Ducal, recobertos de chumbo.

 

Talvez o mais extraordinário no relato de Casanova, escrito 30 anos depois do ocorrido, seja sua capacidade de multiplicar e dar movimento a um espaço de reclusão total. E nisso ele dialoga com o efeito de vertigem também presente nas gravuras carcerárias de seu grande contemporâneo, Piranesi. Afinal, ele consegue, por força de descrições tão minuciosas que beiram o delírio, transformar em aventura o que parecia fadado a uma monotonia sem saída. E isso vale não só para os episódios naturalmente agitados de sua fuga, mas também, ou sobretudo, para os momentos de repouso, quando a imaginação transbordante do prisioneiro transfigura em narrativa "épica" seus esforços para construir uma lamparina ou o ponteiro improvisado que o ajudará a escapar da cadeia.

 

Entremeando a narrativa de citações latinas (Horácio, Sêneca, Ovídio) e registros precisos da vida de prisioneiro, Casanova explora todas as tonalidades de sua experiência: o medo inicial de enlouquecer na solidão, o acomodamento resignado à rotina carcerária, as explosões de raiva e indignação, e, finalmente, o desejo de escapar dali.

 

Como é típico do autor, seu plano de fuga também é uma mistura de misticismo e cálculo prático, cabala e racionalismo. Tendo ouvido de seu algoz que ele sairia "no dia de seu santo padroeiro", Casanova espera sair no dia de São Marcos ou de Santo Antônio ou de São Tiago, até que, vendo frustradas suas esperanças, apela a um método cabalístico e acha sua "chave" num verso do Orlando Furioso: "entre o fim de outubro e início de novembro". De fato, a fuga se dá entre a noite do dia 31/10/1756 e o 1.º de novembro, Dia de Todos os Santos, confirmando uma velha máxima italiana: "se non è vero, è ben trovato".

 

No entanto, muito do que se considerou invenção do autor foi depois comprovado por pesquisas em arquivos espalhados pela Europa, o que reforça a ideia de que os relatos de Casanova, e este em especial, se equilibram naquela corda vacilante que passa sobre o registro dos fatos e a imaginação ficcional reconstituída pela memória. Não por acaso sua obra maior, a História da Minha Vida, é até hoje uma das fontes mais importantes para se entender o cotidiano do século 18 europeu e penetrar o imaginário daquela época.

 

No fim das contas, percebe-se que o tipo de memória de Casanova está muito distante do memorialismo mais típico do século 20 e de nossos dias: a experiência passada não é percebida como algo perdido no tempo, mas alguma coisa - a vida - que se atualiza e amplia no momento mesmo da escrita. Por isso, a imagem de um Casanova senil e derrotado pela idade, bastante frequente em algumas releituras modernas, não chega a convencer de todo. "Admito que a recordação dos prazeres passados os renove em meu velho espírito... Minha memória me garante sua concretude", diz ele num dos volumes de sua autobiografia.

 

É óbvio que as fantasias em torno desse personagem quase lendário estimularam muitos artistas, cineastas e escritores a retomá-lo em suas obras, com resultados especialmente bem-sucedidos em O Retorno de Casanova, de Arthur Schnitzler, e Conversa de Bolzano, de Sándor Márai.

 

No entanto, esse dom-juan de carne e osso - que colaborou com Lorenzo da Ponte na redação do Don Giovanni e esteve presente na estreia da ópera de Mozart em Praga - parece não ter sofrido nos Chumbos com a abstinência sexual imposta pela reclusão. Pelo menos não há menção a isso em seu relato.

 

Como se vê, o mito do conquistador libertino é apenas um aspecto dessa complexa figura do Iluminismo. Entre memórias, tratados, cartas e até um romance de ficção científica à Voltaire (o Isocameron), Casanova deixou uma obra imensa, boa parte ainda dispersa em bibliotecas e arquivos de várias cidades europeias, escrita sobretudo em francês e italiano. E é bom que seu livro mais famoso, justamente esta História da Minha Fuga, seja agora publicado no Brasil.

 

Quanto à edição brasileira, cabe finalmente dizer que a tradução feita pelo português José M. Justo opta por um viés arcaizante, com inversões sintáticas, termos em desuso e a adoção do "tu" e do "vós", que soa muito distante ao leitor brasileiro. Embora correto, seu trabalho acaba tornando o texto agilíssimo de Casanova muito mais lento do que é, além de confundir o leitor - e de confundir-se - com o uso das horas canônicas, embaralhando a cronologia minuciosa do relato.

MAURICIO SANTANA DIAS É PROFESSOR DE LITERATURA ITALIANA NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, TRADUTOR E ENSAÍSTA

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