MEMÓRIAS DE UM TERRORISTA FASHION

O bom humor dá o tom a Nada Além da Verdade, ficção que une prisão e passarelas para tratar de violência urbana

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2012 | 02h06

O filipino Boyet Ruben Hernandez desenvolveu uma relação de amor e ódio com Nova York. Depois de desembarcar na cidade em 2002, Boy, como é conhecido, logo realizou o sonho de se tornar um famoso estilista. O que ele não contava era ser envolvido em uma história de terrorismo, que o levou a ser preso na base militar de Guantánamo. Apesar do tom documental, a história de Boy é contada como pura ficção em Nada Além da Verdade, de Alex Gilvarry, lançado agora pela Tordesilhas

Descendente de filipinos, o americano Gilvarry apostou no bom humor e na moda para tratar de um tema delicado, que marcou toda a primeira década do século 21 nos EUA: a relação com imigrantes. Discípulo de Gary Shteyngart (também craque nas frases espirituosas), ele respondeu por e-mail às seguintes questões.

Como foi equilibrar a indústria da moda e a prisão?

Moda e terrorismo não são coisas que se combinam naturalmente. Mas o equilíbrio veio de meu desejo de explorar a injustiça que acomete meu herói, Boy. Ele pode ser um designer de moda, mas quando se torna suspeito de terrorismo, a questão fica mortalmente séria. E eu sabia que tinha de tratá-la como tal. As maiores comédias, parafraseando Flannery O'Connor, devem ser sobre questões de vida e morte.

Por que se inspirou no bairro de Williamsburg?

Williamsburg é um lugar que atrai o jovem elegante e antenado na moda. É como uma cidade universitária sem universidade. É também um bairro que mudou desde que eu era um jovem elegante e antenado na moda, por isso eu quis escrever sobre estas mudanças. Para mim, se Boy estivesse chegando aos EUA pela primeira vez, este seria o lugar onde ele gostaria de viver.

O mundo da moda nova-iorquina é como você descreve?

Sim. Nova York é um lugar tão chique que pode fazê-lo se sentir consciente disso. Eu costumava almoçar no Soho enquanto escrevia o romance e via modelos entrando e saindo apressadas das seleções de elencos com seus grandes livros de portfólios pretos. É também um lugar onde a pessoa pode se vestir da maneira que quiser, quero dizer, de qualquer maneira, que as demais não dão a mínima.

Por que Boy veste um modelo num desfile de moda com uma burca, chamando-a de "mensagem política"?

Imagino que estava tirando um sarro da moda quando ela vai longe demais, tentando comentar nossa cultura e política. A Vogue Itália publicou certa vez um editorial de modelos inspirado na guerra ao terror. Mulheres de joelhos diante de cães de guarda latindo. Mulheres sendo revistadas. Era horroroso.

Boy não fala em Guantánamo, mas Terra de Ninguém. Por quê?

Isso está relacionado ao tom, ou ao equilíbrio que estávamos discutindo, "Guantánamo Bay" é um termo carregado com muitos preconceitos quando o lemos, e descobri que sempre que o usava, ele mudava o tom do romance. Assim, decidi que Boy só se referiria a sua prisão como Terra de Ninguém.

A experiência de imigrante foi por muito tempo uma das grandes preocupações da literatura americana. É possível um imigrante como Boy se integrar plenamente numa vida americana?

Se pensarmos nos Estados Unidos como um país de imigrantes como às vezes eu faço, a resposta seria sim. Mas esta é uma ideia muito romântica, e nossa literatura que aborda a experiência imigrante é toda sobre as lutas por uma integração plena. Isto reflete uma certa verdade, uma realidade da experiência imigrante, de ele sempre ter a marca do forasteiro. Quanto a Boy, ele vem da elite filipina, é de um país que já foi pesadamente americanizado. Ele é um homem da moda, um estudioso, se quiser, da globalização. Acredito que pessoas como ele não teriam problema de assimilar a vida americana. Ele sonhou com isso a vida toda.

Fala-se muito sobre a mudança do mundo após o 11 de Setembro. Como foi para você?

Eu era estudante universitário em Manhattan quando ocorreram os ataques, de modo que o meu mundo mudou completamente. Eu via os militares nas ruas. Guardas armados, tanques. Sempre que eu ia à escola, minha mochila era regularmente revistada quando entrava no metrô. De repente, todos eram suspeitos. Este foi o mundo dos meus 20 e tantos anos, e foi esse mundo que eu captei fundamentalmente na história de Boy.

Como o mundo da moda reagiu a um personagem como Boy?

Fiquei preocupado. Mas quem me abordou pareceu gostar da história de Boy, e considerou a descrição do mundo da moda bastante realista. Creio que consegui enganá-los.

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