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Memórias de um Sargento

Aos 88 anos, o poeta e compositor Nelson Sargento vive como um dos mais ativos nomes da Velha Guarda do samba

BOLÍVAR TORRES , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2012 | 03h09

É difícil dizer exatamente quando Nelson Sargento se descobriu escritor. Aliás, se dependesse apenas do sambista, seu primeiro livro de poemas, Prisioneiro do Mundo, talvez nunca tivesse sido lançado. A primeira edição, de 1994, só saiu por insistência de sua esposa, a empresária e produtora Evonete Belizário.

"Eu estava voltando de uma turnê pelo Japão quando ela juntou todos aqueles poemas e disse: 'vamos publicar'. E eu falei 'vamos nada'. Mas aí está", conta o compositor.

Antes de escritor, Nelson é um ícone do samba carioca e do Morro da Mangueira, autor de mais de 400 composições. Criado em meio a figuras como Cartola, Carlos Cachaça e Nelson Cavaquinho, é ao mesmo tempo produto e memória viva de uma era ouro. O termo 'vivo', por sinal, precisa ser destacado: com 88 anos recém-completados, Nelson continua ativo como um garoto, compondo, fazendo shows, pintando, escrevendo e... caindo na boemia. Na noite anterior à entrevista, tinha ficado até tarde com os amigos no bar Bip Bip, célebre ponto de encontro da boemia do Rio. Agora, ao mesmo tempo em que responde às nossas perguntas, conta as horas para assistir a um show no Teatro Rival.

Ele pede para Evonete já ir preparando sua roupa de sair. "Nunca vi gostar tanto de rua assim!", ela brinca. Evonete reclama, mas está acostumada. Afinal, a rua é o grande material de Nelson. Para ele, fazer música e poesia é essencialmente contar histórias. "A diferença é que na música eu conto uma história em oito frases enquanto na poesia é mais longo, a história se desenvolve em muitas frases." Tanto o poeta quanto o compositor são pensadores que trabalham a partir de associações. Uma frase vai puxando a outra, desde que harmonize. "Eu recolho pensamentos", conclui o sambista.

E seu Prisioneiro do Mundo está cheio deles. O livro acaba de ganhar uma nova edição caprichada da editora Oficina Raquel, repleta de alterações e inclusões de versos inéditos. Uma nova montagem também trouxe uma linha narrativa à obra. Ao contrário da primeira edição - onde surgiam espalhados de forma um tanto desordenada - os poemas foram divididos em módulos. Abre com reflexões sobre o mundo (incluindo o poema-título, uma constatação conformada sobre os limites do homem) e vai passando por temas líricos como a natureza, a ternura e a fé.

"O compositor de música popular é um filósofo, mesmo que ele não tenha consciência disso", compara Nelson. "Quando, por exemplo, Cartola diz 'o mundo é um moinho', o que ele está dizendo? Que o mundo mói as pessoas, coloca-as no seu lugar. São temas abstratos que não podemos apalpar, mas que existem: vingança, sentimento, respeito..."

Ele lembra de outra dessas abstrações. Trata-se do tempo, sempre implacável. E logo lhe vem à mente outro pensamento, o do compositor Candeia: "Deus criou a beleza na mulher. Vem o tempo e destrói a obra do criador." A referência, claro, não agrada Evonete. "Pensamento muito machista, isso sim", ela protesta. "Quando escreveu isso ele estava pensando na mulher dele, não em mim..." Mas Nelson insiste: "O tempo transforma tudo."

Durante toda a entrevista, Nelson pula de assunto em assunto com a mesma desenvoltura, mas sempre voltando a esta verdade fundamental: a infalibilidade do tempo. Com quase nove décadas de vida, ele sabe do que está falando. Entre a criança que sonhava em compor música para ser chamado de Seu Nelson e o compositor consagrado conhecido por Sargento (referência à mais alta patente que atingiu quando serviu o Exército), viu o samba sair do morro e ganhar o asfalto. Viu as escolas se transformarem em gigantescos impérios comerciais. Viu colegas de música alcançando o respeito crítico, e muitos outros morrerem na miséria. Sua visão sobre a inconstância da vida não poderia ser mais estoica: não interessa se mudou para pior ou para melhor. O mundo não melhora nem piora, o mundo simplesmente acontece. Inútil controlá-lo.

"O progresso é um cidadão sem disciplina", dispara. "As coisas vão chegando e vão mudando. Qual foi o primeiro instrumento de percussão? Foram as palmas. E das palmas ao nylon, quanta coisa aconteceu. Não adianta voltar ao passado. O mundo segue seu curso. Somos prisioneiros dele."

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