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Memórias de um rato de biblioteca

Já vi muita biblioteca. Mas não fui ainda a uma dessas onde, pasme, não há um só livro

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

16 de abril de 2019 | 02h00

Achava eu, ingenuamente, que em matéria de bibliotecas já conhecia tudo – eis que, uma vez mais, caí do cavalo, quando outro dia soube que há uma, em São Paulo, funcionando animadamente entre os muros de um cemitério; detalhes quando puder ir conhecê-la, de preferência ainda em vida. Mais: soube também de umas tantas que, pasme, não têm livros. Sim, bibliotecas onde não há livros, dá para imaginar? E nem é coisa recente: o que para mim é novidade existe desde 2002, ano em que se abriu na Dinamarca a primeira “Biblioteca Humana”. 

Repasso a notícia velha que me fez cair o queixo: ali, em vez de livro de papel, você escolhe um título, e em seguida vai ouvir, numa salinha, durante meia hora, uma história contada por um voluntário, alguém que viveu experiência relacionada com o tema escolhido. 

Não qualquer título, evidentemente; não adianta pedir Guerra e Paz ou Grande Sertão: Veredas. O catálogo da Biblioteca Humana de Copenhagen, até agora, não vai muito além de Crianças sobreviventes do Holocausto, A história de um cigano, Veterano da Guerra do Iraque e Rapaz do Orfanato. O objetivo do projeto é “incentivar o diálogo entre diferentes tipos de culturas”. Parece que está dando certo, pois já existem “bibliotecas humanas” em mais de 70 países – entre os quais, lamento informar, ainda não se inclui o Brasil.

O jeito é me bastar com o que temos aqui – e não é pouco, pelo menos para alguém como você e eu, gente que, além de livros, coleciona bibliotecas, sejam elas públicas ou particulares. 

Minha primeira foi em casa – casa mineira de família grande, 10 filhos mais um primo, onde a leitura era incentivada antes mesmo de concluir-se o processo de alfabetização. Lamento não ter conservado pelo menos um dos volumes que minha mãe encapava no capricho com papel manilha inglês. Adoraria ter ao alcance dos dedos o primeiro que li inteiro, durante o recreio na escola, sentindo-me feliz, confiante e poderoso como nunca mais. Quem sabe na Estante Virtual encontro Lalau, Lili e o Lobo, de Rafael Grisi? Não será o exemplar encapado pela dona Wanda, mas tudo bem. (Suspendo a escrita, vou à Estante e me emociono ao rever, mais de 60 anos depois, o desenho da capa, um casal de crianças ladeando seu cão – e sou obrigado a suspender também o desejo de comprar, pois o exemplar à venda custa 1.000 reais!) 

Tempos atrás, guiado pela mesma nostalgia benigna, reli numa biblioteca paulistana o João Felpudo que tão fundamente me traumatizou, e cujo autor, o psiquiatra alemão Heinrich Hoffmann (não, não é o fotógrafo de Hitler – mas poderia ser...), lá na sua cova mais que centenária, me deve uma fartura de lágrimas e cifrões deixados no divã do analista para diluir pavores que seus enredos tatuaram no meu coração. 

Passo batido, aqui, pelos livros de orientação sexual que meu pai escondia atrás de seus compêndios de odontologia, e faço escala na biblioteca da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, onde, às tontas, fiz as leituras fundamentais da minha adolescência. Íamos lá, eu e o comparsa vitalício Jaime Prado Gouvêa, o contista de Fichas de Vitrola, para sacar livros que não raras vezes devorei de pronto, ali nos bancos da praça. 

A escala seguinte seria a biblioteca da Faculdade de Direito, aonde fui com bandeirosa insistência, não para me abeberar de literatura jurídica, e sim na esperança de ganhar a linda bibliotecária que veio a ser a mãe de meus filhos. Fomos viver em Paris, cidade cujos encantos, a meus olhos, haveriam de incluir a fabulosa Bibliothèque Nationale de France, em cujas mesas ralei para escrever um trabalho universitário sobre A Imprensa Brasileira em Paris de 1880 a 1939. 

No centro do Rio de Janeiro, sou desde muito beneficiário da Biblioteca Nacional, assim como do Real Gabinete Português de Leitura, onde preciso ainda sopitar a vontade de me pôr de joelhos cada vez que adentro aquela espantosa catedral do livro. Também no Rio, cheguei a conhecer a biblioteca de Plínio Doyle, em Ipanema, em torno da qual durante décadas se reuniu a confraria do Sabadoyle, de que Carlos Drummond de Andrade foi o involuntário criador, pelo hábito que tinha de visitar, aos sábados, o acervo formado pelo amigo. 

Em São Paulo, onde vivo, tiro proveito da esplêndida Biblioteca Mário de Andrade, que reformas recentes tornaram ainda mais acolhedora – e não só para leitores convencionais, conforme me dei conta alguns anos atrás, quando lá cheguei, num começo de manhã, e topei com meia dúzia de cidadãos, idosos ou de meia-idade, vestindo roupas cujo triste estado denunciava a penúria de seus portadores. “É um pessoal sem-teto que precisa deixar o albergue quando nasce o dia, e que, não tendo para onde ir, vem para cá”, segredou uma funcionária – e abriu sorriso para contar que vários deles acabaram tomando gosto pela leitura. 

Também em São Paulo, ultimamente dei de frequentar uma bem nutrida biblioteca – em cujas preciosidades, no entanto, ainda não me aventurei. Não, não vim buscar aqui a tal Biblioteca Humana dos dinamarqueses. Quero apenas o sossego indispensável para seguir escrevendo um livro que, espero, há de merecer espaço nessas apinhadas prateleiras pelas quais, lá no fundo da infância, caí de amores para todo o sempre. 

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