Memórias de um glamouroso chefão

Gilles Jacob revela os bastidores da organização de um dos principais eventos cinematográficos do mundo

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2010 | 00h00

               

Hora certa. Jacob selecionou obras que se tornaram clássicas  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em 1976, o então crítico de cinema francês Gilles Jacob é eleito para o cargo de diretor-geral do Festival de Cannes. Sua missão: selecionar os filmes disputantes da Palma de Ouro. Amante da literatura em geral - e de Balzac em especial -, detalhe que, na juventude, arranhou sua paixão pelo cinema, Jacob ultrapassou sua missão e, durante quase duas décadas na função, incrementou o evento, consolidando-o como um dos maiores do cinema mundial.

Atual presidente do festival (desde 2001), ele transitou em áreas discordantes (como a relação do cinema europeu com Hollywood) e manteve contato com praticamente todas as estrelas que brilharam nos últimos 30 anos. Sobre tal fascinante trajetória que trata Cidadão Cannes (tradução de Maria Lucia Machado), recém-lançado pela Companhia das Letras. Mais que um belo trocadilho com o clássico Cidadão Kane, o título resume os caminhos do homem que enfrentou desde intrigas políticas até chiliques de astros.

Afinal, só mesmo com habilidade foi possível driblar a obscura censura soviética para, nos anos 1980, garimpar filmes independentes de países do Leste Europeu. Também foi preciso muita paciência para conter a irritação do presidente do júri da edição de 1980, o ator Kirk Douglas, que, contrário à decisão dos colegas de conferir a palma apenas a Kagemusha - ele pretendia dividir o prêmio com All That Jazz) -, trancou-se no quarto. Nascido em Paris em 1930 e filho de uma família judia que passou por problemas durante a 2.ª Guerra, Jacob acumulou experiência para lidar com pessoas, como revela na seguinte entrevista.

Quais filmes o senhor se arrependeu de ter recusado em Cannes? E quais se arrependeu de ter aceitado?

Foram muitos. Um diretor de festival engana-se com frequência: a dificuldade de escolher rapidamente, um mau julgamento, cansaço. O importante, portanto, é se enganar menos que os outros. Do que mais me arrependo foi de não ter selecionado um filme em especial, que perdi voluntariamente: Meu Pé Esquerdo. A culpa foi de seu produtor, que me cercou, fazendo 15 ligações telefônicas em 48 horas. Aí decidi não selecionar. Por outro lado, o que lamentei trazer a Cannes foi um filme do sueco Bo Widerberg, um bom cineasta (Elvira Madigan, Adalen 31), já falecido. Devo ser o único que amou Victoria (1979), pois não estreou em nenhum outro país, com exceção da Suécia.

Em quase três décadas como delegado-geral, o senhor elaborou uma série de inovações. Qual foi a mais importante, em sua opinião?

O Cinéfondation. É um programa de incentivo que iniciei em 1998 e é o mais promissor: tem a função de descobrir, selecionar e recompensar os filmes de estudantes de cinema, de sua formatura. Vindos de toda parte do mundo, eles são os cineastas do futuro que descobrimos ano após ano. Tal ato promove a sucessão segura de gerações de cineastas. O Festival de Cannes semeia o grão e, depois da colheita, observa o valor desse investimento. Um pouco mais tarde, criei a Résidence da Cinéfondation, que acolhe em Paris jovens cineastas e aspirantes a diretores para uma imersão no cinema.

O senhor poderia descrever as pressões sofridas como delegado-geral?

São múltiplas e não são mais políticas ou diplomáticas desde 1972, ano em que o festival decidiu assumir a seleção dos filmes apresentados no lugar dos países produtores, como antes funcionava. Como são extremamente profissionais, os selecionadores não se rendem à amizade com produtores do mundo inteiro - todos interessados em ver seus filmes selecionados - e se baseiam principalmente na qualidade dos longas para fazer suas escolhas.

Ao anunciar a seleção oficial de 2009, o senhor propôs uma questão que agora lhe devolvo como provocação: como saber que uma era chegou ao fim e que outra já se iniciou?

Eu não sei, apenas sinto e constato. Muitas vezes, é preciso muito tempo para se notar a mudança de época. Mas é sempre divertido e interessante refletir sobre a evolução de uma arte. Há períodos de estagnação e aqueles de mudanças bruscas, algo semelhante ao que acontece na sociedade. Dizem que, graças aos milhares de filmes a que assisti em Cannes, me deram a oportunidade de ver as novidades dois minutos antes que todo mundo!

Quais mudanças ocorrerão se os filmes passarem a ser vistos apenas eletronicamente? Vai alterar nossa forma de olhar?

Acredito que o fenômeno já começou. O que parecia ser algo do futuro, na verdade, acontece agora. Quando comecei, os filmes para avaliação vinham em VHS, depois em DVD, em seguida Blu Ray. Agora é na própria sala de cinema, já adaptada para o digital. No início, era possível notar a diferença com a película química, mas a distinção diminuiu gradativamente e hoje é praticamente imperceptível. Além disso, já não há mais cópias riscadas ou danificadas, como antes, desobrigando o festival de apresentar filmes em estado lamentável. Agora, a qualidade é a mesma do começo ao fim. E progresso é progresso, temos de nos adaptar aos novos tempos.

É verdade que o senhor gosta de assistir aos filmes sozinho?

Sim, especialmente em minha sala de projeção - no máximo, em grupos pequenos. A exceção são as comédias, que devem ser vistas em meio a várias pessoas para que o riso seja, de fato, um fenômeno contagiante. Mas o maior prazer solitário (aquele confessável...) ainda é a leitura. É por isso que acredito ser meu livro (com minhas histórias reais e sonhadas) uma boa viagem.

CIDADÃO CANNES - O HOMEM POR TRÁS DO FESTIVAL

GILLES JACOB (França). Tradução: Maria Lucia Machado.

Editora: Companhia das Letras (362 páginas). Preço: R$ 54

 

 

 

 

 

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