Divulgação
Divulgação

Memórias de um estilista russo

Volume reúne textos de Ivan Turguêniev em tradução esmerada de Irineu Franco Perpetuo

Aurora Bernardini, Especial para o Estado

10 de janeiro de 2014 | 22h55

Juntamente com Pais e Filhos (CosacNaify), este Memórias de um Caçador, na esmerada tradução de Irineu Franco Perpetuo (Editora 34), entra no rol das grandes obras-primas do russo Ivan Turguêniev (1818- 1883) publicadas no Brasil em tradução direta do original. É importante dizer isso porque a maioria das obras do autor, que teve grande voga no Brasil nas décadas de 1940-50, vinham em tradução pasteurizada geralmente do francês, o que não fazia jus ao grande estilista que ele foi. O próprio Lev Tolstói, que sempre teve um pé atrás em relação aos escritores russos seus contemporâneos, após ler essas memórias, assim anotou em seu diário de 1853 (valho-me do posfácio do tradutor): "Li as Memórias de um Caçador de Turguêniev, como é difícil escrever depois dele".

De fato, sobre as verdadeiras "epifanias"da encantadora natureza russa nas diferentes estações, que serve como pano de fundo, o narrador, o jovem nobre no qual os biógrafos reconhecem o próprio Ivan, apaixonado pela caça, vai tecendo seus encontros com os tipos mais característicos dos camponeses, dos servos e dos senhores da pequena nobreza rural russa em casos sempre surpreendentes, com uma cálida ironia, uma fina psicologia e imagens riquíssimas.

A "ação" se passa nas diferentes regiões da enorme propriedade de Spasskoie - vinte aldeias e cinco mil almas, a 360 quilômetros a sudoeste de Moscou -, herança que a excêntrica mãe de Turguêniev recebera de um tio, com o qual vivera em "circunstâncias suspeitas", segundo André Maurois, famoso por suas biografias.

Essa mesma excentricidade - não selvagem e violenta, mas sentimental, como se revelou a da mãe de Turguêniev, marcará a vida do filho, que passará a maior parte de seu tempo em Paris, junto à sua paixão pela vida afora, a cantora lírica Pauline Viardot, e a família dela: marido e quatro filhos. Turguêniev será o primeiro escritor russo a ser amplamente conhecido no ocidente.

As narrativas que compõem a obra forneceram cenas consagradas por vários cineastas, como Buñuel, por exemplo, ou Eisenstein, em O Prado de Bieiin. Só que, onde o narrador de Turguêniev se perde, na noite russa de verão do conto homônimo, entre bandos de cavalos levados ao pasto por cinco meninos, que vivem uma experiência transcendental, um deles - Pavluchka - torna-se revolucionário no filme de Eisenstein, fato esse que não impediu que o filme, quando lançado em 1937, fosse proibido pela censura de Stálin.

Curiosamente, o livro lançado na Rússia em 1852 - causando furor não apenas entre os intelectuais, mas entre os leitores, em geral, esgotando a edição em seis meses - conseguira, num primeiro tempo e graças a um estratagema do autor, ludibriar a censura czarista, mas, logo em seguida, foi proibido, passando por novo revisor, o qual - conforme relata o posfácio - alegara as seguintes razões: "(...) que utilidade tem, por exemplo, mostrar ao nosso povo letrado (...) nossos odnodvórtsi e camponeses, que o autor tanto poetizou como administradores, racionalistas, românticos, idealistas, gente entusiasmada e sonhadora (sabe Deus onde foi encontrá-los!), que nossos camponeses são oprimidos, que os proprietários de terra, que o autor tanto achincalha, expondo-os como torpes, selvagens e extravagantes, comportam-se de forma indecente e ilegal, que o clero das aldeias rasteja diante dos proprietários de terras que isprávniki e outras autoridades aceitam suborno e que, obviamente, quanto mais livres os camponeses forem, melhor?(...)"

Sem dúvida, as Memórias de Turguêniev contribuíram para a abolição da servidão da gleba na Rússia, já no reinado do czar seguinte, Alexandre II, em 1861, quando o livro foi republicado, ganhando a versão final (com mais três episódios), em 1874. No ocidente, a repercussão foi grandiosa. Na Inglaterra, Henry James chama Turguêniev de "o romancista dos romancistas" (the novelist's novelist). Na França, o elogiam nomes como Merimée, Lamartine, George Sand, Flaubert, Alphonse Daudet...mas não apenas naquela época. Hoje, suas melhores obras são tidas como clássicos da literatura universal e críticos e escritores apreciam sobremaneira seu estilo original. Como Isaiah Berlin, que declara: "Turguêniev é o melhor estilista russo depois de Púchkin"; Harold Bloom, que o considera um dos escritores que mais influenciaram a literatura anglo-saxã; ou Alice Munro, que o torna um interlocutor de um de seus contos em Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento, livro de 2001.

AURORA BERNARDINI É PROFESSORA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA RUSSA NA USP

Serviço:

MEMÓRIAS DE UM CAÇADOR

Autor: Ivan Turguêniev

Tradução: Irineu Franco Perpetuo

Editora: 34 (488 págs.,R$ 59)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.