Memórias de um colecionador de hits e modelos

Nesta temporada de muitas biografias de roqueiros, a de Rod Stewart difere por seu senso de humor inteligente

JANET MASLIN, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2012 | 23h59

Rod Stewart viveu quatro décadas como astro do rock, três como pai; no meio tempo, coligiu histórias divertidas que reuniu num livro de memórias. Numa temporada na qual as biografias de roqueiros são numerosas, a sua é a mais engraçada. Talvez seja difícil acreditar. Stewart, 67, era o tipo de sujeito que nunca entrou num quarto de hotel que não conseguisse destruir, cuja ideia de uma viagem de avião era esguichar mostarda na primeira classe, e cujos relatos favoritos se referem a modelos, tanto os de quatro rodas quanto as de maiô.

As loucuras de Stewart lhe granjearam a merecida fama de Jack the Lad (o Cara). Mas isto não seria suficiente para compor um bom livro. É o seu estilo de contar as histórias que conquista o leitor. Ao que parece, Rod - The Autobiography (Crown/Archetype) teve a colaboração do jornalista britânico Giles Smith e funcionou bem. A voz do livro parece mesmo de Rod. Seu famoso senso de humor se destaca desde o início, com a descrição de suas primeiras experiências, como trabalhar numa empresa de papel de parede e morar em cima de uma loja de doces. "Fazer trabalho físico ajuda as pessoas a se conhecerem. E o que aprendi sobre mim mesmo foi que não gostava de trabalho físico." A atividade que mais esforço exigiu dele depois disso foi usar o secador de cabelos.

Embora numa fase tenha lido o jornal comunista The Daily Worker, Stewart rapidamente se tornou um dândi de cabelos espetados. Pouco mais tarde, começou a se apresentar como cantor. "As pessoas falam que uma banda é como uma família. Pode até ser verdade, dependendo de quão frequentemente sua família fica esgotada e bêbada." Quando passou a se apresentar com Jeff Beck, o guitarrista negou ter dito que ele próprio era bom demais para tocar com um cantor tão efeminado: "Ele não é efeminado. Gay talvez".

Stewart passou a gostar de roupas de lastex, ganhou o apelido de Phyllis (o de Elton John era Sharon: o livro conta histórias muito engraçadas sobre a amizade dos dois) e usava tanta maquiagem que comentou: "Eu parecia uma torta decorada". Quanto ao estilo de apresentação: "Carregar 100 quilos de veludo e cetim por 90 minutos, movimentando-se no palco, vou te contar, é trabalho de homem".

Também são mencionados os números das vendas de Stewart - assim como os carros, as propriedades e as muitas mulheres lindas. Ele se tornou colecionador de arte e conta seus quadros quando quer dormir.

Entretanto, o livro registra certa tristeza. "Você pode ser uma das mulheres mais bonitas do mundo e ser infeliz", Rod comenta a respeito de Britt Ekland (ex-bond girl). Falando de outro momento complicado, afirma: "Naquela época, eu estava tecnicamente traindo uma modelo da Playboy com outra modelo da Playboy". É para chorar?

Stewart lamenta seu "terrível problema com o fim de um caso" - ou seja, a tendência a ser apanhado pelos tabloides traindo sua última conquista com a seguinte. Ao que parece, foram inúmeras as mulheres que ele viu arrumando as malas e indo embora, porque este é o seu método preferido para se separar delas. Agora, afirma que está vivendo feliz com a modelo e fotógrafa Penny Lancaster.

Nas fotos da biografia, Rod é visto cercado de filhos e netos. Tem até um filho suficientemente crescido para lhe dizer que uma Lamborghini azul-clara é muito Miami Vice.

Rod inclui ainda observações reveladoras sobre suas gravações mais famosas. Lembra a inspiração para Maggie May (a perda da virgindade, em 1961), orgulha-se de sua herança escocesa em Rhythm of My Heart e fala de outra canção que é quase um hino patriótico, Sailing, que foi gravada quando o cantor estava sóbrio, contrariando seu costume.

Deixando de lado a devassidão, ele tem procurado evitar o que possa prejudicar a voz. Além disso, sua experiência com o câncer de tiroide, em 2000, que poderia ter afetado a sua voz e até o seu penteado, foi assustadora por fazê-lo encarar a mortalidade. No fim, Stewart dá o recado. "Vocês deveriam comprar o meu novo álbum do ano que vem." Considerando a insistente propaganda no livro, talvez vocês o comprem mesmo. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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