Memórias de minha vó Naia

Uma lágrima

, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2010 | 00h00

Na terça-feira vi pela primeira vez minha avó de cabelos brancos. Aos 98 anos, estava sempre impecável, cabelos tingidos, anéis e broche, batom e perfume, com uma vaidade singela que era um dos segredos de sua longevidade. Na terça também a vi pela primeira vez sem o sorriso de sempre, o bom humor que nunca ia embora, movido pelo coração mais puro que já conheci ou conhecerei. Minha vó, Nair - ou Naia, como carinhosamente chamávamos, ou bisa Naia como era chamada por nossos filhos - morreu na madrugada do dia 26 e foi enterrada à tarde no Cemitério de Congonhas.

Tive a sorte de ter duas avós dessas que parecem de ficção infantil. A vó Toneta, Antonieta Palumbo Schievano, era a materna. Tinha uma gargalhada deliciosa, usava expressões italianas, cozinhava massas como ninguém, adorava ir ao cinema. Vó Nair, Nair Gomes Teixeira de Toledo Piza, era mãe do meu pai. Era professora de português e era também impecável na caligrafia e na gramática. Associávamos a ela muitas iguarias também: as balas de café - que fez até pouco tempo atrás para cada um dos quinze bisnetos que faziam aniversário, como antes para cada um dos sete netos e antes para cada um dos dois filhos -, o bolo de fubá, o sequilho, a espuma flutuante (ou ovos nevados ou ilha flutuante, na qual punha um toque de canela definitivo), etc. Sempre que dormíamos nas casas dessas avós, voltávamos mais gordos de carinho.

Era uma mulher pequena, bondosa e ingênua, que por isso chegou a ser enganada por gente na rua ou assaltada no ônibus, mas, até julho passado, nunca deixou de morar sozinha. Estava sempre ativa, arrumada, bem disposta, ia a pé ao banco e ao supermercado; de vez em quando, encarava sete horas de estrada para passar uns dias na fazenda do genro, onde cuidava do pomar. Se ficava doente ou tinha uma fratura, fazia o que mandava o médico - como seu filho - e logo se recuperava. Sobreviveu 32 anos ao meu avô, Amilton, em parte graças ao marca-passo que pôs nos anos 90, e porque nunca se tornou a idosa ranzinza, nunca ficou reclamando da vida; no máximo, nos últimos anos, se queixava de ter perdido o paladar, veja só.

Pertencia a uma época em que as pessoas eram bem educadas e confiáveis antes de mais nada, e era extremamente amorosa com cada um dos familiares. Em enterros, choramos em boa parte por egoísmo, porque nos tiraram um pedaço de nossa vida, ou porque sentimos de novo que a morte é a única certeza que não pode ser sonegada e iguala a todos, homens e mulheres, ricos e pobres, bons e maus. No caso da vó Naia, a causa da morte foi apenas o tempo, nada mais. Ela viveu quase um século e foi sempre feliz.

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