Memórias da febre chamada ''Blitz''

A segunda geração do rock nacional, a que emplacou nos anos 80 e não divide prateleiras com heróis da Tropicália, teve início em 1982, quando um grupo do underground carioca chamado Blitz foi contratado pela gravadora Odeon. "Na época, gravar um disco era como ir à lua", lembra Evandro Mesquita, vocalista da banda conhecido também como o Paulão, do programa A Grande Família. "O acesso às gravadoras era só para medalhões da MPB. Nada que tocava no rádio era parecido com o que a gente fazia."

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2011 | 00h00

Evandro fazia parte do Asdrúbal Trouxe o Trombone, o lendário grupo teatral que revelou Regina Casé, Patricia Pillar, Patrycia Travassos, entre outros grandes do palco e da TV brasileira. Montou a banda e como era diretor de programação do Circo Voador, na época um antro underground, a Blitz passou a se apresentar frequentemente para a moçada carioca. "Percebíamos que havia bastante interesse da garotada. Sempre perguntavam quando o disco iria sair e tal", conta.

Foi quando Evandro conseguiu uma audição com Clever Pereira, o diretor da Rádio Cidade. "A gente nunca tinha entrado num estúdio. Não sabíamos nem usar headfones direito. Mas tínhamos o show pronto. Quando chegamos lá, o tal de Clever era um executivo de terno, homem sério, um cara aparentemente difícil de convencer. Mas começamos: um, dois, três. Tocamos a primeira e a segunda. Na terceira, o Clever já estava afrouxando a gravata e pedindo uma garrafa de uísque. Dizia "Poxa, isso aí é do caramba. Vai estourar"", conta.

Mas Clever não fazia ideia do que estava por vir: "Aí, quando pintou Você Não Soube me Amar, o cara foi à loucura e disse que não tinha ouvido nada tão interessante desde Os Secos e Molhados. O que deu muita confiança pra gente".

A Blitz lançou o compacto imediatamente e o primeiro disco, As Aventuras da Blitz, que chega às bancas amanhã em relançamento pela Discoteca Estadão, por R$ 14,90, foi um sucesso estrondoso. "Bateu na veia. Do Oiapoque ao Chuí. A gente teve a felicidade de entrar em várias camadas sociais. A empregada curtia, a madame curtia, a filha da madame e a netinha também curtiam", diz Evandro.

Para o disco, a Blitz buscava inspiração tanto em Bob Marley quanto no pós punk inglês, mas o humor e a teatralidade eram o diferencial. "Eu carregava muita coisa do Asdrúbal, que tinha uma pegada meio musical enquanto a Blitz fazia uma música meio teatral, que falava em personagens, em cenários, essas coisas", conta. O disco tinha Lobão na bateria, Ricardo Barreto nos violões e ainda Fernanda Abreu nos backing vocals. Além de estourar com Geme Geme e Você Não Soube me Amar, talvez seu maior trunfo tenha sido abrir caminho para todas as bandas que emplacaram depois.

"Na época não havia rock como nós conhecemos hoje. Tinha A Cor do Som, 14 Bis, Roupa Nova, mas não tinham uma pegada com discurso underground", conta. "Então, a gente arrombou essa porta, que era fechada para esse tipo de música. Depois disso, todas as gravadoras queriam ter uma Blitz, então começaram a escancarar para todo mundo que tinha uma bandinha de garagem. Aí entrou muita m..., mas também entrou muita coisa boa", diz.

BLITZ

AS AVENTURAS DA BLITZ

R$ 14,90

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.