Memórias da casa da poeta

Na opinião do filósofo e professor Miguel Reale, a mais importante revolução do século 20 foi a das mulheres. Na vanguarda desse corajoso movimento contra qualquer preconceito, destaco três escritoras: Clarice Lispector, Lupe Cotrim e Hilda Hilst. Eis aí três belas escritoras (elas eram belas) que foram da maior importância na história da literatura brasileira.

Lygia Fagundes Telles, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2011 | 03h07

Hilda Hilst, paulista (1930- 2004), estudou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde se diplomou na década de 1960. Essa poeta, romancista e dramaturga resolveu deixar São Paulo e ir morar numa fazendola em Campinas. Restaurou a casa que ficou belíssima. E as árvores em redor e até um espaço lá no fundo onde foi instalando um canil. Hilda tinha paixão por cachorros que ia encontrando pelo caminho, rejeitados ou perdidos, e lá os instalava com todo o conforto. Na casa só ficavam os prediletos - ah, Hilda Hilst!

A casa foi batizada com o nome Casa do Sol, onde a poeta começou a receber a visita dos mais importantes escritores e artistas brasileiros. Era a paixão maior da poeta: a Casa do Sol com a imensa biblioteca, os belos quadros, os objetos raros...

O sonho da poeta era que essa Casa do Sol continuasse revitalizada após sua morte - enfim, que se transformasse num centro cultural vivo e quente sob aquele sol ardente e céu estrelado. Eis que seus amigos se entregaram a essa bela luta para que a Casa do Sol continuasse. A sonhadora poeta foi morar em outra casa, mas a Casa do Sol tinha que prosseguir viva.

Enfim, a bela Casa do Sol não poderia mesmo se transformar num monte de tijolos para algum eventual loteamento. Era preciso tombar essa casa, símbolo da beleza e da cultura campineiras. E lembro, nesse instante, as palavras de Chico Buarque e que traduzem o que representa este tombamento: "Mesmo com toda a fama, com toda a brahma/ Com toda a cama, com toda a lama/ A gente vai levando, a gente vai levando./ A gente vai levando essa chama!".

   

Discurso proferido durante a comemoração pelo tombamento da casa do sol

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