Memórias da bactéria sem pai nem mãe

"Eu comecei minha "vida" ? chamemos assim ? como bactéria; sim, uma daquelas primitivas do ano de 2010. Eu já tinha sido um vírus, o PHI X 174, e acabei patenteado como uma espécie de micro "frankenstein", para os grandes lucros da Synthetic Genome Inc. Mas, historicamente, tudo isso foi muito depois.

, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2010 | 00h00

Antes de eu nascer, no início do século 21, os cientistas apenas faziam um troca-troca de células entre espécies diferentes, coisa impensável durante 3 bilhões de anos, pois os seres vivos se encasulavam dentro de células impenetráveis. Isso provocou um carnaval de mutações: genes de águas-vivas misturados com ratinhos brancos, cachorros iluminados como néon verde, minhocas coloridas com asas de borboletas, pequenos elefantinhos cruzados com pôneis para alegria da criançada, surgimento de seres até então considerados monstros como o Anfiabaena, uma sucuri de várias cabeças ou o Humbaba, com garras de abutre, chifres de touro e pênis com cabeça de cobra, Wufinicks, homúnculos-escorpiões.

O estranho de tudo isso era a coexistência dos gastos de bilhões de dólares nos laboratórios com a fome da África, com a boçalidade política destruindo o mundo, com a tecnociência fazendo milagres cercada de lixo, miséria e estupidez.

Nessa época, já se armavam nos desertos os confrontos nucleares no Oriente Médio, que poucos anos depois, como previsto, explodiram. Paquistão contra Índia, Israel contra o Irã, antrax na Broadway, arrasamento de Meca e Teerã.

E foi justamente durante essas catástrofes que descobriram o DNA sintético e começaram as mutações do nada em algo, a partir daquele meu remoto ancestral bacteriano de 2010, lembram? Era minha longínqua avó, a "mycoplasma genitalium", que habitava as paredes das vaginas e, pour cause, evocava uma Eva dentro de uma Boceta de Pandora, a gerar descendentes originais.

Isso fez a mídia esquecer toda a lixeira nuclear instalada, mares negros de petróleo, geleiras derretidas. O mundo se rejubilou: "Vida artificial! Somos deuses!"...

Grandes merdas, digo eu, hoje é tão óbvia a máquina da natureza...

Filósofos que meditavam sobre o Ser mergulharam em depressões incuráveis, internados nos hospícios da Academia, assistindo em desespero invejoso a cientistas ganhando Prêmios Nobel, tudo a partir daquele bichinho de onde eu vim, um puto que vivia em uretras e bocetas.

As mutações passaram a surgir em cascata. Das bactérias, os pesquisadores pularam para as algas, para os fungos, porque eles têm núcleo e cromossomos como animais, plantas e... nós... os supostos "homo sapiens". A partir daí, os progressos foram imensos e as combinações artificiais multiplicadas, sempre em nome da saúde, da medicina, do "bem" da humanidade.

Nasceram estirpes de seres "alienígenas" daqui mesmo da terrinha; era a Criação sem Deus, a Criação ateia, a origem das espécies vindas do computador. Não mais os velhos macacos falantes do cruzamento de pigmeus com chimpanzés, não mais cangurus com cara humana, ou cavalos com asas de abutres, hidras domésticas ou sereias sexy em bordéis orientais. Isso era coisa do passado.

Apareceram os filhos do nada. E logo o mercado os cooptou. As elites se regalaram com escravos artificiais, como os Elois, artesãos incansáveis, vivendo sem comer, ou os Morlocks, operários cegos, trabalhando em subterrâneos e minas, ou os Golens, excelentes mordomos discretos. Também foi muito emocionante a renascença dos hominídeos Neandertal, que voltaram à vida, recriados a partir de um pedaço de unha fóssil. No entanto, o constrangimento foi grande logo depois; inicialmente utilizados como prostitutos (sexualmente ativíssimos), logo se descobriu que na realidade eles eram "homo sapiens", extintos havia milênios, enquanto nós éramos os filhotes dos primitivos Neandertal. Prontamente, os "sapiens" incômodos foram exterminados por uma "epidemia" de laboratório.

A época foi um maná para terroristas genéticos, "hackers" da vida artificial, que criaram, por exemplo, homens-bomba de nascença, que explodiam sozinhos, e vírus imensos que devoravam seus pesquisadores.

As maravilhas da ciência eram inócuas, dentro de uma sociedade fracassada. Nada de bom podia sair de raízes podres. Como não havia outra saída, a indústria do entretenimento (melhor dizendo, do esquecimento...) passou a produzir vida artificial para jogos e brinquedos.

A humanidade virou um parque temático de monstros inúteis, de videogames com seres vivos, criaturas perseguidas ao vivo por jogadores armados, criaturas-coisas, zoológicos de animais ornamentais nos mirando de olhos baços, numa idiotia de almas penadas.

Alguns cientistas ainda achavam que a Razão antiga poderia ser salva pela tecnociência. Mas a Razão nunca tinha havido, a não ser como um luxo francês e alemão no século 18. A insânia do mundo sempre fora invencível. Desesperados, eles entenderam que no caos humano de 13 bilhões de desgraçados o passado já tinha acabado e o futuro não chegaria nunca.

Foi nessa época que acabou o presente. Não havia mais presente ? só um caldo borbulhante de nada. Não se tratava mais de bem e mal, de sensatez ou insânia, de causa ou efeito; nossa situação histórica e política era tão intrincada, que ninguém mais tinha razão; as coisas tinham razões próprias e a vida era insolúvel, uma equação de mil incógnitas.

Só restava aos cientistas o acaso, quase a poesia. Continuaram a parir filhos dos algoritmos. Nasciam seres abstratos sem pai nem mãe, seres com algo de "anjos", metáforas vivas, fadas quase invisíveis, sentidas apenas por seus gemidos melódicos.

Surgiram formas líquidas como medusas, entidades compostas de calor como se viessem do início dos tempos, corações soltos no ar, sombras sem corpos.

Os sábios entenderam então que tinham criado não a vida, mas o nada. A ciência era inútil.

Tinha morrido a "falta", tinha morrido a morte, tinha morrido o vazio, o mistério; portanto, o desejo e a memória.

Entre o ser e o nada, criáramos o nada, sob a luz impassível das galáxias sem rumo ou finalidade."

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