Memórias cavadas no subsolo

Sylvio Back prepara-se para o desafio de filmar Angústia, de Graciliano Ramos

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2012 | 03h11

O diálogo com as letras está sempre presente na carreira de Sylvio, com atestam sua cinebiografia poética Cruz e Sousa - o Poeta do Desterro, e também com a versão do suicídio em Petrópolis do escritor austríaco Stefan Zweig, na produção internacional Lost Zweig, baseada no livro de Alberto Dines, Morte no Paraíso. A vocação de diálogo com a literatura continua agora na adaptação do romance do escritor alagoano Graciliano Ramos, Angústia, prevista para o início do ano que vem.

Ganhando musculatura para o desafio, Sylvio já filmou o documentário O Universo Graciliano, com locações em Maceió e Rio de Janeiro, uma espécie de preparação para a abordagem da ficção do autor alagoano. "O filme vai ao encalço de rastros, sombras e escombros imemoriais em torno e sobre o genial Graciliano, que viveu de 1892 a 1953", conta. Esse documentário prospectivo é definido pelo cineasta como espécie de "ensaio geral" com vistas à abordagem de Angústia, romance jamais filmado de Graciliano. O difícil trabalho de passagem da prosa do escritor alagoano para as telas terá início no final do ano.

A prática do "documentário prévio" vem ganhando adeptos. Basta lembrar que, antes de Back, Walter Salles filmou um doc percorrendo as trilhas da beat generation como aquecimento para adaptar o clássico de Jack Kerouac On the Road, que ganhou o título em português de Na Estrada e continua em cartaz nas salas brasileiras depois de haver participado do Festival de Cannes.

O desafio maior de Back vem com a filmagem desse grande romance brasileiro que é Angústia. "Para o início do ano que vem estou preparando as filmagens em Maceió e no Agreste alagoano do romance, com roteiro de minha autoria, e cuja produção encontra-se atualmente em fase de captação de recursos", diz o diretor. É um projeto que Sylvio vem "acarinhando" faz sete anos.

Sabe que, além das dificuldades intrínsecas da versão para a tela terá de enfrentar comparações. "Dos livros 'clássicos' de Graciliano, Angústia é o único ainda não filmado; os demais, Vidas Secas e Memórias do Cárcere, ambos de Nelson Pereira dos Santos, e São Bernardo, de Leon Hirszman, são hoje obras seminais do cinema brasileiro. Por aí pode-se aquilatar a minha responsabilidade", diz. De fato, Vidas Secas é tido como uma das obras clássicas do Cinema Novo, assim como São Bernardo. Memórias do Cárcere foi o filme considerado como símbolo do processo de abertura política que se realizava no País, após 20 anos de ditadura. Mas, para além de sua implicação política, é a qualidade estética desses filmes que os impõe como padrão e patamar.

Angústia é também um grande desafio. É, talvez, o mais "existencial" e atormentado dos romances de Graciliano. Seu personagem, Luís da Silva, sem deixar de ser brasileiríssimo e nordestino, tem um toque dostoievskiano. A narrativa flutua entre a vida presente do funcionário Luís e recordações da sua vida pregressa, da morte do pai e do amor ambíguo por Marina. O engraçado é que, a certa altura da narrativa, o personagem não deixa de destilar sua raiva contra uma invenção moderna que, de acordo com ele, seria contra a moral e os bons costumes - o cinema.

O fato é que as dificuldades são muitas. Narrado em primeira pessoa, com linha temporal fragmentada e uma densidade psicológica difícil de encontrar em personagens contemporâneos, do cinema ou da literatura, Angústia é uma das obras-primas das letras brasileiras. Para vertê-lo para o cinema, é preciso, primeiro, compreendê-lo de forma profunda. Foi o caminho escolhido por Back. "As pesquisas para filmar O Universo Graciliano nasceram à época da escritura do roteiro de A Angústia (é o título que terá a produção) quando me dei conta que até então ninguém havia realizado um filme sobre a vida-obra-e-morte de Graciliano Ramos", diz.

Aprofundando-se no ambiente em que viveu Graciliano Ramos, o cineasta acredita ter adquirido uma visão abrangente sobre o personagem e sua obra. "Confesso que imergindo nele, até compreendi melhor as vísceras morais do romance." Fãs de Graciliano, ficamos na torcida.

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