Memórias afetivas. E musicais

Férias, festivais de inverno. Semana passada encontrei o maestro Roberto Martins no restaurante Almeida, aqui em Santos, degustando tranquilamente espetos de meca, deliciosa especialidade da casa. Roberto é um velho companheiro de lutas artísticas, um dos melhores regentes corais que conheço.

Gilberto Mendes & Erudito, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2010 | 00h00

Sentei-me a seu lado, para beliscar algumas sobras, e a conversa de repente se encaminhou para a recordação dos músicos notáveis que ali sentaram com a gente, depois de seus concertos no Música Nova. Pena que os proprietários do restaurante nunca tiveram a ideia de fotografá-los. As fotos poderiam decorar as paredes. Lembro-me de Caruso, Gigli, na pizzaria Castelões, no Braz, Orson Welles em "Los Caracoles", no Barrio Gótico de Barcelona, o nosso grande Pelé em Nova York, num restaurante em baixo do City Corps. Veio logo à minha lembrança, no Almeida, Frederic Rzewski com a cabeça no meu ombro, aquela figura mitológica da música de nosso tempo juntinho da gente, na maior intimidade. Tenho uma foto, mas está em meu álbum de recordações, não nas paredes do Almeida.

Rzewski compôs famosas variações em torno de O Povo Unido Jamais Será Vencido, canção de luta do chileno Sergio Ortega, mundialmente cantada pelas massas revolucionárias. Variações já comparadas, por alguns musicólogos, às Variações Goldberg, de Bach, e às Variações Sobre Um Tema de Diabelli, de Beethoven.

Jantar. Outra noite, quem está lá no Almeida, jantando com a gente ? Aquele considerado o maior crítico europeu de música contemporânea, Philippe Albèra, acompanhando o Ensemble Contrechamps, que ele fundou. A lista no Almeida ia ser muito longa, e passamos a relembrar outros lugares. O histórico Duo Kontarski - porta-voz de Boulez e Stockhausen - jantando com a gente no Conservatório Lavignac de Santos, após seu concerto. Um excepcional jantar feito por damas da sociedade santista que cantavam em nosso Madrigal Ars Viva. Os dois pianistas lambiam os beiços, extasiados. Anos depois encontrei-os num festival europeu e eles, em conversa, relembraram esse realmente memorável jantar.

Não posso esquecer, agora em outros países, uma noite no Festival de Patras, na Grécia. O concerto era ao ar livre, atrás de uma muralha baixa de um velho castelo em ruínas, e de repente começa a chover pedras em cima da gente, jogadas pelos moradores em torno da muralha. A música erudita de nosso tempo recebida a pedradas, já pensaram? Outro dia, depois de impressionante briga com os músicos que ensaiavam minha música, o regente virou-se para mim abrindo fraternal sorriso e me beijou no rosto. Os gregos são assim!

Em Graz, Áustria, no Festival da Sociedade Internacional de Música Contemporânea, tocaram meu trabalho com o maior descaso. O organizador do evento deu violentíssima bronca nos intérpretes e ainda me criticou por não lhes ter dado uns bofetões. Que é isso, companheiro! Mas tem os momentos inesquecíveis. Pierre Boulez indo ao nosso quarto para conversar com a gente, eu, Willy e Rogério Duprat, meros participantes, em 1962, dos ferienkurse de Darmstadt. Não merecíamos ainda aquela deferência. Dias depois Boulez regeria, na mesma noite, Le Marteau sans Maître, de sua autoria, Pierrot Lunaire, de Schoenberg, e as Dansas Sagradas e Profanas de Debussy. Deslumbrante.

Havia uma grande intimidade entre alunos e professores, reunidos num mesmo prédio onde todo mundo dormia, comia e tinha as aulas. Cruzávamos pelos corredores, refeitórios, até nos toaletes com figuras como Pousseur, Ligeti, Maderna. Acompanhamos de perto, dia a dia, um tórrido love affair de Stockhausen com uma verdadeira Walkiria, principalmente o drama quando sua mulher chegou.

Ah, as estudantes fatais! Lembro-me do compositor americano Gunther Schüller - mestre da fusion jazz-neue Musik - no Festival de Campos do Jordão, numa mesa ao lado da minha, na sala de jantar do hotel onde estávamos hospedados. Apresentei-me como compositor brasileiro e pedi um autógrafo em seu excelente livro O Velho Jazz. Ele me deu, mas quase sem me olhar, embevecido que estava por três belas estudantes em sua companhia. Absolutamente desinteressado em minha pessoa. Está certo, querido Gunther, eu compreendo, te perdoo...

GILBERTO MENDES É COMPOSITOR, CRIADOR DO FESTIVAL MÚSICA NOVA E AUTOR, DENTRE OUTRAS OBRAS, DE UMA ODISSEIA MUSICAL

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