Memorial ganha uma mão de tinta

A partir de hoje a fachada do Memorial da América Latina ganha roupa nova. O branco retorna ao charme das curvas de Oscar Niemeyer, mas um visitante atencioso verá um patrimônio sem os cuidados necessários. Serão visíveis as infiltrações, entre outros problemas. "Gostaria de saber do secretário: por que ele, ao invés de investir na adaptação da sede do Dops em um centro cultural, não destina essa verba às instituições já existentes?", perguntou a assessora da presidência do órgão, Lulu Librandi. "O Memorial está em estado lamentável", afirmou. Branco é a cor preferida de Niemeyer. Logo depois da inauguração, no dia 18 de março de 1989, ele pediu que a pintura fosse feita periodicamente. Alertado pela reportagem que enviou fotos das reais condições de conservação, o arquiteto respondeu por fax à Agência Estado: "Neste caso não era apenas o problema arquitetônico que me atraía, mas saber que a obra se destinava à aproximação entre os povos da América Latina. O que sempre considerei politicamente fundamental. E, por isso mesmo, sou obrigado a lamentar como esse objetivo tem sido esquecido, quando a realização de conferências, exposições e encontros interamericanos estava prevista como a própria finalidade desse Memorial". O fax vem assinado "Oscar Niemeyer, dia 12 de janeiro".Ao contrário do arquiteto, que respondeu prontamente via fax, o secretário Marcos Mendonça ignorou as perguntas enviadas por e-mail, na quinta-feira. Sua assessoria, depois de muita insistência, apenas avisou que ele estava viajando e que ninguém mais poderia responder a tais questões. O Memorial foi contemplado pelo governo do Estado, depois de seguidos pedidos, com uma verba de R$ 500 mil, no fim do ano passado. Do total, R$ 214 mil foram destinados à contratação da Estemag Engenharia e Construção, por processo de licitação. A pintura nova deve ficar pronta daqui a três meses. O restante foi utilizado para trocar parte da rede hidráulica, já oxidada, fazer o aterramento, a revisão do sistema de alarme contra incêndio e uma revisão elétrica em alguns pontos, realizada a partir de dezembro pela DKL Construtora. As obras não vão interferir na agenda de eventos que já começa este mês e a visitação será feita normalmente, segundo informações dos funcionários.A verba será utilizada para suprir as necessidades de manutenção, que até então superavam os R$ 1,1 mil mensais de adiantamento usados para pagamentos imediatos de pequenos consertos eventuais em um terreno de 84. 482 mil metros quadrados. A direção do Memorial também enfrenta problemas para contratar mão de obra. Para contornar a dificuldade é usado o trabalho de prestadores de serviços à comunidade. A ação é considerada uma forma de pena alternativa para pessoas que cometeram pequenos delitos. Para preservar os 20 mil metros cúbicos de concreto envolto em 2.200 toneladas de aço, seguindo um breve orçamento - dividido entre emergencial, prioritário e manutenção corretiva efetiva - elaborado pelo gerente de Arquitetura da casa, Hermínio Carlos Foloni, seria necessário mais R$ 1,5 milhão em outras obras, como manutenção das escadas, impermeabilização das lajes, controle de cupins e pragas urbanas existentes no auditório Simón Bolívar. No dia 14 de dezembro, parte da exposição Plínio Marcos, Um Grito de Liberdade - Uma Exposição quase Marginal foi alagada devido às fortes chuvas. A exposição foi interditada e o local só foi reaberto cinco dias depois.Apesar das constantes intervenções caseiras, os cupins poderão prejudicar uma tapeçaria assinada pela artista plástica Tomie Ohtake, de 800 m², entregue a pedido de Niemeyer, na cerimônia de inauguração em 1989. "Quando Niemeyer convidou-me para fazer este painel ocupando toda a parede lateral interior do auditório do Memorial da América Latina, percebi que era um enorme desafio, porque havia as duas curvas que trocaram a tradicional base retangular por uma belíssima forma que eu não quis destruir, mas valorizá-la e, ao mesmo tempo, ter um trabalho meu que dissesse alguma coisa. O resultado a que cheguei procurou também manter a unidade platéia-palco-platéia", disse na época a artista.A toque de caixa - Boa parte dos problemas é creditada à pressa na construção. Foram exatos 16 meses, que usualmente levariam três anos, para se erguer a Biblioteca da América Latina, o Pavilhão da Criatividade, o Salão de Atos, o Auditório e o restaurante.A obra, realizada à época pelo governador Orestes Quércia (PMDB), atendeu aos pedidos do antropólogo Darci Ribeiro e à necessidade de recepcionar os vizinhos latino-americanos, que já passavam dos 500 milhões. Polêmica ou não, o fato é que o governo investiu cerca de US$ 50 milhões na construção de um misto de centro cultural, político, lazer e gastronômico. A tarefa envolveu mais de mil homens que obedeciam às regras do precursor da arquitetura moderna. "A construção foi a toque de caixa. Algumas etapas das obras deixaram de ser executadas, como a retirada das formas de concreto armado e a proteção de tubulações enterradas", afirmou Foloni.Obras à parte, o Memorial perde vagarosamente o seu real sentido: reunir, difundir a cultura e recepcionar os visitantes da América Latina. Segundo o coordenador da Monitoria, Sidnei da Silva, poucos são os turistas latino-americanos que visitam as áreas do patrimônio. Através de um levantamento quantitativo realizado por Silva desde sua posse na monitoria há oito meses, o Memorial recebe em torno de 10 mil pessoas por mês, chegando entre setembro e outubro, a atingir 13 mil. Cerca de 6 mil são estudantes do ensino fundamental, que vêem de diversos Estados a fim de aprender mais sobre a formação política e econômica da América Latina. O restante se divide entre paulistanos curiosos e até alguns turistas latino e norte-americanos e também europeus. "mas é muito pouco", diz Silva, que coordena um grupo de 17 monitores. Para ele, as agências de turismo não divulgam o local e muitos desconhecem a sua real importância. "Tem muita gente que não sabe nem o que é Memorial e muito menos o que é América Latina", diz a assessora da presidência, Lulu Librandi.

Agencia Estado,

15 de janeiro de 2001 | 20h01

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