JF Diorio/ Estadão
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Memória e política

Naum Alves de Souza inaugura novo viés em peça dedicada a tratar da velhice

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2013 | 11h30

Há escritores que escrevem sempre o mesmo livro. Como se cada novo título não fosse mais do que um desdobramentos do anterior. Como se estivessem diante de uma pergunta inesgotável, que leva a vida inteira para ser respondida. Naum Alves de Souza escolheu a memória como território de sua ficção.

Na trilogia de peças que o notabilizou – No Natal a Gente Vem Te Buscar (1979), Aurora da Minha Vida (1981), Um Beijo, um Abraço, um Aperto de Mão (1984) –, o dramaturgo cercou-se de um mundo que conhece bem. Teceu recordações infantis, recorreu às angústias da adolescência, aos fantasmas da formação presbiteriana, aos estigmas de sua classe e de sua época. Deu forma a modos de pensar e de agir que lhe são inerentes. Mas que não se encerram nele. Estavam nos que vieram antes, espraiam-se entre os que surgiram depois.

“Minhas peças tentam abordar minhas impressões a respeito de um mundo que conheço muito bem. Não estou fora. Estou falando de dentro”, diz o autor. “Estou sempre em busca de uma explicação, tentando entender por que sou desse jeito. Quais os elementos morais, sociais, religiosos que nos formam. Já passei por cinco terapias – e elas me ajudaram muito – mas não me modificaram.”

Ao debruçar-se sobre uma classe social que não a sua, Operação Trem-Bala desvencilha-se do sabor amargo que impregnava outras obras. Só que sem perder a mirada crítica. “Eu só queria falar sobre a velhice. Mostrar que até os poderosos ficam senis e acabam do mesmo jeito que os outros”, conta.

Naum Alves de Souza atirou no que viu e acertou em algo que nunca antes tinha entrado em sua arte: a política. Já havia dirigido criações em que o aspecto surgia acentuado – A Flor do Meu Querer, de Juca de Oliveira, o monólogo Mediano, de Otávio Martins. Agora observa por si só o universo intricado. Uma mudança que lhe rendeu novidades estilísticas também.

Em suas peças, os personagens invariavelmente pareciam lembrar alguém, como se um parente que conhecemos muito bem surgisse com outro nome e em outro lugar. No espetáculo que ele encena desta vez, as figuras perdem o tom prosaico para ganhar a estatura de alegorias. Homens e mulheres adquirem traços exagerados. Têm mais de cem anos. Estão envolvidos em situações impossíveis, rodeados por fantasmas. Existe, inegavelmente, um traço de absurdo que perpassa tudo. “Nada é realista, ainda que tudo seja realidade”, comenta o criador.

Tal realidade diz respeito a um retrato bastante fiel da classe política. Ao longo de toda a trama, não faltam menções a situações que o espetador poderá facilmente identificar. Observam-se práticas clientelistas, corrupção, famílias que se perpetuam no poder. “O Brasil está cheio desses políticos que vão fazendo seus sucessores entre filhos, entre netos”, observa.

Política nem sempre diz respeito apenas a situações públicas. Dentro dos limites de seu palacete, o protagonista construiu um ambiente tão degradado quanto o que o circundava nos postos governamentais que ocupou. Os filhos são criados pelos empregados, sem limites entre o certo e o errado, acobertados em seus erros e desmandos. Não surpreende que, ao fim, só estejam interessados em receber a parte que lhes cabe no bolo.

A contrastar com o exagero que imprimiu às interpretações, o diretor optou por uma encenação limpa, com a cenografia reduzida a um pequeno trem de brinquedo. O elenco, formado por Ana Andreatta, Fábio Espósito, Marco Antônio Pâmio e Mila Ribeiro, reveza-se para fazer vários personagens, recorrendo apenas a trocas de figurino e maquiagem. A luz de Wagner Freire ajuda a criar climas, delinear os claros e escuros de cada um desses seres. E fica a sensação de que o jogo que mobiliza o teatro de Naum Alves de Souza está exposto.

A limpeza da cena chama atenção justamente pelos múltiplos talentos do criador. Além de diretor e autor, Naum tem carreira profícua como cenógrafo, trabalhou nesta função para Elis Regina, Luís Sérgio Person e João Bethencourt. Mereceu seis prêmios pelo projeto cenográfico inspirado que concebeu para Macunaíma, encenação de Antunes Filho (1978). Criou os bonecos de Vila Sésamo, o afamado programa infantil.

40 anos esta noite. São quatro décadas de uma carreira que atravessa o teatro, a televisão e a ópera. Criar um texto é estabelecer uma relação diferente com o que vai ao palco. “Às vezes, a gente tem um certo ciúme, autor teatral sempre tem medo de que destruam as suas peças”, comenta. “Dirigi Aurora da Minha Vida quatro vezes. Não devia ter feito tanto. Era melhor deixar para outros.”

A direção de um texto que não seja seu carrega necessariamente uma sensação diferente. Mas que pode ser igualmente feliz em alguns títulos. Sua versão para Longa Jornada de Um Dia Noite Adentro (2003) foi um desses momentos. “Esse texto era uma velha paixão”, conta. Trazia Sergio Brito, Marco Antônio Pâmio, Genézio de Barros e Cleyde Yáconis, em um de seus muitos momentos de brilho. “A personagem Mary Tirone tinha uns 50 anos. Cleyde já estava com 80. E fazia lindamente. Aquela mulher interiormente quebrada, os filhos bêbados, o casamento no fim. Ela tinha um mistério que eu não sei definir. O teatro era a Cleyde.”

OPERAÇÃO TREM-BALA

Instituto Cultural Capobianco Teatro da Sala Subterrânea

Rua Álvaro de Carvalho, 97, tel. 3237-1187.

6ª e sáb., 20 h; dom., 19 h. R$ 10/R$ 20. Até 29/9.

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