Memória e identidade

A 4ª revista Zum, que será lançada no sábado, revê função social da imagem

SIMONETTA PERSICHETTI, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2013 | 02h11

Nos últimos anos, com a entrada da fotografia no mercado das artes plásticas e seu "retorno" ao valor documental, muito se tem falado sobre ela e, é bem verdade, pouco se tem pensado nela. No Brasil, a literatura sobre o tema ainda é escassa, festivais e seminários procuram preencher esta lacuna.

Entre estas iniciativas, a da revista Zum, editada pelo Instituto Moreira Salles, tem cumprido papel de forte relevância. No quarto número, que será lançado sábado, 11 h, no Auditório da livraria Martins Fontes Paulista (Avenida Paulista, 509, tel. 2167-9900), memória e identidade parecem ser a tônica. Imagens realizadas ainda nos anos 1960 pelo norte-americano Garry Winogrand (1928-1984) conversam tranquilamente com fotos feitas nesta primeira década por Katy Grannan. Winogrand retratou o conturbado e criativo final dos anos 1960 nos EUA. Passeava pelas ruas registrando e fazendo um retrato, muitas vezes agudo e preciso, da sociedade pós-guerra. Adorava a desordem, o caos, e é isso que transparece nas suas imagens.

Discípulo de Walker Evans, mas seguidor do estilo livre de Robert Frank, suas fotografias parecem sempre produzidas de forma abrupta, e são, mesmo assim, de uma beleza impressionante. Escolheu esta arte como uma maneira de entender a vida. É dele a frase: "Fotografo para ver como fica o mundo fotografado".

Já a norte-americana e filha da contemporaneidade Katy Grannan, nascida em 1969, também escolheu a rua como cenário de seus retratados. Ela se volta para pessoas que de certa maneira se tornam invisíveis nas grandes metrópoles. À primeira vista, é difícil não relacionar seus trabalhos com os feitos por Diane Arbus ou Richard Avedon. Retratos que trazem para visibilidade pessoas que não a teriam se não fosse por meio de uma fotografia. Walter Benjamin em 1931 escreveu que: "Se alguém vai se tornar importante isso vai ser decidido no momento exato em que a fotografia foi tirada".

E é por meio da fotografia que o cineasta alemão Wim Wenders abre seus apontamentos, quase um diário: Ao iniciar cada texto com o "era uma vez" dos contos de fadas, nos apresenta um ensaio em que a imagem e o texto servem como um recurso da memória e também ficcional, relatando encontro com amigos e trabalho. Memória que caminha junto com identidade. Neste sentido, as fotografias do chinês Li Zhingsheg ajudam a recontar a história da Revolução Proletária chinesa (1966-1976). Fotógrafo do diário Heilongjiang, ele captou os dois lados do mesmo período histórico.

Se de início se entusiasmou com o que estava vendo e acontecendo na China de Mao, aos poucos foi se desiludindo com o que via e num país onde o rosto era praticamente proibido, já que o que valia era o coletivo, a massa, começou a captar a face dos acusados de traírem o regime. Com medo de ser denunciado, durante anos escondeu estas imagens debaixo do assoalho de sua casa e lá ficaram escondidas até que ele resolveu resgatá-las no fim dos anos 1980 e, com a ajuda do britânico Robert Pledge, fundador da agência americana Contact Press, divulgá-las pelo mundo.

A revista traz ainda o ensaio Cinquenta e Cinco, de Rosângela Rennó, feito a pedido da própria Zum. Um dos aspectos relevantes da edição é, sem dúvida, a entrevista e as fotos poucos conhecidas do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), que, em 1965, escreveu Photographie Un Art Moyen para discutir a função social da foto, tornando-o um dos textos fundamentais de teoria fotográfica. Quando ele escreveu o livro, poucos sabiam que anos antes, na Argélia, havia feitos vários trabalhos usando a fotografia como suporte. Uma frase desta entrevista, realizada no ano de sua morte, pode resumir o pensamento dos fotógrafos apresentados nesta edição: "Eu me interesso por vocês, escuto suas histórias, darei testemunho de suas vidas". Afinal, contar histórias ainda é a magia da fotografia.

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