Andre Lessa/AE
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Memória e ficção

Grande vencedor do Prêmio Shell, o diretor e dramaturgo Leonardo Moreira, de 28 anos, prepara nova peça e exibe repertório em mostra

Maria Eugênia de Menezes,

23 de março de 2011 | 06h00

Até que ponto as palavras traduzem, de forma exata, aquilo que pretendemos dizer? Ou os gestos? Talvez, ninguém se exponha nunca, verdadeiramente, para além da própria pele. Talvez, todas as frases, todos os discursos, resultem sempre banais, fracos e imprecisos se confrontados com o real.

 

Eis aí algumas pistas para entender a pesquisa de Leonardo Moreira, grande vencedor da última edição do Prêmio Shell de Teatro. Diretor e dramaturgo, Moreira comanda a Cia. Hiato, um coletivo teatral interessado em falar precisamente desse intervalo que existe entre aquilo que se diz e aquilo que se apreende, entre o que se pretende falar e o que se enuncia de fato.

 

Na concorrência com veteranos da cena paulistana, esse jovem de 28 anos saiu na frente ao apresentar o espetáculo Escuro. Indicada em cinco categorias, a peça arrebatou três troféus - autor, cenário e figurino. Confirmações daquilo que a crítica já vinha alardeando, ao saudar seu talento como narrador e o apuro da sua partitura cênica. Desde a estreia, Escuro chamou a atenção pela qualidade de sua dramaturgia, pela inovação de linguagem, e também pela maneira pouco convencional de abordar temas complicados. Dislexia, surdez e cegueira eram alguns dos elementos trazidos à cena. Deficiências humanas que não apareciam para reafirmar um discurso de suposta igualdade. Mas para sinalizar nosso despreparo diante de tudo aquilo que nos soa como diferente.

 

Agora, Moreira dedica-se à criação de um novo espetáculo. Para compor Jardim - que deve entrar em cartaz ainda no primeiro semestre -, o autor diz gravitar em torno da temática da memória.

 

Insinuam-se, neste trabalho, universos até então inexplorados em sua dramática, como o do fracasso amoroso. A predileção pelo que escapa à regra, porém, continua a sinalizar o caminho do grupo. Jardim parte de outras duas disfunções para dar conta desse pendor memorialístico. "O Alzheimer nos serve para falar das memórias perdidas e a esquizofrenia, daquelas que são as memórias inventadas", esclarece Moreira.

 

Biografia. Mesmo que não apareça diretamente como matéria-prima para a ficção, a biografia do diretor insinua-se em suas escolhas. Na dramaturgia da nova peça, ele subverte dores pessoais - como a perda do pai e o fim de um relacionamento. Se olharmos em retrospecto, contudo, veremos que a busca por uma voz pessoal já se delineava desde o início. Cachorro Morto é a obra de estreia da Cia.

Hiato. Lá, ele versava sobre a condição de um menino portador da síndrome de Asperger. Como esteio para a encenação, havia alguns livros que abordavam o transtorno psiquiátrico. Mas também a própria história de seu criador. "Não precisava falar sobre incomunicabilidade humana, mas de uma questão que era minha."

 

Sentado em um café, Leonardo Moreira conversou por quase duas horas. Discorreu sobre filmes e livros. Esmiuçou seus procedimentos de composição. Riu das próprias histórias. "Apesar de ser mineiro, eu falo bastante", ele alerta, ao enveredar por um episódio que parece não ter fim.

Nem sempre foi assim. Só disse as primeiras palavras quando tinha 3 ou 4 anos. Também demorou a andar, raramente sorria e preferia manter-se isolado. "Se minha mãe tivesse ido a uma instituição naquela época, certamente eu teria sido diagnosticado como autista", conta. Ela não foi. Ele acabou sendo visto apenas como uma criança introspectiva. "Mas isso ainda determina a forma como leio o mundo. Essa sensação de estar sempre apartado, de não saber nunca a que grupo de pessoas pertenço."

 

Mesmo quando trata de temas tão exaustivamente explorados como a memória, o dramaturgo não teme incorrer em lugares-comuns ou clichês. "A originalidade não é uma questão que me atormente. Tenho medo de entrar num lugar onde fico em busca de um olhar original e não falo do que realmente me move."

 

O menino que cresceu em uma cidade de pouco mais de 10 mil habitantes, no interior de Minas Gerais, nunca tinha visto uma peça de teatro até os 18 anos. Seu plano inicial era estudar cinema, mas, em determinado momento, achou que queria ser ator e mudou de rumo. Mestre em dramaturgia pela USP, diz-se um obcecado por pesquisas de linguagem. Revela, em seus espetáculos, uma preocupação em construir narrativas "hipertextuais". Brinca com deslocamentos de tempo e espaço.

 

Poderia, a um observador mais apressado, parecer um devoto de tudo aquilo que chamamos de desconstrução. Mas mostra-se também o oposto disso quando revela planos de escrever uma novela para a televisão.

 

Nada contra a fragmentação, ele ressalva, mas seu interesse mesmo é pelo velho costume de contar histórias. "Gosto de narrativas, mesmo que elas sejam apresentadas de outro jeito. Podemos nos mostrar muito interessados por uma pesquisa de linguagem. Mas, por mais diferente que seja hoje a nossa forma de apreensão do mundo, o que nos toca mesmo são as histórias", ele diz, como se fosse possível encontrar uma voz nova mesmo bebendo em tradições tão antigas quanto o melodrama. "Não estou me apropriando de velhos formatos, e sim de estruturas que fazem parte da nossa formação. É a partir disso que tento criar um olhar. Mesmo que tudo já tenha sido dito, sei que ainda não foi dito do meu jeito."

 

 

EM JARDIM, AUTOR BUSCA FORMATO ÉPICO

Trancado na sala de ensaio, ao menos cinco horas por dia, Leonardo Moreira prepara o novo espetáculo da Cia. Hiato.

 

Jardim sinaliza um percurso coerente com os trabalhos anteriores do grupo: Cachorro Morto e Escuro. Lá, também aparecem em relevo lógicas diferentes do convencional.

 

Questões como esquizofrenia e Mal de Alzheimer são levadas ao palco, mas estão a serviço de uma temática maior: a memória.

 

A peça deve se passar em três épocas distintas: 1938, 1979 e 2001. Cada um desses núcleos dramáticos não serão apresentados em uma ordem linear. Mas, ainda sim, existe a intenção de que a montagem possua uma estrutura épica.

 

A partir das biografias dos atores e de histórias recolhidas em asilos e instituições, a peça tenta dar conta da trajetória de uma família durante 70 anos.

 

 

TRABALHOS ANTERIORES

Escuro

No último dia 15, a peça conquistou três troféus do Prêmio Shell - autor, figurino e cenário. O espetáculo, que se passa na década de 1950, leva dez atores ao palco para explorar as limitações de portadores de vários tipos de deficiência, como surdez, cegueira e dislexia.

 

Cachorro Morto

Montagem de estreia da Companhia Hiato, Cachorro Morto partia da história de um menino portador da síndrome de Asperger, uma forma de autismo. Na peça, cinco atores se revezavam no papel do protagonista e tentavam mostrar sua sensibilidade e ressaltar sua forma particular de ver  o mundo.

 

 

REPERTÓRIO CIA. HIATO

CCSP. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3397-4002. 6ª e sáb., às 21 h; dom., às 20 h. R$20 (dia 25, R$ 2,55). Até 24/4.

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