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Gilles Lapouge
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Memória do nosso tempo

O prêmio Nobel de literatura foi atribuído ao escritor francês Patrick Modiano. Durante toda a quarta-feira, circulara o boato a este respeito, em Saint Germain des Près, na sua editora, a Gallimard, mas os especialistas estavam céticos. Segundo eles, havia três razões para que Modiano não fosse contemplado.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2014 | 02h06

A primeira é que outro francês, Le Clézio, já havia sido galardoado há seis anos. A segunda é que os acadêmicos suecos gostam de premiar obras de tendência universalista, se possível um pouco "terceiro-mundistas" e, em todo caso, engajadas nos sofrimentos da época, enquanto os romances de Modiano são autenticamente franceses - piores ainda que franceses, são parisienses.

A terceira razão é que os livros de Modiano não cobrem um campo imenso. São monótonos. Sempre Paris e o período da ocupação nazista da França. Sempre o mesmo estilo. Às vezes, tem-se a impressão de que cada um dos seus romances é uma frase de um longo poema lancinante.

Tudo isto é certo. Simplesmente, há também uma outra característica da obra de Modiano que os jurados de Estocolmo identificaram: seus romances são admiráveis. Evidentemente, não se trata de um William Faulkner, ou de Pablo Neruda ou Alexandre Soljenitsyn, Naipaul ou Mario Vargas Llosa, ou mesmo Hemingway, e muito menos Jean-Paul Sartre. E, no entanto, ele é um escritor puro, soberbo.

Curiosamente, seu último livro foi lançado há oito dias. E não foge à regra: um homem, um escritor, muito solitário, é despertado pela campainha do telefone. Uma voz "sem energia e ameaçadora". Esta voz encontrou uma caderneta preta que pertence ao escritor e, na caderneta, havia o nome de uma mulher que a "voz sem energia e ameaçadora" conheceu e perdeu.

O mecanismo mental de Modiano se põe em movimento: uma memória ao mesmo tempo hesita e flui: erros, iluminações, impasses, escuridão. E este perambular no passado nos leva a um imenso casarão onde, ainda na sua infância, o narrador foi abandonado pelos pais.

Ao seu redor bandidos, proxenetas, militantes de um partido banido etc. etc. A narrativa prossegue, repercorrendo a memória, com pedaços de lembranças, bifurcações, abismos, falhas - sim, o novo romance de Modiano é 200% Modiano. O título do livro é Para que Você Não se Perca no Bairro, também poderia servir de epígrafe para toda a obra do autor, principalmente se o associarmos às duas primeiras palavras do romance: "Nada mais que", que iremos reencontrar 135 páginas mais adiante. "No começo, nada mais que os pneus raspando no cascalho, um ruído de motor que se afasta, e você precisa de algum tempo ainda para se dar conta de que só ficou você na casa".

Por que todas as palavras, todas as dores e os pensamentos de Modiano, livro após livro, são atraídos como por uma força magnética, como por um ímã, para estes anos da Ocupação nazista da França? Esta obsessão é tanto mais insólita porquanto Modiano não conheceu este período, porque ele nasceu em 1945. Pois é. Mas é justamente por isso! Justamente: a infância de Modiano foi algo tão perturbador que ainda hoje, depois de 69 anos, este homem se debruça sobre o que antecedeu seu nascimento, como nos debruçamos sobre um precipício infinito, sobre esses anos da ocupação que ele não vivenciou, mas dos quais ele é fruto. "Muitos amigos que não conheci", escreveu um dia, "desapareceram em 1945, o ano do meu nascimento". E também: "Tenho sempre a impressão de ser uma planta nascida do estrume da ocupação".

Quero esclarecer aqui que Modiano não psicanalisa Modiano. Ele funciona como um escritor dublê de "policial" que remonta a todas as pistas para descobrir não o culpado, mas o segredo, o segredo inatingível, o segredo para sempre proibido, porque mesmo que se arranquem algumas máscaras sob as quais o real se dissimula, outras se recompõem, e a noite se torna mais densa à medida que procuramos iluminá-la.

Do labirinto desta infância, Modiano nos apresenta, em seus romances, em suas entrevistas, trechos entrelaçados, momentos brancos ou cinzentos, momentos naufragados, e nós podemos reconstituí-la, como um quebra-cabeça desarrumado, uma infância digna dos romances mais sombrios de Dickens.

Não posso entrar em todos os detalhes. Mas é durante a ocupação que seus pais se encontram. A mãe? "Uma flamenga, uma artista, uma bela jovem de coração seco", afirma, e sobretudo o pai. Então, o pai é qualquer um! Um enorme enigma. Um judeu, que camufla sua origem por causa dos alemães e que, aliás, durante a guerra faz negócios escusos -- terá sido um colaboracionista ? - frequenta ambientes suspeitos, a máfia mesmo, nos quais o dinheiro fácil e a miséria se misturam.

Portanto, uma infância abandonada, ignorada, negada, uma criança que passa de braços em braços, de ausência em ausência, de pensão em pensão. Mas Patrick Modiano tinha um companheiro, seu irmãozinho, dois anos mais novo, Rudy, que morrerá dez anos mais tarde deixando o jovem Patrick saturado de solidão.

Há um ano, a editora Gallimard reuniu em um único volume, na prestigiosa coleção In Quarto, dez romances de Modiano. Poucos escritores receberam tamanha honra em vida. Modiano foi ouvido pelos jornalistas a este respeito. Ele estava feliz, mas pouco à vontade, em pânico quase. E não apenas por modéstia, mas principalmente porque ele se perguntava quem era este sujeito cujas obras foram reunidas naquela publicação. Falando do caderno de fotos que aparece em In Quarto, ele diz que teria preferido que fosse usada apenas uma série de fotos misturadas, recortadas, bem ou mal relacionadas entre si.

Os jornalistas gostam muito de Modiano, de sua cortesia, sua gentileza, sua simplicidade. Mas, durante muito tempo, não ousaram fazê-lo falar. O apresentador de TV Bernard Pivot, em seu famoso programa Apostrophes, ousou interrogá-lo. E o que se viu foi um homem quase apavorado, sua voz "bela e rouca", mas balbuciante, uma voz perdida, uma voz extraviada em suas palavras e em sua língua, seus silêncios, uma voz fragmentada. E magnífica.

Como epígrafe de um dos seus romances, Villa Triste (1975), Modiano escreveu a frase de Dylan Thomas: "Quem é você, você, observador de sombras?" / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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