Memória de um frustrado futuro

O padre Francisco João de Azevedo, inventor da máquina taquigráfica, é tema da nova obra de Miguel Sanches Neto

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA É PROFESSOR DE LITERATURA COMPARADA DA UERJ, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2012 | 02h08

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

O último romance de Miguel Sanches Neto desenvolve com êxito um registro que não é dominante em sua obra. Ora, tanto nos contos quanto em seus romances mais conhecidos o autor aprimora um exercício memorialístico de grande interesse, equilibrando o traço autobiográfico da prosa do escritor com a vocação ensaística do crítico e professor de literatura. Por exemplo, no conto Então Você Quer Ser Escritor?, ele realiza perfeitamente essa oscilação produtiva entre duas vocações. Em A Máquina de Madeira, porém, a dicção memorialística naturalmente se encontra constrangida pelo gênero do romance histórico.

A narrativa trata da vida e sobretudo de uma invenção do padre Francisco João de Azevedo (1814-1880). Nascido em João Pessoa, formado no Recife, ele se dedicou a uma série de inventos, com destaque para uma revolucionária máquina taquigráfica. O romance principia em 1861, ano em que o padre chega ao Rio de Janeiro, a fim de apresentar seu engenho na Exposição Nacional:

"Quem olhasse as mãos de Francisco João de Azevedo segurando a amurada do navio veria as mãos de um operário. Não que fossem grandes, eram no tamanho um tanto femininas, mas tinham a rudeza própria de quem se dedicava a ofícios manuais. (...) Mas ele não tinha vergonha do aspecto delas, no fundo sentia orgulho, pois lembravam seu passado de órfão afeito ao trabalho".

Eloquentes como as mãos descomunais de um Paulo Honório ou as dos homens dos quadros de Portinari, as mãos do padre traziam na pele a inscrição da orfandade - autêntico símbolo da circunstância provinciana. Personagem eternamente deslocado, suas mãos se transformam em inesperada metonímia das contradições que o definem.

Logo na segunda página do romance, o vínculo entre os dois termos é esclarecido no entusiasmo dos que desembarcavam, "revelando a euforia própria de quem chega à Corte depois de ter deixado para trás a província e sonha viver grandes acontecimentos". Em A Máquina de Madeira, de fato, o autor elabora uma sutil analogia entre a orfandade do padre inventor, sua condição provinciana e o próprio lugar do Império brasileiro no concerto das nações oitocentistas - expressão cara ao utópico projeto de uma Weltliteratur. Ainda no primeiro capítulo o círculo se fecha, no passeio do protagonista na incontornável rua do Ouvidor:

"Era a civilização, reduzida às suas novidades, um outro império, o da moda. Só o que vinha de fora existia (...), principalmente as mulheres francesas nas lojas e nos hotéis de artistas, porque urgia viver em Paris."

Com esses elementos, arma-se a equação decisiva: as províncias estão para a Corte, assim como a Corte de Dom Pedro II está para as nações europeias! Portanto, o escritor ou inventor brasileiro é órfão do reconhecimento pleno de suas descobertas, pois dificilmente ele superará a condição provinciana - periférica, não hegemônica, em vocabulário contemporâneo.

O invento do padre é considerado ocioso pelos poucos que se dignam a examiná-lo, e simplesmente é menosprezado pela maioria. A máquina de madeira foi premiada em 1861, mas, no ano seguinte, não foi levada à Exposição Internacional, ocorrida em Londres, porque "alegando falta de espaço, a comissão não a escolheu". O Império buscava projetar a imagem do Brasil como o celeiro potencial do mundo. Nesse contexto, qual a "utilidade" de uma máquina de escrita?

Na segunda parte do romance, outra viagem frustrada, dessa vez a Nova York, sela o destino do padre: um astuto homem de negócios, Yost, conhece o invento, compreendendo imediatamente sua importância. Ele seduz o padre com a possibilidade de comercializar sua invenção nos Estados Unidos, obtendo um "plano de construção da máquina". Naturalmente, de posse dos papéis, desaparece. Contudo, "cinco anos depois alguém trouxe um jornal sobre o grupo que criou a Remington n.º 1". Claro: o nome de Yost se encontrava entre eles...

A estrutura do romance é muito bem pensada, pois "Londres" e "Nova York" anunciam as duas grandes perdas do inventor brasileiro: no primeiro caso, ele não pôde tornar sua criação visível; no segundo, por isso mesmo, seu engenho foi apropriado por um esperto comerciante estrangeiro. Eis a perversa consequência "lógica" do desinteresse que o padre enfrentou em seu país. Miguel Sanches Neto também lança mão de vários registros discursivos para ambientar a narrativa. Desse modo, transmite informação histórica sem comprometer a densidade da prosa, que incorpora versos e textos célebres como se lançasse pistas aqui e ali para a reinvenção do leitor.

Ao tratar das desventuras do padre, o autor discute a condição do escritor brasileiro, pois não é verdade que a "universalidade" deste ou daquele autor depende mais do idioma no qual escreve do que da qualidade intrínseca de sua obra?

Romance histórico, sim; porém, bem temperado por um impulso memorialístico.

Ainda que sejam as memórias póstumas de um futuro que não se materializou.

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