"Memória da Água" vale pela direção

Os funerais são, desde os antigos gregos, um momento patético privilegiado pelo teatro. Diante da morte se revelam, quase naturalmente, as fragilidades, os temores e as esperanças dos vivos. Reunir três mulheres sob a imperiosa necessidade de sepultar a mãe é, assim, meio caminho andado do ponto de vista da organização dramática. É o que faz a autora inglesa Shelagh Stephenson na sua peça A Memória da Água. Estão em cena três irmãs que deixaram para trás a juventude e que deveriam, de acordo com o senso comum, ter suas vidas assentadas no patamar tranqüilo da maturidade. Uma vez que o sossego não cabe ao vivos, o subtema da criação dessa dramaturgia inglesa é a instabilidade da psique. O tempo passado é tão instável quanto o tempo presente. A consciência adulta é também impotente para esclarecer as experiências da infância e da adolescência. Cada uma das irmãs tem um selo fatal na personalidade forjado no passado e o que realmente aconteceu é relembrado com a distorção que o significado emotivo imprime aos fatos. Sob o filtro dos sentimentos, a própria realidade se deforma, mudam as narrativas, e o que aconteceu não poderá ser definido como verdadeiro ou falso. Se abandonasse as personagens ao fluxo variável da vida psíquica, liberando-as para construir e destruir paisagens mnemônicas, a peça se inscreveria na linha dos experimentos dramatúrgicos mais interessantes da dramaturgia inglesa. Autores como Harold Pinter e Tom Stoppard criaram obras-primas do teatro mundial aniquilando a potência dramática dos acontecimentos exteriores. No entanto, a tentação do melodrama, ao que parece, é ainda muito forte para dramaturgos contemporâneos. Ao tema da realidade deformada ou recriada pela subjetividade sobrepõe-se, nessa peça, o arsenal do velho teatro impulsionando a história em direção ao fim por meio de seqüências temporais, de um desgastado padrão de causa e efeito e da exacerbação dos atritos para que ganhem, atravém da intensidade e da crueza do vocabulário, a dimensão aparente de conflito. Para espectadores que não consideram o folhetim televisivo um prazer é difícil perdoar, no teatro, uma caixinha contendo o segredo que só será revelado nas cenas derradeiras, o telefone que nos dá a notícia que já esperávamos, a cena em que uma personagem, sob o efeito do álcool, desvenda seu "eu verdadeiro" e os podres alheios. São truques baratos, salpicados sobre a trama com cálculo matemático, interrompendo e atrapalhando o vôo livre das lembranças. O curioso é que dessa narrativa de estrutura banal tenha resultado um espetáculo tão bonito. É verdade que já nos acostumamos a um tipo de teatro em que o encenador assume o papel do autor, mas ainda é raro o espetáculo que consegue superar o dramaturgo, ou seja, administra tão bem o texto que só aproveita as partes boas. É o caso da direção de Felipe Hirsch para a pecinha inglesa. No espetáculo, os incidentes melodramáticos são resfriados, atenuando-se a emotividade falsa do texto. O espaço cênico surge de início sob uma névoa e esse recurso visual é a metáfora da concepção do diretor. As irmãs falam e se movem durante todo o tempo como se estivessem expressando o subconsciente, em um ritmo meio lento do que o da vida "real". Atribuem às palavras uma entonação ligeiramente sonhadora, adequada mais ao monólogo interior do que ao discurso coloquial.Hirsch faz, na verdade, uma inteligente inversão: transforma as informações que as personagens dão umas às outras em uma superfície enganosa. Há uma tonalidade musical que torna dúbia a veracidade do que é dito e que harmoniza os discursos das mulheres em uma única linha melódica. O melhor do espetáculo é a impressão de música que transmite, de sussurros ecoando na noite. Tem a leveza do universo feminino, onde as grandes mágoas surgem das coisas pequenas. Bem ao contrário da trama da peça, aliás, que amarra os ressentimentos a nós dramáticos e que não deixa de insinuar um final moralizante. São também responsáveis pelo bom resultado Andréa Beltrão, Ana Beatriz Nogueira e Eliana Giardini, boas e disciplinadas atrizes que desempenham os papéis das irmãs. Respeitam o "resfriamento" das emoções e, nos momentos em que o dramalhão é inevitável, mantêm-se afastadas do exagero. Pouco se exige das outras personagens, mas nas participações secundárias de Clarice Niskier, Marcelo Valle e Isio Ghelman há a virtude da discrição. É uma turma que mereceria uma peça melhor.A Memória da Água - Teatro Alfa: Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722. Tel: 5693-4000. Sexta e sábado, às 21h; domingo, às 18h. De R$ 20 a R$ 40. Até domingo.

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