Pixabay/Fotorech
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Melpômene, ou... ai que delícia sofrer

Parece que sofrem, genuinamente, mas não existe refrigério ou pausa

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2021 | 23h30

Você conhece a figura em questão: sempre está mal. Não importa a estação do ano ou o momento econômico: ela passa de uma dor a outra. Quase sempre existe uma morte em família. Aqui, surge uma crise afetiva; ali, um drama médico e, acolá, uma figura próxima lutando com um contratempo. Trata-se de alguém que pula de dor em dor, rega o solo com suas lágrimas e aumenta as nuvens com seus gemidos.

Todo ser humano conhece contratempos. Não existe vida incólume, claro. O carioca Francisco Otaviano imortalizou os versos conhecidos: “Quem passou pela vida em branca nuvem, E em plácido repouso adormeceu; Quem não sentiu o frio da desgraça, Quem passou pela vida e não sofreu, Foi espectro de homem, não foi homem, Só passou pela vida, não viveu”.

Sim, todos conheceram a dor, a revolta, o sofrimento e até o desespero. O trem da amargura já nos pegou em alguma estação biográfica, porém, a querida leitora e o estimadíssimo leitor sabe: tem gente que vai como maquinista fixo no comboio dos lamentos e das desgraças. Vou chamar a este ser de Melpômene, a musa grega da tragédia. Aprendi o nome na adolescência, lendo o Tempo e o Vento, de Erico Verissimo. O germânico e excêntrico dr. Winter chama a uma personagem da saga por este apelido. A figura evocava-lhe a divina filha de Zeus que vive para o drama trágico, elevada e tomada de mortes. 

Sabemos que um dos males contemporâneos é a chamada “positividade tóxica”, a necessidade de sempre estar bem e brilhando em fotos de redes sociais. É algo terrível e artificial, fruto de filtros e de um mercado que exige felicidade permanente. Em oposição, quase na contramão, abundam as Melpômenes. Você liga e o tom é sombrio, quando não lacrimoso. Acabou de ocorrer algo e a musa lhe narra por horas. Mal passa um luto e emerge um câncer; desaparece uma crise financeira e brota um adultério; afunda uma colina trágica e desponta um novo outeiro de dor. O mundo é um árido deserto sem oásis, males contínuos, desafios ingentes e derrotas inevitáveis. 

Você conhece alguém assim? Possuiriam um prazer secreto e vicioso em ser o permanente espelho da condição trágica da humanidade? Você se sente constrangido em narrar algo bom, porque há um torvelinho de lamúrias. Seria uma defesa ou uma maneira de chamar a atenção? Parece que sofrem, genuinamente, mas não existe refrigério ou pausa. Você tem dias de Tália, a entidade que preside a comédia. Sua amiga está no colo de Melpômene e desconhece tais liberalidades. Sua coroa é de cipreste, a árvore dos mortos e dos cemitérios. Como é musa, e musa trágica, canta sem cessar a dor perene do existir. 

Há alguns dias, ouvindo uma amiga dessa estirpe, imaginei que era uma gramática específica. Não se tratava de um conteúdo de dor, todavia de uma expressão dolorosa. Ou seja, a tragédia era celebrada por ser superior, mais digna, cheia de atenção e temas que promoveriam como queria Aristóteles, a catarse do público. Em outras palavras, seriam pessoas que encontram sentido na chaga que sangra, na lágrima que cai e no suspiro que punge. Talvez fosse, pensei eu, uma forma estranha de felicidade, algo feito para comover os passantes que contemplariam aquele Prometeu atado à montanha e sofrendo com o ataque diário da ave medonha ao seu fígado. O ímã poderoso do sofrimento teria potencial cênico. Cênico sim, não cínico. Sofrem! É genuíno! Não fingem, apenas viciaram no deleite da hemorragia aberta. Não são masoquistas, seriam, tão somente... Melpômenes e Melpômanos. 

A dor comove. A felicidade é mais complexa. Assim, se cada musa trágica sente que algo vai bem, busca as dores próximas para incorporar as suas. Sabemos, diletíssima leitora e honorável leitor, que a felicidade liberta e a dor comove. Entre a liberdade do sorriso e o peso enorme da angústia, nossa entidade opta pelo que houver de mais apelativo. Sente prazer e vicia. O mundo oferece problemas constantes: comigo, na minha família, no Brasil ou em Bangladesh. Não faltam motivos para quem anela pelo suplício. 

Confesso: já errei muito. Melpômene narra um problema e eu, ingênuo, ofereço muitas soluções. Ela se irrita! Não deseja soluções! Que falta de respeito com a dor alheia. Apenas ouça, recolhido e solidário, o rosário de mazelas. Não resolva nada! Não busque saídas! Apenas ouça e, de quando em vez, repita: “você é a pessoa que mais sofre no mundo”. Pronto! Ela sorri, aliviada. Recebeu seu aplauso e o mundo gostou da narrativa. Vai respirar fundo e, logo em seguida, barrar uma dor ainda mais medonha do que a anterior. Sofrer é uma delícia! Ser feliz? Um desafio grande e que obriga a pensar. E se Jasão dissesse para Medeia que ficaria com ela para sempre? Talvez ela se irritasse ainda mais, pois não poderia brilhar com sua feitiçaria. E se lhe desse a chave dos grilhões para o já citado Prometeu? O Titã arrogante ficaria mudo, enfim? E se Édipo fizesse psicanálise e deixasse Jocasta em paz? Tantas hipóteses desafiadoras para os trágicos. Ser feliz é uma escolha desafiadora. Boa semana para Tálias e Melpômenes! Ambas sorriem, só que uma tem vergonha da alegria.

É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

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