Melodrama e tragédia em Almodóvar

A Pele Que Habito, novo filme de Almodóvar, é uma boa vitrine de suas habituais estereotipias, responsáveis pela criação de um mundo ficcional marcado pelo excesso, pelo exagero, pelo kitsch melodramático onde circulam personagens a um passo da caricatura.

O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2011 | 03h07

Nessa salada de desgraças temperada com mão pesada, Almodóvar nos mostra filhos que ignoram a identidade de seus verdadeiros pais, mortíferas rivalidades fraternas, traições, suicídios, mutilações por queimaduras extensas, tudo isso emoldurando seu habitual prato de resistência - um caso de mudança de sexo. Mas há uma considerável novidade. Desta vez a mudança de sexo não é uma transformação desejada conscientemente pelo personagem e obtida após a superação de grandes dificuldades. Aqui ela ocorre como uma violência que lhe é imposta contra sua vontade, uma vingança contra sua masculinidade. Esta vingança tem outras intrigantes conotações tanto para o agressor como para a vítima, mas não vou abordá-las para não expor completamente o enredo, comprometendo o prazer de quem não viu ainda o filme.

O que nos prende a uma trama como esta, cheia de reviravoltas rocambolescas, que não se preocupa com a verossimilhança e que beira o ridículo? O que é que nos faz ficar entre a crítica zombeteira e a fascinação frente aos inacreditáveis transbordamentos afetivos que nos são apresentados? Será que por se afastar tanto da realidade externa, a trama se revela como uma fantasia bruta que emerge como que diretamente dos desejos mais reprimidos e secretos guardados no inconsciente? Poderia ser uma versão não burilada do que Freud chama de "romance familiar" a forma como a mente infantil ficcionaliza o mistério do amor entre os pais, os ciúmes entre os irmãos, o magno enigma das diferenças anatômicas sexuais, a bissexualidade e a castração?

Vistos sob esse prisma, os temas de A Pele Que Habito são atemporais e de longa data aparecem no imaginário coletivo. Haja vista, por exemplo, a castração do sedutor como punição aplicada pelo pai que lava a honra da filha deflorada. Mas nos tempos atuais eles adquirem formas distintas.

Uma das características da contemporaneidade é a diferente moralidade frente à sexualidade. Essa radical mudança decorre dos movimentos de liberação feminista e gay. Nessa luta, ambas as facções tiveram o inesperado e inestimável auxílio dos avanços da tecnociência, que estabeleceram métodos anticoncepcionais seguros e possibilitaram profundas intervenções no corpo. A pílula libertou a sexualidade da mulher, até então delimitada pela maternidade. A tecnologia alterou as modalidades da reprodução humana (inseminação artificial, fecundação in vitro, implantação do ovo em barrigas de aluguel, etc.) a ponto de, estritamente falando, prescindir da forma convencional configurada pela junção de dois seres de sexos opostos. Além disso, os avanços da medicina, através da manipulação hormonal e de novos procedimentos cirúrgicos, produziram alterações radicais no corpo, tornando viável até mesmo a mudança de sexo.

Acompanhando essas transformações, os costumes passaram a aceitar novas formas de relacionamentos, como as famílias reconstituídas após o divórcio, a união estável protegida pela lei entre casais heterossexuais e a união civil homoafetiva, que abriu espaço para que pares homossexuais postulassem uma nova forma de parentalidade, através da adoção de filhos ou da concepção por meio dos recursos tecnológicos, quando o gameta de um dos interessados é fecundado in vitro e implantado posteriormente num útero de aluguel ou de um dos cônjuges, no caso de um casal de lésbicas.

Essas novas parentalidades, essas diferentes configurações familiares, essas inquietantes possibilidades de manipulação do corpo, levando aos extremos da mudança da identidade de gênero, estão no centro do universo mostrado nas obras de Almodóvar.

Em sendo assim, aquilo que à primeira vista nos provoca estranhamento e nos parece inverossímil em seus filmes não decorreria tanto do excesso melodramático e sim algo próprio deste novo e desconhecido mundo do qual Almodóvar é um dos primeiros cartógrafos.

De fato, se observamos com atenção, verificamos como é psicologicamente correta a construção de seus personagens e das situações-limite por eles vividas, produto de famílias extremamente disfuncionais que eles são. Em A Pele Que Habito, por exemplo, pode-se rastrear a sucessão de eventos desastrosos a um casal que não assume a esterilidade de um dos cônjuges, o que leva - por um lado - à produção de filhos ilegítimos que ignoram suas origens e, por outro, a uma mulher que não pode assumir plenamente a maternidade, mantendo com os filhos uma relação simultaneamente falsa e parcial, alimentando a rivalidade entre eles. Ambos apresentam falhas identitárias e, cada um à sua maneira, desenvolvem condutas delinquenciais. Um deles se mostra impossibilitado de exercer a contento a paternidade e de elaborar seus lutos, mantendo uma atitude megalomaníaca de negação da morte e de outras limitações humanas.

Reformulando então a questão posta inicialmente, poderíamos dizer que a estranheza dos filmes de Almodóvar reflete aspectos da contemporaneidade que ainda nos parecem obscuros e pouco familiares, mas reais e dignos de observação. E, quem sabe, a roupagem melodramática com a qual os apresenta seja um recurso para torná-los mais palatáveis para o grande público, disfarçando a insuportável dimensão trágica neles implícita.

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