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Melodrama atropela magia na estreia de Saramandaia

Romance se sobrepôs ao surrealismo no primeiro capítulo do folhetim; versão de Ricardo Linhares valoriza tecnologia na obra de Dias Gomes

CRISTINA PADIGLIONE, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2013 | 02h20

De Saramandaia, esperamos ansiosamente pelas formigas expelidas pelo nariz do Zico Rosado, pelo coração que sai da boca de Cazuza, pela transformação de Aristóbulo em lobisomem, pelas asas quase escondidas de João Gibão e, claro, pela terra a tremer quando Dona Redonda passa. Tudo isso veio à tona com louvor no primeiro capítulo da nova Saramandaia. Mas os comezinhos de folhetim, como a mocinha rebelde que declara seu amor ao herói caxias, todo certinho, ou a paixão que remói o passado do vilão, ou ainda o filho sensitivo que sofre nos braços da mãe, nada disso estava nas contas da expectativa da plateia que aguardava pela releitura de Dias Gomes.

O romance é necessário ao recheio de uma trama que envolve tanta gente fora da casinha? Pode até ser. Mas de certo não merece o peso de protagonismo em meio a um universo tão fantástico, como nos fez crer o primeiro capítulo de Saramandaia: o melodrama ocupou mais espaço que o realismo mágico.

Leandra Leal se reveza entre a líder de passeata e a mocinha apaixonada pelo prefeito, vivido por Fernando Belo, que não quer "tomar partido". Nesses dias em que jovem sai às ruas para protestar por qualquer coisa e bandeiras de partidos são expulsas das manifestações, impossível dar de cara com acaso mais feliz - e digo acaso porque as cenas vistas na segunda-feira foram escritas em outubro do ano passado, bem antes que a onda atual de protestos da vida real tomasse rumo - ou falta de.

Primeira obra a recorrer ao realismo fantástico na história da telenovela brasileira, Saramandaia faz agora bom proveito de recursos tecnológicos que nem a animação dos futuristas Jetsons previa em 1976. Que me perdoem os saudosistas, mas a confecção artesanal das formigas de Gonzaga Blota, o primeiro Zico Rosado, ou mesmo do coração do Cazuza vivido por Rafael de Carvalho na versão original, ainda que remetam a uma leitura romântica, certamente fariam uso dos métodos high-tech agora adotados pelas formigas da era do HD, se assim pudessem.

Da mesma forma, a maquiagem grita seu progresso na pele de Vera Holtz, só reconhecível pela voz e seu inconfundível acento de Tatuí.

O glossário de Dias Gomes, que em 76 já era consagrado pelos discursos de Odorico Paraguaçu, o prefeito de Sucupira - O Bem Amado foi ao ar três anos antes - é não só respeitado na nova Bole Bole, como ampliado e "juramentado" por todos os seus personagens. Termos como "merecedência", "cervejação", "de repentemente", "hipocrisismo" e outros entes são esbanjados como canção bem-vinda a quem se permite o prazer de ser abduzido pela passividade que só a televisão provoca. Salve o entretenimento.

A audiência respondeu com 27 pontos de média no Ibope da Grande São Paulo, o que representa 2 pontos a menos que a estreia de Gabriela e 1 abaixo de O Astro, primeira produção dessa linha de remakes "livremente inspirados" na obra original, com cerca de 60 capítulos.

Nas contas da Globo, no entanto, o que vale é ressaltar que o horário vinha registrando média de 25 pontos nas quatro segundas-feiras anteriores. Também considera o efeito Avenida Brasil, novela que antecedeu a estreia de Gabriela e que entregava ibope mais alto do que o herdado de Amor à Vida.

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