Melodias inventivas são a marca do sambista

Na ativa há mais de 50 anos, Elton é venerado por gerações de músicos

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2010 | 00h00

O primeiro samba foi composto aos 8 anos, com um dos nove irmãos, Aquiles. Era para um bloco carnavalesco infantil. Na época, a família de classe média baixa (o pai era funcionário civil da Marinha) havia se mudado da Glória, zona sul do Rio, para o subúrbio de Brás de Pina. Infância e adolescência de Elton Medeiros foram marcadas pelas tardes dançantes que a mãe promovia em casa, em que a prole ouvia música e bailava, e a participação num dos corais supervisionados por Villa-Lobos, em sua escola. Ele era também frequentador de concertos da Orquestra Sinfônica Brasileira. Em 2008, em Depoimento para a Posteridade ao Museu da Imagem e do Som, reconheceria que essa bagagem o ajudou, adulto, a desenhar suas melodias - cuja beleza se dá pela imprevisibilidade e ousadia.

É por elas que Elton é venerado. "Se tivesse de escolher um só, entre o melodista e o letrista, ficaria com o primeiro", opina o pesquisador musical Sérgio Cabral. "Elton pertence a uma casta de nobreza da nossa música, que é a dos grandes melodistas. Cito Ary Barroso, Custódio Mesquita, Valzinho, e todos os três eram instrumentistas. Ele tocou trombone de pisto, é um mestre na percussão, e tem uma enorme cultura sobre a música popular. O letrista vem nessa onda de diversos talentos que ele carrega", diz o parceiro Hermínio Bello de Carvalho - juntos, eles fizeram, entre outros sambas, Pressentimento, Samba do Amor (com Paulinho) e Perfeito Amor.

Este último é do repertório de Samba na Madrugada, disco que Elton e Paulinho da Viola lançaram em 1968 - hoje no catálogo da gravadora Biscoito Fino - e que trazia sucessos como O Sol Nascerá, Mascarada e, de Paulinho, 14 Anos. "Gravamos uma face do LP numa única noite", relembra Elton.

Paulinho desconfia das datas. "Eu sou péssimo com data. Eu estou até evitando dar entrevista, porque já falei algumas bobagens. Minha memória é musical. Esse cara uma vez cantou um samba pra mim comendo um pastel na Praça Tiradentes, eu guardei e depois gravei. Era Fotos e Fatos (com Otávio de Morais), que não é fácil."

A última parceria dos dois, eles arriscam dizer, foi Bem Que Mereci, samba-título do último CD de inéditas de Elton, que saiu em 2005 pela Biscoito Fino.

De Elton para Paulinho

"A gente logo vê quem leva jeito (para música) e quem não leva."

"Paulinho não fazia letra pra melodia de ninguém, só comigo."

"Você também tem ideia de sambas na hora de ir dormir? Comigo acontece muito. Quando você vai arrumar um bloquinho, ela já fugiu."

"O gostoso de compor é você pensar junto com o parceiro. Com Cartola, eu fazia letra e música junto. Com Paulinho, é de qualquer jeito. A gente se conhece, é uma questão de identidade. A bola vem, a gente chuta. Eu passo muito tempo sem ver o Paulinho, e, quando vejo, a coisa surge. Isso o tempo mantém."

"Eu ando muito preguiçoso pra compor."

De Paulinho para Elton

"Se eu ouvir um samba do Elton pela primeira vez, vou apanhar pra aprender a melodia, a harmonia. É rebuscado, não é o lugar comum que você encontra muito dentro do samba. O que não quer dizer que um previsível não possa ser um grande samba."

"Compor com Elton é complicado. Ele começa uma melodia, você vai acompanhando, e, de repente, ele volta por outro lado."

"A acolhida no Zicartola foi muito afetuosa. Os mais experientes, Elton, Cartola, Zé Keti e o Hermínio também, meu primeiro parceiro, me incentivaram muito a compor. Eu estava engatinhando, não aspirava isso. Gostava era de cantar e tocar as músicas dos outros."

"Eu também ando muito preguiçoso."

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