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Melodias de Rousseau

A filosofia saía de sua escrita aos borbotões, embora na cachola só pensasse na linguagem das notas musicais

João Wady Cury, O Estado de S. Paulo

29 de julho de 2021 | 03h00

Há a vida e o brilho, mas há também a perturbação que move, transe que chacoalha o vivente e suas ideias. Esta última certamente foi a que acaçapou o jovem Jean-Jacques de seus sonhos musicais, como compositor, antes de se tornar Rousseau, o filósofo de Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade Entre os Homens e do Emílio. Não era para menos. O genebrino alimentou o desejo e preparou-se durante todo o início de vida para ser músico, alguém que viveria da arte. 

Deu no que deu. A filosofia saía de sua escrita aos borbotões, embora na cachola só pensasse na linguagem das notas musicais — entre suas obras estão As Musas Galantes e O Adivinho da Aldeia. Mas a prova está na estante. Ou no site. Seu Dicionário de Música acaba de ser lançado pela Editora Unesp. O conteúdo da obra é parcial e resume mais de dez anos de trabalho de Fabio Stieltjes Yasoshima, responsável por sua tradução, notas e seleção (bit.ly/3ycpPBM), a partir de sua dissertação de mestrado de 2012.

 

BEABÁ DO DÓ-RE-MI 

Esses iluministas eram impagáveis. Não davam ponto sem nó. O Dicionário de Rousseau nasceu de um acaso. D’Alembert e Diderot, filósofos e pais da Enciclopédia, ficaram sem o responsável por redigir os verbetes na área de música, Rameau, de quebra considerado o maior teórico musical da época e crítico ferrenho do compositor Jean-Jacques. A dupla recorreu a Rousseau, amigo, de conhecida sapiência musical. O resultado foi um massacre. Apesar de reclamar de ter muito trabalho, o filósofo escreveu mais de 400 verbetes sobre o tema para a Enciclopédia (volume 5 da edição brasileira), dos quais 383 assinados, 43 não assinados. Assim nasce o conteúdo para seu dicionário. A seleção feita por Yasoshima ficou com 33 verbetes em 196 páginas. É pouco diante do original feito para a Enciclopédia e, depois, na edição do Dicionário, nas Obras Completas, editora Gallimard. Aqui, na versão francesa, fac-símile do original (bit.ly/375afMt).

O que Rousseau tinha de filósofo não se negou a embutir nos verbetes. Revelou-se um ótimo enciclopedista. Não à toa, intelectuais, ainda que tardiamente, trataram o melômano Rousseau com respeito, praticamente uma descoberta pública no século 20. São exemplos, por aqui, Bento Prado Jr. e Franklin de Matos, e, na França, Derrida e Lévi-Strauss Rousseau, fundador das ciências do homem, em Antropologia Estrutural Dois).

Jean-Jacques, agora já um Rousseau de respeito, escreveu polpudas definições nos verbetes de seu dicionário. Algumas delas, ainda por cima, meigas e cândidas, se é que me entendem. Tome-se como exemplo a primeira frase de sua definição de música: “Arte de combinar os sons de uma maneira agradável ao ouvido”. Nada mais límpido. E segue discorrendo por quase 20 páginas sobre o assunto como uma partitura das boas.

 

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É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DO INFANTIL ‘ZIIIM’ E DE ‘ENQUANTO ELES CHORAM, EU VENDO LENÇOS’

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