Melhores do ano

Mais uma vez os livros de ensaio, crítica e história dominam a lista dos melhores do ano, mostrando que os romances andam fracos e a poesia continua marginal. Outra tendência que se confirma é a das reedições, tanto de ficção como de não ficção, e é um tal de ler nos poucos suplementos literários restantes uma enormidade de matérias sobre clássicos e efemérides. Talvez eu não devesse me queixar, pois há muito tempo leio menos romances do que outros gêneros e estou sempre a criticar a carência de grandes livros do passado nas prateleiras brasileiras. Mas sinto muita falta de ler ficção atual realmente boa, ainda mais num ano em que Ian McEwan (Solar) e outros admirados não satisfazem; e fico pensando o que seria de nós sem o indefectível Philip Roth, que em Nêmesis fez outra narrativa tão curta quanto brilhante. Não à toa só se badala tanto o chileno Roberto Bolaño, morto há dez anos, cujo romance 2666 atravessei com alguma dificuldade, pelas muitas passagens banais.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2010 | 00h00

No Brasil, afora uns imitadores de Bukowski e alguns bons contistas, ano que não tem Milton Hatoum, Chico Buarque e Bernardo Carvalho repercute pouco. Pelo menos em poesia tivemos Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar, 80 anos, além das obras completas de Manoel de Barros, 93 anos. De resto, vivemos de livros de história, como o de Jorge Caldeira, História do Brasil com Empreendedores, muito menos chato do que sugere o título, e de alguns estudos sobre Machado de Assis, como O Altar & o Trono, de Ivan Teixeira, e Machado e Rosa - Leituras Críticas, bem menos abrangente do que sugere o título. E vivemos de reedições dos livros de Lima Barreto, Joaquim Nabuco e de A Barca de Gleyre, de Monteiro Lobato, que atraiu bem menos atenção do que a polêmica sobre a censura aos termos em que se referia à tia Nastácia. De estrangeiros, discutimos Os Embaixadores, de Henry James, e muita gente descobriu só agora os contos de John Cheever e Rodolfo Walsh.

O que me divertiu mesmo em 2010 foram os livros de e sobre arte. Duas edições são de uma beleza tamanha, em todos os sentidos, que não consigo parar de abri-las periodicamente: a caixa em seis volumes com todas as cartas ilustradas de Van Gogh e o mega-álbum Caravaggio - The Complete Works, duas demonstrações de que os livros em papel têm delícias visuais e táteis que nenhum iPad pode ter. Estudos clássicos como Arte como Experiência, de John Dewey, O Outono da Idade Média, de Johan Huizinga (não só sobre arte, mas também literatura), e A Arte Moderna na Europa, de Giulio Carlo Argan, foram enfim traduzidos, assim como O Pintor da Vida Moderna, de Charles Baudelaire, e as resenhas do mesmo Baudelaire e de John Ruskin em Paisagem Moderna. E o livro de memórias do grande arquiteto Tadao Ando não teve o destaque que merecia, num ano curiosamente carente de boas biografias.

Na fronteira cada vez mais explorada da arte com a ciência, aprendi com The Vision Revolution, de Mark Changizi, sobre as particularidades dos olhos humanos; Adam"s Tongue, de Derek Bickerton, e On the Origin of Stories, de Brian Boyd, sobre a importância fisiológica da gramática e da narrativa; Why We Cooperate, de Michael Tomasello, que mostra que a natureza humana não é só agressão ou erotismo; e Pegando Fogo, de Richard Wrangham, sobre como "cozinhar nos tornou humanos". E por que não acrescentar aqui o início das obras completas de Freud traduzidas por Paulo César de Souza? Um contemporâneo e conterrâneo de Freud, o jornalista (sim, jornalista "full time") e pensador Karl Kraus, também passou a ser devidamente publicado, com seus Aforismos, num país onde não há antologias decentes dos melhores aforistas. É isso aí: poucas e boas reedições, releituras e, para quebrar a modorra, ensaios científicos. Mas é melhor viver disso do que de falsas novidades e velhas picaretagens.

Cadernos do cinema. Estava com a sensação de que o ano cinematográfico não tinha sido grande coisa também, mas olhando a listagem do que vi e gostei me dei conta de que ao menos há algum vigor, alguma ambição estética. O filme vencedor do Oscar, Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow, tem grandes cenas e não cai no esquema "herói americano salva a pátria na batalha final". Invictus, de Clint Eastwood, sem estar entre seus melhores filmes, conta bem uma grande história real. A Fita Branca, apesar dos exageros enigmáticos de Michael Haneke, tem muita força. O argentino O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella, é um filme completo, com um roteiro que segue forte até o final e algumas cenas antológicas, como a do estádio.

Depois dessa leva, vieram ainda Alice, de Tim Burton, abaixo das altas expectativas, mesmo assim criativo e com a percepção de que Lewis Carroll tirava sarro da carolice inglesa; A Ilha do Medo, de Martin Scorsese, mais complexo que o semelhante O Escritor Fantasma, de Roman Polanski; e A Origem, de Christopher Nolan, que tem formidáveis achados visuais e depois se rende ao filme de ação linear. Agora no final, vimos A Rede Social, de David Fincher, com sua vingança dos nerds, e Tetro, de Coppola, com alguns momentos dignos de sua grande fase. No Brasil, não teve para ninguém: Tropa de Elite 2, de José Padilha, não é só o filme mais visto da história (ainda que a bilheteria de Dona Flor tenha sido num país com metade da população atual), mas o melhor do ano, por não apenas subscrever as opiniões do Capitão Nascimento. Dos documentários, Uma Noite em 67, de Ricardo Calil e Renato Terra, foi de longe o mais bem feito e de tema mais acessível.

Crianças e jovens também tiveram oferta satisfatória com Como Treinar Seu Dragão, o novo episódio de Harry Potter e outros mais.

Zapping. Já na TV é difícil lembrar tempos tão bons. Sim, as novelas pioraram; Passione poderia ter sido boa, com seus personagens anômicos e patológicos, mas errou feio - além do sotaque italiano e do merchandising descarado - quando fez Clara (Mariana Ximenes) virar boazinha durante várias semanas, até precisar recuar, e ao adoçar tudo (a tara de Gerson não era chocante, a ninfomaníaca Stella abandonou os garotões, etc). Mas as séries e os documentários nas TVs por assinatura são de alto gabarito. Vida, da Discovery com a BBC, marcou época com suas imagens de fauna. O Império do Contrabando, com produção de Martin Scorsese e atuação impressionante de Steve Buscemi, parece um romance, com personagens que se entrelaçam e se transformam. Na TV aberta brasileira, As Cariocas, de Daniel Filho, e Afinal, O Que Querem as Mulheres?, de Luiz Fernando Carvalho, se salvaram. E a tão esperada caixa de DVDs de Grande Sertão: Veredas deu saudades das longas e caprichadas adaptações literárias.

De la musique. Na música também revivemos os clássicos. Falou-se muito dos 200 anos de Chopin, de quem Nelson Freire lançou CD dos Noturnos, e de Schumann, gravado com bastante pedal por Evgeny Kissin. O DVD da estreia do maestro venezuelano Gustavo Dudamel - que vem ao Brasil em 2011 - à frente da Filarmônica de Los Angeles, recebeu merecida atenção. Antonio Meneses, grande violoncelista, nos deu dois CDs, Brillante e Haydn, e virou tema de ótimo livro de João Luiz Sampaio. Mas no jazz temos tido compositores jovens que já são mestres, como Brad Mehldau (Highway Rider) e Jason Moran (Ten), e mestres em grande forma, como Keith Jarrett, que fez o belo Jasmine com o baixista Charlie Haden. O mesmo vale para os CDs de dois grandes melodistas da MPB, Francis Hime (O Tempo das Palavras), e Edu Lobo (Tantas Marés).

O CD do ano no gênero mais pop foi, sem dúvida, Scratch my Back, de Peter Gabriel. Pop? O que é bacana no CD é o tratamento harmônico de canções de David Bowie, Paul Simon e Arcade Fire, de um bom gosto e inteligência raros. Pop mesmo é The Fame Monster, de Lady Gaga, que chama mais atenção pela personalidade do que pela música, mas que sabe fazer um hit, na linha Madonna escrachada para a era do YouTube. Depois escutar Stacey Kent, Patty Ascher e Tereza Salgueiro, com suas vozes suaves e sábias, é o contraponto ideal.

Por que não me ufano. Num ano com tantos livros de arte bons, as exposições que vi não chegaram a ser marcantes. Vi belas gravuras de Goeldi, Segall e Iberê na fundação que leva este nome em Porto Alegre, gostei de Andy Warhol na Pinacoteca, etc. Nada muito revelador. Já a 29.ª Bienal de São Paulo foi amplamente falada na imprensa, depois do fiasco da anterior, mas a qualidade e a visitação (500 mil pessoas, das quais 300 mil em visitas escolares) deixaram a desejar. Muito melhor que os urubus de Nuno Ramos, ou outras obras que foram aparecer até em cenário de novela, foram as pinturas de Rodrigo Andrade, que felizmente tinham remota relação com o tema da mostra, sobre arte e política.

Também fui muito pouco ao teatro, mas pelo menos vi In On It, do canadense Daniel MacIvor, com Fernando Eiras e Emílio de Menezes, que tinha uma intensidade e um cuidado raríssimos nos palcos nacionais. E Bárbara Paz provou de novo a atriz que é em Hell, um texto limitado de Lolita Pille. Na dança, vi algumas coisas que não merecem registro, mas a São Paulo Companhia de Dança continua sem decepcionar. Além de Balanchine e Kylián, meus dois coreógrafos favoritos, encenou o lendário Prelúdio à Tarde de Um Fauno, de Debussy e Mallarmé, na coreografia que Marie Chouinard fez a partir das fotos de Nijinski em 1912. Quase cem anos depois, e ainda parece tão novo. Mas não resta dúvida de que São Paulo e o Brasil precisam de melhores exposições, peças e balés.

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