Melancolia e ar rarefeito de Blake

Em meio à tempestade de bipes e batidas que ecoava pelos corredores do Parque do Anhembi, James Blake criou um cativante oásis reducionista, ao navegar pela melancolia de sua música, disciplinado e sincero, nesta madrugada de domingo. Havia feito um DJ set pouco convincente na noite anterior, mas aqui, sentado em frente de uma pilha de sintetizadores, pescoço esticado em direção ao microfone, estava em seu elemento. A banda alternava-se entre funções acústicas e digitais (guitarras, samplers, bateria eletrônica e percussão), e a música produzida era esparsa, audaciosa em sua economia.

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2012 | 03h09

Um poético espaço negativo se formava (como o espaço entre Blake e o resto da programação) no diálogo entre ritmos enxutos, o piano e os falsetes lamentosos do produtor inglês.

Quando Blake tocava, seus acordes eram véus ininterruptos de harmonia. Inchavam e distorciam-se na medida em que a música inflava, criando ápices de lirismo envolvente. A fórmula encontrada pelo músico para reproduzir seu híbrido de soul e dubstep ao vivo, e dar à música eletrônica a vibração do momento, é algo notável. Se em alguns momentos, como quando envereda para o dançante, peca pela ausência do visceral, do suingue (talvez por ser muito comportada e britânica dentro do que se propõe a fazer), em outras constrói um intimismo obstinadamente eficaz e arrebatador. Isto literalmente, pois quando Blake desfere os graves de seu sintetizador Prophet 08, faz tremer tudo e todos em volta do palco.

Na primeira noite do Sónar, o show mais eficiente ficou por conta dos retrocafajestes do Chromeo, que trouxeram o feijão com arroz que faltava a um evento de música dançante. Nada muito cabeça, tampouco refinado. Apenas electrofunk com refrões contagiantes, tocados em sequência compacta para tirar a pista do chão. Foi um prazer culposo (para quem tem culpa de alguma coisa) extremamente bem-vindo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.