Meirelles encara o desagio global

É no mínimo curioso como as coisas acontecem com Fernando Meirelles. Ensaio Sobre a Cegueira era o filme que ele queria fazer, mas, como José Saramago não lhe vendeu os direitos, terminou fazendo Cidade de Deus, com a repercussão que todo mundo sabe. Ensaio caiu-lhe depois no colo. Ele também queria fazer um filme sobre o mundo global, misturando várias histórias. O projeto foi enterrado por Babel, de Alejandro González-Iñárritu. De certa forma ressurge com 360.

O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2012 | 03h08

Meirelles tem recebido todo tipo de pancada por seu novo filme. Acusam-no de 'cegueira', ao fazer um produto internacional e que seria anódino. OK, concedamos que o diretor precisa voltar a filmar no Brasil para se comprometer mais, falando de sua (nossa) gente. Mas 360 é seu melhor filme desde Cidade de Deus, o mais bem-feito e elaborado.

Parte disso vem do roteiro de Peter (A Rainha) Morgan que acompanha vários personagens em diferentes culturas e países. As histórias se tocam. O filme tem dois finais. O do roteirista fecha um ciclo e volta ao começo. O do diretor mostra os personagens em marcha, na estrada da vida.

Como havia pouco tempo para desenvolver tantos personagens, Meirelles valeu-se de um artifício, recorrendo a astros e estrelas que, no imaginário do espectador, já trazem algo sobre essas figuras. Ponto para ele. O grande momento - antológico - é o monólogo de Anthony Hopkins nos Alcoólicos Anônimos. O personagem é um pai que busca a filha que sumiu ao descobrir que ele traía a mãe. Hopkins não apenas expressa a culpa como improvisa na fala, acrescentando sua vivência de ex-alcoólatra.

A grande virada é o motorista russo, o poderoso Vladimir Vdovichenkov. O espectador é induzido a se enganar sobre ele. O homem que lê é um sonhador. Encontra sua sonhadora. O roteiro coral é, em si, um artifício que deflagra a crítica. Tudo se articula, por meio da mise-en-scène elaborada. O fato de ter personagens brasileiros, Maria Flor e Juliano Cazarré, ajuda para que Meirelles pareça mais motivado.

Crítica: Luiz Carlos Merten

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