Meirelles desiste de Rosa

Decepção com Xingu convence diretor a não rodar Grande Sertão: Veredas

LUIZ CARLOS MERTEN / RECIFE, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2012 | 03h08

Houve falha técnica no primeiro dia, quando o sistema digital não leu corretamente a banda sonora de À Beira do Caminho e o longa de Breno Silveira passou de forma inaudível. Ela foi corrigida com a reprise do filme no sábado. Houve outra falha, humana, no domingo, na projeção de Boca. O longa de Flávio Frederico está passando em película. Houve uma troca de rolos. A projeção foi interrompida, rolou um estresse. O problema será corrigido hoje, quando Boca será projetado de novo. Ex-Boca do Lixo, o filme conta a história de um famoso bandido de São Paulo, por volta de 1960, Hiroito. O filme já foi exibido em São Paulo com o título original. A nova versão não reduz só o título, como muda uma cena (diz o diretor). O curioso é que, até a interrupção, Boca estava compreensível e mais fluido do que na versão antiga. Como estará na projeção de hoje, a definitiva?

No encontro da organização com a imprensa, para explicar o sucedido, a jornalista Maria do Rosário Caetano lembrou o caso de Anjos da Noite, de Wilson Barros, que foi exibido no Festival de Brasília também com os rolos trocados. Só que a narrativa do filme era fragmentada, a plateia estava gostando e o diretor não interrompeu a sessão. Anjos da Noite ganhou o festival. Fica como uma anedota, e na realidade, o presidente do júri, o cineasta João Batista de Andrade, também presente na hora do comunicado, garantiu ao diretor Flávio Frederico que todos os integrantes verão o filme hoje e que o incidente não vai influenciar na votação.

Apesar dos problemas, o 16.º Cine PE prosseguiu no fim de semana com homenagens e projeções. Fernando Meirelles foi homenageado nos dez anos de Cidade de Deus. Ele subiu ao palco do Cine-Teatro Guararapes para dizer que homenagens são em geral póstumas ou quando o sujeito está se aposentando. Não é o caso dele. "Ainda tenho muitas ideias, gente", garantiu, mas, em entrevistas, Meirelles anunciou ter desistido de adaptar Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, decepcionado com a acolhida do público a Xingu, de sua produtora O2. O belo longa de Cao Hamburger deve ter fechado 300 mil espectadores no fim de semana. Com sorte, chegará a 400 mil. É decepcionante para uma produção cara e empenhada. No próprio filme, o ex-presidente Getúlio Vargas, convertido em personagem, explica do que se trata: "Brasileiro não gosta de índio." De filme, então, nem se fala.

Cacá Diegues, nascido aqui do lado, em Alagoas, lembrou o avô, que dizia: "Estuda, meu neto, que um dia você chega ao Recife." A capital pernambucana representava o sucesso. O público veio abaixo quando Cacá, recebendo seu Calunga especial, afirmou: "Se meu avô estivesse vivo, poderia dizer a ele: 'Vô, eu consegui!'"

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