Meireles e Barrio representam o Brasil em Kassel

Sábado começa a 11.ª edição damostra de Kassel, na Alemanha, que pela primeira vez serácomandada por um não-europeu, o nigeriano Okwui Enwesor; oBrasil estará presente no mais importante evento de artecontemporânea do mundo representado por dois artistas maduros,que desde o fim da década de 60 vêm desenvolvendo uma importanteinvestigação conceitual: Cildo Meireles e Artur Barrio.Participar de uma Documenta de Kassel é, para qualquerartista do mundo, uma grande consagração, que lhe ajuda a abrirportas pelo mundo afora. No caso de Cildo Meireles, essaconsagração é dupla, pois ele é o único brasileiro - ao lado deAlmir Mavignier - a participar duas vezes dessa que éconsiderada a mais importante mostra de arte contemporânea. Duascaracterísticas são essenciais para garantir o sucesso damostra: em primeiro lugar, o fato de que não são os países queescolhem seus representantes, mas um curador escolhidoespecialmente para isso. Também é vital o fato de a exposiçãoocorrer apenas a cada quatro ou cinco anos, o que permite umlongo tempo de preparação - os primeiros contatos com Meirelesforam feitos em 1999 - e evita o desgaste decorrente de mostrasanuais ou bienais.A 11.ª edição do evento, que abre suas portas ao públicono sábado, teve um longo trabalho preparatório, tanto emtermos conceituais, quanto na escolha dos artistas. Comoprimeiro curador não-europeu a comandar o evento, o nigerianoOkwui Enwesor tomou o cuidado de ampliar as fronteirasgeográficas e conceituais do evento, promovendo debates emvários continentes e buscando ampliar a discussão para além doslimites estéticos da arte, tirando-lhe o confortável - ealienado - status de autônoma. E quando se trata de questionarlimites e promover uma reflexão que aproxima questões como arte,vida e política, Cildo Meireles é um nome incontornável.Desde o início, quando sua obra foi fortemente marcadapela repressiva conjuntura política da ditadura militar, atétrabalhos menos incisivos e mais poéticos, como Fontes -instalação que mostrou na 9.ª Documenta, em 1992 -, Meirelessempre se alimentou do mundo à sua volta, agregando, ou melhor,construindo o trabalho sobre elementos que fazem parte nãoapenas de seu universo pessoal, mas que reflitam aspectosintrigantes, singelos ou simbólicos da nossa sociedade. No casodas Fontes, ele leva o espectador a ver, ouvir e sentir o ritmoalucinante dos tempos modernos, ao criar um espaço dominado pormetros e relógios em tons de amarelo vivo e negro.A obra que mostra agora na Documenta só faz confirmar aidéia de que Meireles é mais do que um artista que pretende usarsua obra como discurso político. Meireles é um artista político.O germe dessa intervenção - de difícil definição - remonta a1974, quando o artista estava na casa da avó, na periferia deGoiânia, preparando um trabalho.O cenário de sua infância estava totalmente transformadoe ele saiu para explorar a região depois do almoço, deparando-secom um grupo de 15 a 20 garotos vendendo sorvete diante de umanova rodoviária que havia sido construída. O número de carrinhosde sorvete, todos da mesma marca, o deixaram intrigado. Mas suasurpresa foi ainda maior quando viu que todos vendiam sorvetesde três preços: o mais barato era um picolé de água. "Narreiessa história ao Enwesor e ele gostou muito", conta Meireles. Oartista concebeu então uma intervenção bastante complexa, queenvolve um lado performático e outro escultórico, e que tambémpode ser vista como uma espécie de questionamento sobre o lugarda arte nos nossos dias. O nome escolhido por Meireles paradefinir seu trabalho é "poema industrial", uma formainteressante de resumir essa reflexão crítica e visual dasaberrações decorrentes da industrialização desorganizada nospaíses periféricos.Barrio - Em uma Documenta que nasce sob o signo dacontrovérsia, nada melhor que a obra do brasileiro Artur Barriopara adicionar mais lenha na fogueira que já arde em Kassel.Como de costume, Barrio pretende partir para uma situação deenfrentamento e tensão com o espaço urbano e com a população -como fez ainda em 1970, na obra Situação T/T,1 (conhecida comoTrouxas Ensanguentadas), quando espalhou sacos de pano com carneem esgoto ao ar livre, em Belo Horizonte, que foram confundidoscom corpos, envolvendo a polícia e criando rebuliço na capitalmineira.Barrio chegou a Kassel quase 20 dias antes da abertura.Na cidadezinha alemã, o artista é dono de uma sala, onde criouuma instalação e exercitou sua escrita experimental sobreparedes brancas, à maneira do que fez em 2001, com A Metáforados Fluxos, no Paço das Artes, quando usou café, sal, fioselétricos, lâmpadas e tanques com peixes mortos conservados emsal grosso. Barrio promete ganhar as ruas da cidade e por elasespalhar cerca de 30 diferentes "gestos" - que seriam ações,interferências e intervenções ao ar livre, culminando em umbosque a 20 km da região central.

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