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Meio-soprano Magdalena Kozená grava ciclos de Ravel, Mahler e Dvorák

Crítica de João Marcos Coelho: 'Magdalena dá um verdadeiro show de interpretação'

O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2012 | 03h11

A meio-soprano checa Magdalena Kozená, de 39 anos, está casada com o maestro inglês Simon Rattle, de 56, há quatro anos. E tem participado com bastante frequência dos concertos da Filarmônica de Berlim, da qual ele é o maestro titular. Quem pensou em nepotismo pode esquecer. Kozená é uma esplêndida meio-soprano. Bem antes do casamento com o regente inglês, firmou-se como uma das grandes cantoras da atualidade.

Bem afastada qualquer hipótese de favorecimento, podemos então saudar como extraordinária uma gravação com estes intérpretes, que a Deutsche Grammophon acaba de lançar. O CD se intitula Love and Longing e tem cerca de 70 minutos. Vinte deles são ocupados com mais uma entre as dezenas de gravações recentes do ciclo Rückert-Lieder, de Gustav Mahler. E, entre os outros dois ciclos, em que Magdalena dá um verdadeiro show de interpretação, a surpresa fica com o ciclo de dez canções bíblicas sobre salmos que o checo Antonín Dvorák compôs em 1894, quando estava morando nos Estados Unidos, para onde fora atraído três anos antes em troca de um caminhão de dólares com a missão de ensinar os norte-americanos a compor a "grande música".

O ciclo é raridade nas salas de concerto e também em gravações. Ele o escreveu para baixo e piano, num momento em que curtia uma saudade danada de sua terra natal. Além disso, soube, mais ou menos em sequência a partir de novembro de 1893, das mortes de dois amigos queridos - Tchaikovski e o maestro Hans Von Büllow - e da doença fatal de seu pai distante. Usou, nestas comoventes e belas canções sacras, uma Bíblia que sempre trouxe consigo, em tradução do século 16. E, nela, escolheu os Salmos, o livro mais musical da Bíblia. Orquestrou as cinco canções finais, mas as dez, com acompanhamento sinfônico, só estrearam em 1914, dez anos após sua morte (as primeiras cinco foram orquestradas por Vilem Zemanek).

É interessante comparar as orquestrações. Zemanek não faz feio. Mas, evidentemente, soam melhor as cinco canções finais. A sexta, com versos do Salmo 61, por exemplo, é um belíssimo hino do exilado, pode-se dizer. Ele usa os versos "Porque você se tornou minha esperança/e uma poderosa fortaleza contra o inimigo". A voz muito expressiva de Kozená vai do contralto puro ao soprano lírico sem quebras, fluindo de modo admirável.

O CD captura uma apresentação ao vivo na Philharmonie de Berlim. E é também um modelo de construção de programa, com obras afins compostas num arco histórico de dez anos. Começa com estas magníficas e raras Canções Bíblicas, de 1894; continua com as conhecidas canções do ciclo Shéhérazade, composto por Ravel em 1903; e fecha com os Rückert-Lieder, que Mahler escreveu em 1901. O casal Simon e Magdalena e a orquestra também estão impecáveis em Ravel e Mahler.

Crítica: João Marcos Coelho

Avaliação: Excelente

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