MEIO SHOW, MEIO CINEMA

The Wall leva ao palco revolução que começou com Kubrick, nas telas, em 1968

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2012 | 03h07

Coisa de cinema. Eis a frase mais ouvida sobre o show de Roger Waters, Pink Floyd - The Wall. Baseia-se no álbum de 1979 que Alan Parker já havia transformado em filme em 1982. Em janeiro, precedendo a turnê que deveria levar Waters ao Chile, The Wall (o filme) já desembarcara num cinema de Santiago. Talvez tenha faltado essa perspicácia aos organizadores no Brasil, ou aos programadores de salas especiais.

Há cinco anos, Waters trouxe ao País The Dark Side of the Moon. Era um híbrido do álbum de mesmo nome, somado a outras músicas da banda. The Wall segue agora o roteiro criado há mais de 30 anos por Waters. Como no filme, o público acompanha o colapso do roqueiro Pink. Em cenas que viajam pelo passado, presente e futuro, assistimos à sua fissura emocional - o pai morreu na guerra, Pink foi abusado na escola - e ao surgimento de um fascista. O caráter político do roteiro é ressaltado, no filme, pelas animações do cartunista Gerald Scarfe. Na abertura do grandioso espetáculo, Waters dedicou The Wall, o show, a Jean Charles de Menezes "e a todas as vítimas do terrorismo de Estado".

Começava com um ataque de avião. Fogo, explosões. Quando o público entrava no Morumbi, o muro já estava parcialmente construído. Ia de ponta a ponta do estádio e as abas laterais convertiam-se em telões. O palco, a princípio descoberto, foi fechado. No fim do primeiro ato, o muro estava completo. No fim do espetáculo, foi destruído - uma metáfora de desconstrução dos signos que escravizam o homem. E tudo combatido por palavras de ordem - contra a guerra, a fome.

Roger Waters sempre sonhou com esse espetáculo, mas, há 30 anos, não havia tecnologia para realizá-lo. Hoje, há tecnologia para tudo - não para todos. Quando esteve em São Paulo para lançar o DVD de Avatar, o próprio James Cameron disse que o limite, hoje, é a imaginação. Tudo o que os artistas puderem imaginar, a técnica vai construir. Não é de hoje. Algo se passou em 1968, quando Stanley Kubrick concebeu 2001, Uma Odisseia no Espaço, em parceria com o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke. A divisa de ambos é que era necessário encarar o impossível, rumo à superação dos limites do possível.

2001 propôs um dos mistérios mais duradouros do cinema - o monólito negro, que antecipa as rupturas na evolução humana. Pouco antes do desfecho, o astronauta atravessa um corredor de luz, pura vertigem lisérgica de som e imagem. Aquilo foi um marco - não só do cinema. Uma geração inteira viajou no LSD, nas drogas, na música. 2001, o filme, é contemporâneo de Woodstock. Tommy, a ópera-rock do The Who, virou filme (de Ken Russell) em 1975, precedendo Pink Floyd - The Wall. Um adjetivo volta e meia colado a Russell é - 'excessivo'. Por maiores que sejam os excessos de Tommy, momentos de Eric Clapton, Elton John (Pinball Wizard) e Tina Turner integram as lembranças de roqueiros de todas as idades.

Pink Floyd - The Wall, a ópera, o filme e, agora, o show, vai (vão) adiante. O que Roger Waters propõe supera a reconceituação do show de arena proposta pelo U2 em 360 Graus. O prisma de The Dark Side of the Moon virou uma experiência tímida. O conceito consiste agora em lançar o público numa experiência tridimensional e arrebatadora. Existem momentos em que a sensação é de que o muro é móvel. No intervalo, as fotos (em movimento) com legendas das vítimas da guerra, da opressão e da intolerância introduzem a realidade no sonho. Um pesadelo? Os críticos (Roberto Nascimento, no Caderno 2) reclamam - todo esse frufru pirotécnico não esconde o fato de que The Wall é um espetáculo raso e sensacionalista em suas aspirações políticas, aguado e repetitivo no conteúdo musical. Há controvérsia - o frufru tecnológico não pode ser dissociado do conteúdo musical. Nasceram juntos. E quanto a The Wall ser raso...

Roger Waters, com uma energia admirável, está fazendo show para seus velhos fãs, mas também, e principalmente, para os jovens, que vivem nas redes sociais 24 horas, compartilhando experiências. É um público que tem mais informação que o homem já teve em qualquer momento da História. Apesar disso, as massas nunca foram tão alienadas (nem voltadas para o consumo desenfreado). A dedicatória do show, as inscrições no porco que plana sobre o estádio - contra o povo escravo e o Código Florestal - são mais Michael Bay que Stanley Kubrick. Mas Bay, em Transformers, reinventou Kubrick e Hal-9000, criando uma nova mitologia em que até os críticos deveriam ter prestado atenção. Matrix, dos irmãos Wachowski , é vazio ou um compêndio audiovisual de filosofia, depende do olhar. Só agora Another Brick, Mother e Empty Spaces chegam ao público como sonhava o script original de Waters. O mundo mudou. A diluição é um risco, mas a Força, como em Star Wars, fica com a gente.

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