Meio século depois, legado político e cultural de 1968 permanece vivo

Meio século depois, legado político e cultural de 1968 permanece vivo

Ano de revoluções em vários países provocou mudança comportamental profunda

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

03 Janeiro 2018 | 06h00

Há uma primeira pergunta a ser feita: o cinquentenário de 1968 será uma mega-efeméride ou cairá no vazio por ter esgotado seu significado histórico. É o que veremos em 2018, em especial ao se aproximar o mês de maio. Afinal, o Maio de 1968, em Paris, é, para o bem e para o mal, o emblema de tudo que este ano representa para a história recente. 

1968 é um problema. A começar por sua datação. Há quem sustente que 68 começou em 1967 - e não deixa de ter razão. Muita coisa - tanto no plano político como no artístico - fermentava já no ano anterior àquele que seria conhecido como o ano rebelde por excelência, o “ano que não terminou”, como o chamou o jornalista Zuenir Ventura no livro (bestseller) dedicado a ele quando 68 completou 20 anos, em 1988. 

+++O ‘maio de 68’ continua muito bem na fita

No Brasil, a rebeldia estudantil já fervia nos anos anteriores, mas viria a explodir em 1968 com a morte do estudante Edson Luis Souto, no Rio, e a batalha campal entre Mackenzie e USP, a chamada "guerra da Maria Antonia", em São Paulo. 

No Festival de música popular de 1967, Caetano Veloso interpretou Alegria, Alegria e Gilberto Gil, Domingo no Parque, dois emblemas da nova música que surgia. Mas o disco Tropicália, manifesto do movimento, viria a público somente em 1968. 

Duas das fontes de inspiração para o Tropicalismo, o filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, e a peça O Rei da Vela, montada por José Celso Martinez Corrêa, são de 1967. Produziriam seus efeitos mais explosivos no ano seguinte. 

1968 é assim, um ano de chegada, em que tendências já anunciadas se cristalizam em radicalismo político, criatividade intensa, obras duradouras, mobilizações de rua - e uma grande frustração. Foi, em todo mundo, “a revolução que não aconteceu”. Mas que, em não acontecendo, tudo mudou. Um paradoxo, sem dúvida, mas que se esclarece quando se faz um balanço sem preconceitos dos legados de 1968, agora à distância de meio século.  

Em todo caso, o desfecho, em muitos dos países onde a juventude passou a dar as cartas como agente social, foi rápido e não correspondeu aos desejos dos seus apaixonados participantes. No Brasil, 1968 terminou em 13 de dezembro, com o Ato Institucional nº 5, que fechava de vez o regime e instaurava uma ditadura brutal, cujos efeitos viriam a se fazer sentir nos anos seguintes. Na França, o movimento estudantil seria esvaziado com a vitória do general De Gaulle. Nos Estados Unidos, a luta contra a Guerra do Vietnã, o movimento negro e o das feministas viria a dar na eleição do conservador Richard Nixon, em 1969. 

No entanto, em meio a todas essas “derrotas”, o movimento libertário de 68 deixaria legado para as décadas seguintes. Talvez menos no âmbito político que no comportamental. Se a inclinação política à esquerda já era contestada em seu nascedouro, entraria de vez em parafuso com a queda do Muro de Berlim em 1989 e o fim da União Soviética em 1991. No entanto, as lutas feministas, antirracistas, ecológicas e contra a intolerância em geral têm suas raízes nas pautas igualitárias de 68. 

Talvez seja esse o caminho mais fácil de conexão entre 1968 e os dias atuais. Se a política caiu em descrédito quase universal (e no Brasil em particular), as lutas identidárias, antirracistas e pela igualdade de gênero são as que mais mobilizam a juventude e dominam a pauta contemporânea. É na pegada libertária dos 68 que essas lutas se inspiram. 

Não que tudo tenha começado ali. Mas essas lutas por igualdade tiveram forte impulso quando jovens de várias partes do mundo foram às ruas para dizer que a sociedade não andava bem, que não acreditavam mais nos políticos e era chegada a hora de tudo mudar de mãos. Poder jovem. Ou, como se escrevia nos muros de Paris: “A imaginação no poder”. Ou: “Seja realista; peça o impossível”.

Com motivações diferentes, as manifestações pipocavam na França, Estados Unidos, Alemanha, Checoslováquia, México... e Brasil. De comum, o intenso desejo de transformação. No resto, tudo era diferente. Na França, o estopim foi uma regra universitária retrógrada, que impedia estudantes do sexo masculino visitar suas colegas nos dormitórios. A partir daí, Paris ferveu e os estudantes conseguiram uma temporária aliança com os operários, que levou o regime às cordas. 

No Brasil, a luta foi essencialmente política. Diferentemente da França, vivia-se aqui sob uma ditadura. Num protesto contra o FMI, um estudante paraense foi morto pela polícia. Foi o que deflagrou a contestação do regime entre estudantes, classe artística e boa parcela da classe média. Passeatas se sucediam e a agitação chegou ao ápice na batalha entre alunos da USP e do Mackenzie na Rua Maria Antonia, em outubro.  

Tudo isso é História. Mas não é apenas um motivo nostálgico ou um quadro na parede. De dez em dez anos, quando se comemora a data redonda, 1968 é lembrado. Lançam-se livros, filmes, fazem-se análises, entrevistam antigos líderes. O líder máximo do 68 francês, Daniel Cohn-Bendit, Dany “le rouge”, diz que não fala mais no assunto. Dez anos atrás, quando se lembravam os 40 anos do movimento, o então presidente da França, Nicolas Sarkozy, dizia que “o legado de 1968 deveria ser enterrado”. Prova de que, de alguma forma, nem que fosse como espectro, continuava vivo e assombrava. 

Será assim também em seu cinquentenário? A mensagem libertária de 68 vai encontrar, nessa efeméride, um mundo conservador, de modo geral. A onda de direita varreu o mundo, tanto na Europa como nas Américas. Macron, Macri, Trump, Temer, etc não formam um quadro muito acolhedor para aspirações libertárias e imaginativas. O mundo ficou careta demais e, no âmbito da política, desalentador para quem tenha um mínimo de vocação progressista. 

Mas não é impossível que, justamente nesse ambiente hostil, os antigos combates juvenis de 1968 ainda tenham algo a dizer para os nossos contemporâneos. No Brasil, em particular, vemos que são as lutas feministas, do movimento negro e dos direitos LGBT as que marcam posição contra a maré conservadora. Como conectá-las a um ativismo simbólico, no plano das artes e da cultura, ainda é questão em aberto, embora se vejam sintomas nesse sentido, em filmes, livros, músicas e peças de teatro. Não é um todo orgânico, ainda, portanto incapaz de levantar uma onda forte. 

No plano dos movimentos de rua há ainda um enigma sobre o qual se precisa refletir: como um movimento reivindicatório forte e potencialmente progressista como o de 2013 se deixou fagocitar por forças conservadoras e reacionárias? É um problema, um terrível quebra-cabeças político, social e mesmo psicológico a ser enfrentado. 

Para finalizar, será preciso lembrar que o mais belo filme que tem 1968 por palco foi lançado em 2017, um ano antes do cinquentenário. Em No Intenso Agora, João Moreira Salles mescla memórias da família (da mãe, em particular) a imagens de arquivo das lutas parisienses de 68, da Primavera de Praga e das passeatas de protesto no Brasil para discutir como continuar a viver depois de se haver atingido o ápice da euforia. O pique de tensão eufórica que só se conhece em tempos pré-revolucionários, quando tudo parece possível e ao alcance da mão. 1968 é isso, entre tantas outras coisas, expressão do desejo, pulsão jovem em direção à mudança, busca inventiva pelo novo. 

Livros para entender 1968

Mai 68 - Une Histoire du Mouvement, Laurent Joffrin, Points, 1988

1968, o Ano que não Terminou, Zuenir Ventura, Planeta, 2008

1968, O que Fizemos de Nós, Zuenir Ventura, Planeta, 2008

Mai 68, l’Héritage Impossible, Jean-Pierre Le Goff, La Découverte, 2002

1968 - o Diálogo é a Violência: Movimento Estudantil e Ditadura Militar no Brasil, Maria Ribeiro do Valle, Editora Unicamp, 2008

Maio de 68 Explicado a Nicolas Sarkozy, André Glucksmann e Raphaël Glucksmann, Record, 2008

O Fantasma da Revolução Brasileira, Marcelo Ridenti, Unesp, 1993

Em Busca do Povo Brasileiro - Artistas da Revolução, do CPC à era da TV, Marcelo Ridenti, Record, 2000

Uma cronologia de 68

Janeiro

16 - Estreia no Rio a peça Roda Viva, de Chico Buarque de Hollanda, dirigida por José Celso Martinez Correa. 

Fevereiro

8- Estudantes poloneses protestam contra a censura, enfrentam policiais e a Universidade de Varsóvia é fechada

22- Sob a liderança de Daniel Cohn-Bendit estudantes invadem a Universidade de Nanterre

28 - O estudante secundarista Edson Luiz de Lima Souto é morto durante invasão policial do restaurante do Calabouço, no Rio, provocando protestos e acirramento da luta contra a ditadura. 

Abril

1 - Estudantes invadem a Universidade de Brasília. Protestos em todo Brasil contra a morte de Edson Luiz. 

4 - Martin Luther King é assassinado nos Estados Unidos. Registram-se conflitos raciais em 125 cidades americanas.

5 - Governo Dubceck lança pacote de medidas liberalizantes na Checoslováquia. Tem início a chamada “Primavera de Praga”. 

28 - Protesto contra a Guerra do Vietnã reúne 60 mil pessoas no Central Park, em Nova York. 

Maio

6 - As Universidades de Paris são fechadas. Erguem-se as primeiras barricadas no Quartier Latin. 

10 - Paris amanhece pichada com os dizeres: “É proibido proibir”, divisa maior do maio francês. 

13 - Cerca de 100 mil estudantes e operários decretam Greve Geral na França. 

15 - Três milhões de trabalhadores entram em greve no Reino Unido

18 - Cineastas como François Truffaut, Alain Resnais, Roman Polanski retiram seus filmes do Festival de Cannes em apoio aos estudantes. O festival é interrompido. 

30 - O presidente Charles De Gaulle dissolve a Assembleia Nacional e convoca novas eleições. Uma passeata de um milhão de pessoas apoia o governo na Avenida Champs Elysée. 

Junho 

7 - Na Itália, o jornal conservador Corriere della Sera é invadido por 3 mil estudantes

16 - A polícia francesa invade a Sorbonne, desalojando os estudantes que haviam ocupado a Universidade. 

23 - Eleições legislativas na França, com vitória esmagadora dos partidários do general De Gaulle. 

26 - Realizada no Rio a “Passeata dos Cem Mil’, reunindo estudantes, intelectuais, artistas e membros do clero progressista

Julho 

18 - Elenco da peça Roda Vida é agredido por membros do comando paramilitar CCC (Comando de Caça aos Comunistas)

Agosto

É lançado o album Tropicalia ou Panis et Circensis, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, o disco-manifesto do movimento tropicalista

Setembro

3 - O deputado Marcio Moreira Alves discursa contra os militares no Congresso Nacional 

Outubro

2 - Conflito entre estudantes e policiais na Praza Tlatelolco, na Cidade do México, causam entre 200 e 300 mortes

2 - Confronto entre estudantes da USP e do Mackenzie na Rua Maria Antonia, em São Paulo

12 - Polícia invade sítio em Ibiúna onde se realizava Congresso da UNE, proibido pelo governo. Cerca de 1200 estudantes, entre os quais todas as lideranças, são presos. 

Novembro

5 - Richard Nixon é eleito presidente dos Estados Unidos

Dezembro

5 - Um milhão de trabalhadores entram em greve na Itália

13 - Entra em vigor no Brasil o Ato Institucional nº 5, que acaba com as liberdades democráticas no País  

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