Meio século depois, Cole Porter segue presente

Influência de um dos maiores nomes do jazz ainda é definitiva

João Marcos Coelho - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2014 | 02h07

Ele bem que poderia ter sido um personagem da era do jazz tão bem descrita por Scott Fitzgerald. Fez de sua vida de 73 anos uma festa permanente. Mudavam as paisagens, da Broadway a Paris, de Hollywood a Tin Pan Alley. Cole Porter foi mais que personagem. Foi o gênio completo de seu tempo. Escreveu letra e música de 800 canções. Ao menos uma centena delas é ouro puro. Sabia que era a estrela de mais intenso brilho na incrível constelação de grandes compositores populares da era dourada da música popular norte-americana, entre os anos 20 e os 50 do século passado. Os demais astros atendiam por George Gershwin, Jerome Kern e Irving Berlin, entre outros geniais 'songwriters'.

Canções como What is this thing called love, Night and Day, Love for Sale, Let's Do It, Let's Fall in Love, You're the Top, Anything goes, Begin the Beguine, Just Oneof Those Things e a comovente Ev'ry Time We Say Goodbye permanecem atualíssimas, a meio século exato de sua morte, em 15 de outubro de 1964.

O mais recente exemplo está no bizarro CD lançado há poucas semanas em que Tony Bennett leva Lady Gaga a um passeio por este seletíssimo reino dourado da canção. Sabem qual a música que abre o CD? Anything Goes, um Cole Porter puro-sangue, além da provável melhor balada de todos os tempos, Ev'ry Time We Say Goodbye.

Lady Gaga até que não faz feio. Não ria. Reserve a gargalhada para outro CD-tributo recém-lançado, desta vez britânico. A John Wilson Orchestra, que há 20 anos faz pastiches da música popular da primeira metade do século passado, assina Cole Porter in Hollywood, com sucessos dele no cinema. A orquestra, que junta cordas com a formação clássica das big bands enxertada com trompas à la Stan Kenton, tem a coragem de vender seu peixe afirmando ser uma praticante da "música historicamente informada", um movimento nascido quando Cole Porter reinava na Broadway e Hollywood que se aplicou em recriar instrumentos da música antiga, pré-clássica, dos séculos anteriores à tríade clássica Haydn-Mozart-Beethoven.

John Wilson diz que recria os sons da Broadway e de Hollywood. Pra nós, esta formação atende pelo nome de Orquestra Jazz Sinfônica, que nasceu em 1989 aqui em São Paulo e tem uma competência muitíssimo maior que estes quadrados de dar dó.

Mas qual é o segredo do talento único de Cole Porter? Em seu livro, Alec Wilder diz que é uma ironia ele ser mais exaltado como letrista do que como músico, já que é um dos poucos a ter uma sólida formação musical (estudou em Harvard e também na veneranda Schola Cantorum de Paris). Chegou a compor a música para o balé Withinthe Quota, estreado em 1923 em Paris, dividindo o programa com A Criação do Mundo, de Darius Milhaud. Mas Porter é como Tom Jobim: genial na canção curta, tedioso na música sinfônica.

Cinco anos depois do début no grand monde parisiense, ele barbarizou na Broadway com sua primeira canção de sucesso, Let's do it, "um catálogo sem fim de promiscuidade zoológica", na gongórica expressão de David Schiff. Ele é meio mala, mas explica bem o segredo de Porter. Este quebrou as regras pétreas do gênero, ao compor música complexa e letras refinadas. "Embora você não perceba", diz Schiff, "a melodia é altamente cromática e a harmonia mistura o tempo todo os modos maior e menor, remetendo a Schumann e Brahms". Em suma, "soa como uma simples canção - mas tente encontrar as notas e os acordes no piano", desafia.

Outro exemplo matador é Night and Day, de 1934. Porter tinha de compor uma canção para a voz pequenininha de Fred Astaire, com apenas uma oitava e meia de extensão, e com notas repetidas para facilitar. Ele capturou o mote num almoço em dia chuvoso. Alguém reclamou: "Thatdrip, drip, dripisdriving me crazy". Acho que funciona, disse Porter. Acrescentou o "tick,tick,tick" do relógio e o "beat-beat-beat" do tom-tom. Os duplos sentidos, as metáforas, a sofisticação dos versos - eram tantas as qualidades dos seus versos, que acabaram soterrando a rara invenção musical.

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