Meio século de um filme bombástico

Meu Passado me Condena, de 1961, ajudou a mudar a lei que considerava a homossexualidade crime na Inglaterra

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2011 | 00h00

Se há um filme na história do cinema responsável por derrubar uma lei insana, este é Meu Passado me Condena (Victim), que estreou há exatos 50 anos, no dia 31 de agosto de 1961, no cine Odeon, em Londres, sendo agora lançado em DVD no mercado brasileiro. A lei, no caso, foi responsável por inúmeros suicídios de homossexuais, vítimas de chantagistas, e por levar à prisão milhares de cidadãos britânicos acusados de práticas ofensivas à sociedade. O filme, lançado justamente no centenário de nascimento do seu diretor, Basil Dearden (1911-1971), não decidiu de imediato a revogação da esdrúxula lei. Ainda seriam necessários mais seis anos para que a Inglaterra aprovasse a descriminalização da homossexualidade. Contudo, Meu Passado me Condena teve uma influência considerável sobre as autoridades que decidiram pelo fim da antiga lei, em 1967.

Drama disfarçado de thriller para passar pela rigorosa censura inglesa dos anos 1960 - foi o primeiro filme a usar a palavra "homossexual" na história do cinema britânico -, a obra de Dearden serviu, indiretamente, como ilustração de um relatório apresentado quatro anos antes às autoridades da Justiça inglesa (o Wolfenden Report, de 1957). Entre outras coisas, lorde Wolfenden e seus auxiliares concluíram no relatório que os homossexuais eram chantageados igualmente por bandidos e policiais, pagando para não acabar na cadeia (e são famosos os casos de personalidades públicas, como os escritores Oscar Wilde e Quentin Crisp, que foram parar atrás das grades). Com uma única dissensão, esse relatório pedia às autoridades britânicas que a lei não interferisse mais na vida privada dos homossexuais. Seguiu-se um intenso debate na Câmara dos Comuns e, finalmente, a lei recebeu aprovação real.

Quando Basil Dearden e seu produtor Michael Relph resolveram desafiar a lei antiga e rodar o filme com Dirk Bogarde, então astro das matinês inglesas, estavam conscientes do risco que suas carreiras corriam - e do processo que poderiam enfrentar por defender pessoas consideradas criminosas na Inglaterra dos anos 1960. Bogarde, herói de guerra, era, ele mesmo, um homossexual dentro do armário, pois corria o risco de ter o mesmo destino de Oscar Wilde se assumisse publicamente seu caso amoroso com o empresário Anthony Forwood. Parece absurdo, mas há meio século a Inglaterra era ainda tão vitoriana que os diretores do jornal Sunday Times, em 1954, sentiram-se obrigados a publicar um editorial com o título Lei e Hipocrisia, revelando quem ganhava com a perseguição aos homossexuais ingleses (policiais e juízes corruptos, além dos bandidos verdadeiros, evidentemente).

Esses personagens circulam pelo filme ao redor de um rico advogado em ascensão, Melville Farr (Dirk Bogarde), prestes - por suprema ironia - a virar juiz. Casado com uma professora (Sylvia Syms), seu passado vem à tona quando o jovem empregado de uma construtora, "Boy" Barrett (Peter McEnery), é preso por roubar 2 mil libras de seus patrões. O inspetor Harris (John Barrie), encarregado do caso e intrigado com a pobreza dos aposentos do garoto, desconfia que esse dinheiro foi parar nas mãos de chantagistas. Vendo recortes de jornais com fotos de Farr num livro guardado por Barrett, Harris tenta entrar em contato com o advogado. Este, inicialmente, se recusa a colaborar, com medo de colocar em risco sua carreira e reputação, assim como havia negado ajuda a Barrett, chantageado por bandidos.

Não há a mínima insinuação de sexo entre os dois, mas é possível que algumas cenas tenham sido cortadas, pois uma revista de época mostra Dirk Bogarde e Peter McEnery em situação íntima. O advogado, pressionado pela mulher, que tem conhecimento de outras relações homossexuais do marido antes do casamento, acaba confessando o caso amoroso. A essa altura, o garoto Barrett já se enforcou na prisão e Farr, sem nada mais a perder, resolve ceder e colaborar com a polícia na investigação.

Instigado mais uma vez pela mulher, Farr dispara a frase mais controvertida do filme: "Parei de vê-lo porque eu o desejava. Você entende? Eu o desejava!". Desnecessário dizer que não só a Inglaterra ficou chocada. Os EUA vetaram o filme, que acabou sendo posteriormente exibido apenas em pequenas salas de arte. E, de fato, é o que Meu Passado me Condena é. Por trás da capa de um policial noir - aspecto acentuado pela irretocável fotografia em preto e branco do checo Otto Heller (1896-1970) -, o filme disfarça seu conteúdo sociológico com a estrutura de um thriller bem acabado, diálogos precisos e um roteiro impecável de Janet Green e John McCormick (roteiristas de Sete Mulheres, último filme de John Ford). A dupla, aliás, serviu-se do British Board of Film Censor (organização hoje apenas classificatória de filmes) para cortar cenas que poderiam ter impedido sua exibição na Inglaterra - o diálogo de Farr com a mulher teria sido eliminado, se Dearden não tivesse se oposto ao corte.

Ainda que o espírito liberal do diretor tenha prevalecido - e influenciado os filhos Torquil e James Dearden, ambos homens de cinema -, Meu Passado me Condena foi visto por defensores dos direitos homossexuais como uma produção um tanto tímida, por usar termos como "invertidos" de uma forma negativa, quando se refere a gays. Enfim, não se pode agradar a todos.

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